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25/06/2018 20:24 -03 | Atualizado 25/06/2018 21:47 -03

Senado diz que maconha causa 'morte', mas remove publicação após críticas

Post ficou 24 horas no ar e teve milhares de compartilhamentos. Senado atribuiu informações à Academia da Polícia Federal.

A página do Senado no Facebook publicou no domingo (24) um post que dizia que o consumo de maconha pode levar o usuário à morte. A publicação, que teve cerca de 50 mil compartilhamentos em 24 horas no ar, foi removida após uma enxurrada de críticas de internautas e especialistas.

Intitulado "Os males sobre a maconha", o material apontava o que seriam "possíveis efeitos imediatos" e "possíveis efeitos do uso continuado" da cannabis. Nos efeitos de curto prazo estavam dificuldade de pensar, falta de coordenação motora, alucinações, agressividade e morte.

Como efeitos de longo prazo, foram citados desencadeamento de psicose e esquizofrenia em pessoas com predisposição, câncer, doenças cardiológicas, doenças pulmonares, falta de motivação, perda de memória e, novamente, morte.

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Post do Senado dizia que maconha causa "agressividade" e "morte".

"Diante da grande repercussão e polêmica geradas pelo post enfocando a maconha, a Secretaria de Comunicação Social do Senado, responsável pelo Facebook e pelo Twitter da instituição, optou pela sua retirada das redes sociais", informou a Casa em nota à imprensa.

O material integrava uma campanha para a Semana Nacional Antidrogas e, de acordo com o Senado, as informações foram retiradas do site da Academia Nacional da Polícia Federal. Questionada sobre a fonte dos dados, a Polícia Federal não se pronunciou.

Para Luís Fernando Tófoli, professor de psiquiatria da Universidade de Campinas (Unicamp), a publicação do Senado promove "pânico moral".

"É óbvio que o uso de maconha traz riscos, mas é preciso informar os riscos corretos. Dizer que causa morte é muito grave. Esse tipo de postagem só serve para dar a falsa sensação de que o órgão - no caso o Senado - está fazendo alguma coisa, está sendo responsável em relação a um assunto", disse Tófoli ao HuffPost Brasil.

"Mesmo que as informações estivessem corretas, não há evidências de que esse tipo de ação funcione, é uma suposta prevenção", continua o professor. Segundo ele, uma campanha de prevenção efetiva precisa de informação de qualidade para chamar a atenção e gerar engajamento.

Ao buscar uma "fonte inadequada", o material do Senado faz afirmações que carecem de evidências científicas.

"Falar em falta de motivação, por exemplo, é algo atualmente muito questionado. Cada vez mais estamos nos dando conta de que existem fatores sociais em jogo. Quanto à agressividade, alguém que é psicótico e fuma maconha pode ter uma crise agressiva, mas, para uma pessoa que não tem transtorno mental, é muito difícil", diz Tófoli.

A publicação do Senado, contudo, foi correta ao dizer que o uso prolongado de maconha pode desencadear doenças como esquizofrenia em pacientes com predisposição para tal, segundo o professor.

"É um elemento positivo, do ponto de vista científico, do texto, que não disse que maconha 'causa esquizofrenia', como se ouve muito por aí. Pessoas jovens devem evitar consumir maconha pois existe um risco para quem tem predisposição a desenvolver esquizofrenia. Então, nesse ponto, o texto é menos alarmista."

Andrea Gallassi, professora da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que o Senado estava disseminando fake news. Gallassi já integrou a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e foi consultora da Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde.

"A assessoria do Senado Federal está dando péssimo exemplo ao divulgar fake news sobre os malefícios do uso de maconha. Não há, sequer, uma morte reportada pela ciência atribuída ao uso de maconha. Amedrontar se valendo de mentiras não é o caminho republicano para informar a população, e a resposta a essa tosquice foi imediata", escreveu a professora no Facebook, em post acompanhado do seguinte meme:

Reprodução
Meme que circulou após post do Senado também criticou os efeitos negativos da proibição.