23/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 23/06/2018 02:39 -03

Bianca Brochier: Quando a prática do pole dance leva ao encontro da beleza interior

Ela só queria fazer exercícios, mas se apaixonou pela dança que a levou para perto de sua subjetividade: "A sensualidade coloca o que a gente realmente é para fora".

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Bianca Brocher é a 108ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Bianca Brochier, de 27 anos, era uma menina do tipo que não fazia "nem educação física no colégio". Daquelas que pagavam o pacote de três meses na academia e desapareciam após duas semanas. Mas, há sete anos, descobriu no pole dance uma forma prazeirosa - e muito sensual - de fazer exercícios, e não parou mais.

Depois de dois anos treinando todos os dias, pesquisando novos movimentos na internet, se transformou em professora na escola onde praticava. "Se eu ficava entediada da faculdade, ia para o estúdio treinar", conta em entrevista ao HuffPost Brasil. Logo abandonou os planos de ser pesquisadora (não sem antes concluir o curso de Ciências Sociais) e hoje é professora -- além de sócia -- de um estúdio de pole dance em Porto Alegre, batizado de Velvet Pole & Tease.

Na primeira aula as alunas chegam de camisetão, e aos poucos vão diminuindo a quantidade de roupa. Elas começam a se achar incríveis, fortes, bonitas.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Depois de tanto praticar, Bianca se tornou professora -- e uma verdadeira apaixonada pelo poder do pole dance.

O estúdio tem alunas de 16 a 56 anos - e alunos homens também: além das cerca de 40 mulheres, há dois homens frequentando as aulas, que vão dos exercícios de força, para conseguir se suspender na barra, até os movimentos mais dançados e acrobáticos. Desde o início, a atividade exige autoconfiança. "O pole te desafia, te obriga a se olhar no espelho", observa a professora que, nestes anos de carreira, já viu muito namoro e casamento acabar, porque tudo é sobre confiança e autoestima.

"E a confiança reverbera em toda a tua vida", observa. Isso leva muitas mulheres a perceberem que querem mais de um relacionamento. "Na primeira aula elas chegam de camisetão, e aos poucos vão diminuindo a quantidade de roupa; elas começam a se achar incríveis, fortes, bonitas, compram um shortinho que mostra a metade da bunda. É pra sensualizar mesmo, e isso não é um problema nem nunca será!", diz Bianca.

Quando faz uma prática corporal, a gente se conhece muito melhor. É a melhor maneira de se conectar consigo mesma.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
O espelho, muitas vezes inimigo, se torna aliado na prática de enxergar a beleza no próprio corpo.

Autoconhecimento é uma das palavras que melhor define a prática do pole dance. Bianca fala bastante sobre isso. "Eu era muito tímida. Não gostava nem de trabalho em grupo na escola. Descobri outra pessoa que eu nem sabia que era, passei a aceitar meu corpo muito melhor. Quando me apresento, tenho controle e gosto do que estou mostrando. A gente tem de descobrir o próprio corpo, usar ele para fazer algo que não seja só sentar a bunda em uma cadeira e trabalhar", provoca.

A ressignificação é parte importante do pole dance praticado hoje. Afinal é uma dança inventada nos clubes de strip tease com o propósito de vender corpos de mulheres. A popularização começou nos Estados Unidos, nos anos 1990, quando a stripper Fawnia Mondey gravou DVDs à la Jane Fonda, só que ensinando a dançar no pole, no estilo "aprenda a seduzir como uma stripper".

A gente tem de descobrir o próprio corpo, usar ele para fazer algo que não seja só sentar a bunda em uma cadeira e trabalhar.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
A ressignificação é parte importante do pole dance praticado hoje.

O fetiche masculino em torno da prática, é claro, existe: há alunas cujas aulas são bancadas por parceiros que querem ser presenteados com uma dança particular. Mas, para quem se encontra para dançar, conversar, dar risadas e bater cabelo, o sentido é outro. "Enquanto comunidade, o pole é muito feminista, empoderador, o ambiente de sororidade é incrível", afirma a professora.

Além de dar aulas, Bianca também se apresenta uma vez por mês em Porto Alegre, no Von Teese High Tea and Cocktail Bar, e em eventos para os quais é convidada. Já ouviu de elogios grosseiros enquanto está no palco a propostas para programas depois que desceu dele, mas não encana quando sua arte é mal interpretada. "Também não me ofendo se me perguntarem se sou prostituta, porque, afinal, é um trabalho, não é? Não podemos sabotar nossas colegas que trabalham com isso". Ela, inclusive, já deu aulas para algumas.

Não me ofendo se me perguntarem se sou prostituta, porque, afinal, é um trabalho, não é? Não podemos sabotar nossas colegas que trabalham com isso.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"Enquanto comunidade, o pole é muito feminista, empoderador, o ambiente de sororidade é incrível."

Ainda existe outra "vertente" do pole dance, menos sensual e dançada: o pole fitness, mais focado nas acrobacias. Existe até a Associação Internacional de Pole Dance Fitness. São completamente diferentes, ressalta Bianca, porque a intenção é outra: exercício e tonificação muscular. Mas não no Velvet. "Aqui, a coisa é sensualizar mesmo, bater cabelo, usar lingerie".

Sem constrangimentos, e com bastante bom humor.

E amor.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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