25/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 25/06/2018 11:03 -03

Aline Silva: A lutadora que sonha em levar o esporte para a vida de outras meninas

Atleta de luta olímpica viu no esporte a chance de mudar de vida e quebrar preconceitos: "Eu queria devolver ao mundo tudo que eu recebi através do esporte, porque mudou minha vida."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Aline Silva é a 110ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Quando ela chega, parece que mais alguma coisa entra junto pela porta. Uma presença. Uma força. Logo de cara já dá para ver que isso realmente ela tem de sobra. Aline Silva, 31 anos, atleta de luta olímpica, aparece assim na casa da mãe, na zona sul de São Paulo. Dá um beijo em dona Lídia e toda a sua presença vai se espalhando pelos cômodos. Já chega conversando, sorrindo e falando rápido. Logo conta que ali, naquele quintal do terreno compartilhado com outros parentes, ela gostava de brincar de Power Ranger com os primos. "Queria sempre fazer uma lutinha." Fez muitas ao longo da vida. Dona Lídia que faz as contas. Pega com cuidado as caixas onde guarda as medalhas da filha. "São 190. Contei esses dias", diz ela enquanto acaricia suavemente uma delas, com naturalidade. Ali, as duas se acostumaram às premiações. Aline é vice-campeã mundial de luta olímpica e medalhista pan-americana na modalidade. Mas nem sempre foi assim.

Hoje, Aline mora em Cubatão, na Baixada Santista, onde defende o Sesi-SP. Vive do esporte há 20 anos e além de estar focada em se preparar para os jogos olímpicos de Tóquio, Aline está cheia de gás com seu novo projeto. No início do ano começou um trabalho em uma escola da região para empoderar meninas através do esporte, o Mempodera. "Devido a minha história, eu queria devolver ao mundo tudo que eu recebi através do esporte, porque mudou minha vida, minha pessoa." A modalidade escolhida para trabalhar com as garotas foi a que mais domina, claro. "Idealizei com a luta para que as meninas começassem a entender que lugar de menina é lutando, sim. Porque ainda é muito mistificado como se o esporte de combate não fosse de menina."

Idealizei com a luta para que as meninas começassem a entender que lugar de menina é lutando, sim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Dona Lídia que faz as contas. Pega com cuidado as caixas onde guarda as medalhas da filha. "São 190. Contei esses dias."

Aline sabe melhor do que ninguém como uma menina pode lutar. Na sua vida, além da brincadeira de Power Ranger, encarou muitos outros embates. E foi o esporte que mostrou que ela poderia brigar de outra forma. "Eu fui criada só pela minha mãe e ela trabalhava muito para sustentar a gente. Com 11 anos eu já era grandona e achava que sabia o que queria da vida e vivia andando na rua e fazendo o que não se deve e tive um coma alcoólico. Minha família me achou no meio da rua mesmo, desmaiada, correram comigo para o hospital". Foi nessa época que a mãe de Aline descobriu que a filha não estava nem indo às aulas. "Era uma escola pública que nunca nem avisou minha mãe que eu não ia. Ela, muito desesperada, conseguiu um colégio particular e barato aqui perto. Fez um acordo para pagar e a vantagem lá eram os esportes."

Foi quando as coisas começaram a mudar. O gosto dela por lutinha virou aula de judô na escola. Foi gostando da coisa. Logo conseguiu bolsa de estudos por causa da luta e aos 16 anos foi introduzida à luta olímpica, convencida por seu professor de judô. Participou de um campeonato brasileiro e já saiu campeã. Ainda tentou conciliar as duas modalidades, mas foi enviada pela confederação de luta para um campeonato mundial em Nova York.

Eu fui criada só pela minha mãe e ela trabalhava muito para sustentar a gente. (...) Puxei isso da minha mãe, porque ela sempre se virou, fez de tudo, trabalhou muito.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Aline e Dona Lídia: a inspiração para um caminho de lutas (fora e dentro do ringue).

"Voltei e não coloquei mais quimono. Fiquei só na luta olímpica. Mas o que eu mais falo que o esporte mudou minha vida é que hoje não só eu me sustento, não só transformou minha vida e das pessoas ao meu redor financeiramente, mas foi através do esporte que tive condição de me formar na minha faculdade, é através do esporte que eu pude conhecer 30 países e isso quer dizer entender mais o ser humano, aceitar as diferenças. O esporte ensina para a vida porque no dia a dia você se desafia, você aprende a lidar com derrota, te ensina a respeitar seu adversário, a lidar com a dor."

Lidou com isso tudo. Até conseguir receber um salário como atleta ela teve que se virar. Chegou a não ter o que comer, sofreu com lesões, teve altos e baixos. Vendeu toalhas com bordado, ajudava a tia manicure de vez em quando, vendeu alfajor, sanduíche natural. "Puxei isso da minha mãe, porque ela sempre se virou, fez de tudo, trabalhou muito. Minha mãe é parte de toda minha história. Ela é ponto principal de tudo isso. Então sempre tive muito essa característica de me virar, o que ajudou a me manter. Eu não desistia do sonho e me virava de algum jeito."

As coisas melhoraram quando ela conseguiu entrar no Programa Bolsa Atleta e quando fechou com o Sesi. Conseguiu se formar na faculdade de estética e está terminando o curso de Educação Física. Além disso, Aline é também atleta da marinha e tem hoje o apoio que precisa para treinar e se preparar para as competições. O que ela sabe que nem todos podem ter. "Tenho várias amigas que se veem em uma crise porque elas têm condições de trazer resultado internacional, mas não tem suporte, estrutura de treino. Sem ajuda e patrocínio, elas nunca vão chegar. Você não imagina o quão difícil é lidar com esse sentimento de você ter a motivação, lidar com todo contratempo e lidar com a realidade de que não é suficiente. Sua vontade, seu sacrifício não é suficiente porque você não tem o recurso."

O esporte ensina para a vida porque no dia a dia você se desafia, você aprende a lidar com derrota, te ensina a respeitar seu adversário, a lidar com a dor.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Ainda somos vistas como entretenimento no esporte e não como rendimento."

Quando conseguiu os recursos, Aline viu que tinha que agradecer de alguma forma. Foi assim que nasceu seu projeto de luta para meninas, que também precisou de um tempinho para sair do papel. Tudo andou mais rápido quando ela conseguiu participar de um intercâmbio nos EUA que falava justamente sobre empoderar mulheres através do esporte. "Eu tinha tentado em 2014, mas eu não tinha o inglês fluente, mas queria tanto que fui aprender inglês, estudando por conta enquanto me preparava para os Jogos Olímpicos e em 2017 consegui! Foi incrível e lá consegui idealizar o projeto."

Viu que era possível colocar em prática e na volta ao Brasil foi o que fez. Com o objetivo de transformar a vida de meninas por meio do esporte decidiu ensinar a luta e dar também aulas de inglês para que essas garotas tivessem mais oportunidades. "Fechamos uma parceria com uma escola em Cubatão que fica na frente da minha casa, em uma região que nada mais é do que o local onde a prefeitura mandou uma antiga favela que pegou fogo anos atrás. [Essas pessoas] estão esquecidas e abandonadas." Além das aulas de luta e de inglês, o projeto realiza também atividades para que essas meninas se conheçam melhor. "A gente já discutiu gênero e sexo, conflitos, autoimagem. E elas não debatem isso em outro lugar. Não querem falar, não querem pensar. Percebi que nunca tiveram esse espaço para falar de si."

Você não imagina o quão difícil é lidar com esse sentimento de você ter a motivação, lidar com todo contratempo e lidar com a realidade de que não é suficiente.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Aline sabe melhor do que ninguém como uma menina pode lutar.

No projeto, elas falam. Aline quer que elas percebam a pressão que as mulheres sofrem na sociedade e todos os preconceitos que existem. E deixá-las prontas para combater isso. "As mulheres ganham menos que os homens inclusive nos esportes. A mídia ainda transmite de um jeito diferente... nas disputas femininas registra os momentos de suposta feminilidade, de beleza e não a força, a destreza, não a capacidade competitiva. Ainda somos vistas como entretenimento no esporte e não como rendimento. E isso que a gente tenta trazer para as meninas no projeto....mostrar que ser bonita é ser forte, sim. Que nós queremos ser remuneradas por nossa aptidão."

Ainda somos vistas como entretenimento no esporte e não como rendimento. E isso que a gente tenta trazer para o projeto: nós queremos ser remuneradas por nossa aptidão.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Com o projeto, Aline quer que as meninas percebam a pressão que as mulheres sofrem na sociedade e superem isso.

É com isso que Aline sempre trabalhou. Sua aptidão. Agora se prepara para mais um desafio. "O sonho da minha vida é conseguir uma medalha olímpica, eu que já tenho os melhores resultados internacionais do Brasil. Para completar falta a medalha olímpica e aí posso me aposentar tranquila e em paz. Vou me preparar. Vai ser apertado, difícil, mas atleta é isso. Atleta tem que superar."

É preciso força mesmo. Mas Aline tem algo a seu favor: sabe que lugar de mulher é na luta.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC