COMPORTAMENTO
25/06/2018 17:07 -03 | Atualizado 25/06/2018 17:08 -03

Como falar de suicídio de uma maneira que realmente ajuda

O suicídio não é apenas um problema de outros, é um problema de todos.

Conversas produtivas sobre suicídio podem ajudar a combater o estigma e possivelmente a salvar uma vida.
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Conversas produtivas sobre suicídio podem ajudar a combater o estigma e possivelmente a salvar uma vida.

As mortes por suicídio, como os casos recentes da designer Kate Spade e do chef Anthony Bourdain, são trágicas e nos lembram que os problemas de saúde mental não discriminam com base no sucesso das pessoas. Problemas de saúde mental podem se esconder em plena vista, às vezes diante dos olhos dos entes queridos ou até da própria pessoa que os sofre.

Um novo estudo publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) constatou que o índice de suicídios é crescente, tendo subido mais de 25% desde 1999. O que é especialmente alarmante é que 54% das pessoas que se suicidaram em 2015 não tinham nenhum problema conhecido de saúde mental – ou seja, provavelmente não estavam se tratando nem fazendo nada para lidar com problemas agudos como dificuldades de relacionamentos, problemas financeiros ou outras crises pessoais.

Tudo isso significa que é preciso haver um diálogo melhor em torno da saúde mental e esse diálogo deve ocorrer não apenas na esteira de tragédias públicas, quando já é tarde demais. É provável que você não fale de autolesão fatal com sua família ou amigos durante o jantar. O suicídio pode ser um tópico desagradável e incômodo do qual tratar. Mas é uma conversa necessária e que precisa ocorrer regularmente.

A seguir, especialistas fazem sugestões concretas de maneiras como conversar produtivamente com seus entre queridos sobre o tema do suicídio, sobre por que é importante não evitar esse assunto, quer as pessoas que você ama estejam em crise, quer não. Uma conversa pode até salvar uma vida.

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Entenda que autolesão é algo que pode acontecer com alguém que você conhece.

Muitas pessoas acham suicídio e autolesão um tema angustiante, mas que provavelmente nunca os afetará de perto, e por essa razão evitam falar do assunto. Quem diz isso é Dan Reidenberg, diretor executivo da Suicide Awareness Voices of Education.

"A melhor maneira de falar de suicídio é aberta e francamente. Muitas vezes as pessoas têm medo da palavra e se negam a falar dela", ele comentou. "Elas têm noções preconcebidas sobre o suicídio e acham que isso nunca vai acontecer, então não falam do assunto."

A realidade, porém, é que o suicídio é a décima maior causa de mortes nos Estados Unidos, tanto que quase 45 mil americanos se suicidam todos os anos. Os índices de tentativas de suicídio e atos de lesão intencional autoprovocada são ainda mais altos. O suicídio não é apenas um problema de outros, é um problema de todos.

Saiba que falar de suicídio não vai agravar o problema.

Falar de suicídio não exacerba o problema. Pelo contrário, ajuda.

"A recomendação mais importante a fazer é conversar atentamente. As evidências já deixaram claro que falar de suicídio não causa suicídio", disse Colleen Carr, vice-diretora da National Action Alliance for Suicide Prevention. "Pelo contrário, falar abertamente sobre sentimentos e pensamentos suicidas pode ajudar uma pessoa, promovendo um sentimento de esperança e ajudando a pessoa em seu processo de recuperação."

Fale sobre o tópico de suicídio como você falaria de qualquer outro problema de saúde.

Discutir qualquer outro problema de saúde não é vergonhoso. O suicídio deveria receber a mesma consideração.

"Quando uma pessoa sofre com uma doença mental ou pratica autolesão, ou mesmo no caso de quem não o faz, precisamos ser capazes de falar do suicídio do mesmo modo como falarmos de diabetes, mesmo que a pessoa com quem você esteja conversando não tenha o problema", disse Reidenberg. "Pense nas corridas de 5km de campanhas contra o câncer de mama ou a diabetes. Centenas de milhares de pessoas em todo o país participam desses eventos, mesmo que não conheçam ninguém que tenha essas doenças."

Fale abertamente de experiências difíceis pelas quais você possa estar passando.

Falar de suas dificuldades pode incentivar outras pessoas a fazer o mesmo. E, se você conhece alguém que está passando por uma fase difícil, transmita à pessoa que você tem consciência disso e se preocupa com ela. Para Reidenberg, pode ser útil iniciar um papo com frases como "o que você vem fazendo para superar esta crise?" ou "ultimamente você parece um pouco indisposta, o que está acontecendo?"

"O suicídio é uma coisa complexa e não é causado por um fator único [como doença mental], mas por uma conjunção de fatores como relacionamentos, abuso de substâncias, saúde física, trabalho, problemas financeiros e legais", acrescentou Carr. "Podemos dar apoio a amigos, entes queridos e outras pessoas que estejam passando por uma fase sofrida da vida ou enfrentando uma doença mental, do mesmo modo como ajudamos nossos amigos e familiares que enfrentam uma doença física."

Ouça atentamente quando alguém está falando.

É importante não apenas convidar as pessoas a se abrirem, mas ouvir ativamente o que elas dizem e refletir esse fato quando você responde.

"Também é muito importante transmitir seu carinho e preocupação com a pessoa, e o que é crucial é a sinceridade", falou Reindenberg. "Se você realmente se importa, faça questão de mostrar isso à pessoa, para que ela não pense que você está apenas ouvindo sem qualquer intenção de ajudar."

Faça perguntas diretas, pontuais.

Se seus amigos ou entes queridos parecem estar em risco, é importante falar com eles sem rodeios, disse Victor Schwartz, diretor médico da organização de saúde mental The Jed Foundation.

"Se a pessoa parece estar sofrendo, tudo bem perguntar se ela anda pensando sobre autolesão", disse Schwartz. "Se a resposta for 'sim', vale a pena perguntar se há algum plano específico e se a pessoa pensa em colocar o plano em prática. Também é útil indagar sobre coisas que possam levar a pessoa a sentir esperança em relação ao futuro."

Abandone os seus preconceitos.

Discussões sobre a validade das doenças mentais e suas consequências não são produtivas, segundo Reidenberg (sem falar que não têm mérito real). Seja como for, todas essas ideias preconcebidas devem ser deixadas para trás quando se discute algo ligado à vida ou morte.

"Quando você conversar sobre suicídio com alguém que pode estar com pensamentos suicidas, deixe seus vieses e suas ideias morais a esse respeito de fora da discussão", ele recomendou. "Esse não é o bom momento para dar aula de moral a alguém que enfrenta uma doença que o faz sentir que sua vida está em crise."

Aceite que você vai se sentir incomodado – e que tudo bem.

Um pouco de desconforto é melhor do que a alternativa, que seria deixar de ter uma conversa importante, disse Schwartz.

"Ficar aberto a ouvir alguém falar de sua dor e a ajudar essa pessoa a encontrar ajuda – isso pode ajudar a salvar vidas", ele prosseguiu. "Essa conversa sempre será difícil. É assustador conversar com alguém que está passando por sofrimento moral grave. Não é possível normalizar uma conversa desse tipo. Mas podemos aceitar o desconforto e entender que, mesmo assim, é a coisa certa a fazer."

Não minimize o problema.

O suicídio é sério. Ponto final.

"Quando você falar sobre suicídio, faça-o com a mesma seriedade com que encara qualquer outra conversa sobre uma doença", aconselhou Reidenberg. "Não minimize as doenças mentais, não negue que elas são reais, que elas provocam sofrimento. Não fale delas em tom de quem está dando aula de moral. Você não diria a alguém com câncer para 'simplesmente superar o problema'."

Se a opção for falar ou ficar silêncio, sempre escolha falar.

Reidenberg enfatizou: se você estiver na dúvida sobre falar de suicídio ou não, é melhor sempre errar pelo lado de dizer alguma coisa.

"Se todo o mundo se dispuser a iniciar uma discussão sobre suicídio, poderemos começar a criar um sistema amplo para salvar mais vidas", ele explicou. "Perguntar sobre suicídio não vai colocar a ideia do suicídio na cabeça de uma pessoa, não vai incentivá-la a isso. Na realidade, pode ajudar a reduzir sua ansiedade e seu sofrimento, e, potencialmente, salvar sua vida."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.