MUNDO
22/06/2018 14:58 -03 | Atualizado 22/06/2018 15:53 -03

Processo para reunir crianças detidas com seus pais imigrantes é 'caos total' nos EUA

Especialistas em imigração dizem que não existe um sistema em operação para reunir as famílias separadas.

Especialistas em imigração que estão trabalhando para reunir as famílias dizem que o governo Trumo não tem nenhum sistema em operação para resolver um problema que ele próprio criou.
John Moore via Getty Images
Especialistas em imigração que estão trabalhando para reunir as famílias dizem que o governo Trumo não tem nenhum sistema em operação para resolver um problema que ele próprio criou.

Na manhã da última quinta-feira (21) no tribunal de McAllen, Texas, os pais migrantes que aguardavam por suas audiências estavam preocupados principalmente em localizar seus filhos.

Carlos García, um advogado de imigração, contou que uma mãe que fugira da violência de gangues em El Salvador queria saber quando poderia rever seu filho de 16 anos. "Por favor nos ajude para que fiquemos juntos outra vez", ela falou em voz baixa, chorando.

García lhe disse a verdade: "Não podemos garantir que você vá reencontrar seu filho no futuro próximo", disse o advogado texano, observando a expressão de desespero tomar conta do rosto da salvadorenha.

Dos 7 migrantes com quem ele falara naquela manhã, apenas um dos pais recebera alguma informação da Patrulha de Fronteira sobre como entrar em contato com seu filho: uma folha de papel com um número 1-800 criado pelo Escritório de Reassentamento de Refugiados, um organismo federal.

"Se existe um sistema já operante para a reunificação de pais com seus filhos, os pais que perderam seus filhos não estão sendo informados disso", falou García. "Eles não entendem o que está acontecendo, não sabem como entrar em contato com seus filhos. Tudo é extremamente difícil para eles."

Na quarta-feira (20) o presidente Trump anunciou uma ordem executiva cancelando a política de separação de crianças migrantes de seus pais na fronteira.

Mas o governo Trump parece não ter nenhum plano claro para a devolução de mais de 2.300 crianças a seus pais. A situação está tão grave que John Sandweg, o ex-chefe do Serviço de Imigração e Alfândega, disse à MSNBC que acha que a política de tolerância zero de Trump pode levar à separação de longo prazo de famílias e que alguns pais "podem nunca voltar a rever seus filhos".

Alguns migrantes já foram deportados dos EUA sem seus filhos. Especialistas em imigração que estão trabalhando para reunir as famílias dizem que o governo não tem nenhum sistema em operação para resolver um problema que ele próprio criou.

"Essas mães e filhas evidentemente nunca deveriam ter sido separadas, para começo de conversa", falou Thomas Buser-Clancy, advogado da ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) do Texas. "Mas a ideia de que não exista um plano em operação para reuni-los e que é altamente provável que algumas crianças nunca sejam devolvidas a seus pais, isso é simplesmente horroroso."

Especialistas dizem que, na maioria dos casos, as crianças foram tiradas de seus pais logo depois de atravessarem a fronteira e foram colocadas em diferentes centros de detenção provisória.

De acordo com García, a Patrulha da Fronteira disse a alguns dos migrantes que ele entrevistou que eles veriam seus filhos novamente depois de passarem por uma audiência judicial, mas isso não aconteceu. Para outros pais não foi dada informação alguma.

"Quando os migrantes perguntam 'para onde estão levando meu filho?', ninguém responde," disse Buser-Clancy. "As mães contam que elas e suas filhas choraram quando foram separadas e que não têm ideia se voltarão a ver suas filhas no futuro."

AFP/Getty Images
Manifestantes protestam contra a política de "tolerância zero" de Donald Trumo

Quando os migrantes terminam de passar pelas audiências judiciais e são colocados em centros de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), disse Buser-Clancy, seus filhos provavelmente já terão sido transferidos para instalações de internação de mais longo prazo em qualquer lugar do país e estarão oficialmente sob a custódia do ORR (Serviço de Reassentamento de Refugiados). "Os pais que tiverem a sorte de ser informados onde seus filhos estão detidos vão ouvir algo como 'seu filho está em algum lugar na Virgínia ou em Miami'."

Mas a ideia de que não exista um plano em operação para reuni-los e que é altamente provável que algumas crianças nunca sejam devolvidas a seus pais, isso é simplesmente horroroso. Thomas Buser-Clancy, advogado da ACLU do Texas

Mas nem mesmo esse mínimo de informação é dado a muitos pais. "Pais que estão separados de seus filhos há três ou quatro dias obviamente estão sofrendo ansiedade grave, desesperados para saber onde estão seus filhos", falou Buser-Clancy. "Imagine a dor que eles sofrem por ignorar o que foi feito de seus filhos." Ele descreveu o processo do governo para reunir as famílias como sendo "aleatório e marcado pela fria indiferença ao trauma pelo qual estão passando os pais e os filhos".

Um porta-voz do Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras (CBP) disse ao HuffPost em e-mail: "Em relação às crianças ainda sob a custódia da Patrulha das Fronteiras, nós as estamos devolvendo a seus pais ou responsáveis legais que foram entregues à custódia da Patrulha da Fronteira depois de ter sido processados". Ele apontou para o site na internet do Departamento de Segurança Interna, que afirma que todo local em que migrantes são detidos por mais de 72 horas tem cartazes com números de telefone e endereços de e-mail através dos quais os pais podem tentar localizar seus filhos.

O ICE não respondeu ao pedido de informações do HuffPost.

Buser-Clancy disse que não viu nenhum cartaz desse tipo nos centros de detenção e que nenhum dos pais com os quais conversou tem conhecimento da existência de um telefone para informações.

Ele já viu migrantes apresentarem pedidos por escrito para descobrir onde se encontram seus filhos; alguns tiveram resposta, outros, não. Na melhor das hipóteses, ele disse, um pai ou mãe é autorizado a falar pelo telefone com seu filho.

Grier Weeks, executivo sênior da Associação Nacional de Proteção à Criança, diz que o governo deveria ter implementado um sistema mais eficiente de rastreamento para monitorar as famílias. "Eles precisam colocar todos em um mesmo banco de dados e saber onde está cada pessoa em qualquer momento dado", ele disse ao HuffPost. "O governo se preocupa com uma criança menos do que a Amazon se preocupa com um pacote. Se não fosse assim, ele conseguiria rastrear onde estão essas crianças."

García disse que as autoridades imigratórias deveriam no mínimo ter dado aos pais os números de identificação de seus filhos, conhecidos como "alien numbers" (número de estrangeiro) e dados a cada imigrante não documentado que entra para a custódia dos Estados Unidos.

"Se o governo vai deixar crianças desacompanhadas, deveria ter um sistema operante que facilite a devolução dessas crianças às suas famílias", ele disse. "A situação é de caos absoluto."

Elissa Steglich, professora no Departamento de Imigração da Escola de Direito da Universidade do Texas, disse que, por enquanto, os pais só conseguem reaver seus filhos se seus pedidos de asilo são deferidos. Se eles são deportados, pode ser muito difícil reencontrarem seus filhos, que podem estar em instalações do governo ou lares de acolhimento.

"O trauma e o dano psicológico duradouro imposto a essas crianças é altamente repreensível", disse Steglich. "Devemos moral e legalmente reuni-los com seus pais imediatamente."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.