21/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/06/2018 12:17 -03

Caroline Ricca Lee: O uso da memória como forma de expressão, arte e militância

Artista visual e perfomer busca em suas heranças asiáticas o sentido para seu trabalho e ativismo: "Eu já fazia parte do movimento feminista, mas ainda não tinha noção do que era questão de raça."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline Ricca Lee é a 106ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Tem um pouco de várias coisas. Uns bordados que ela faz, algumas peças de cerâmica que esculpiu, fotos, um chinelo feito pela avó japonesa pendurado na parede, um altar com uma peça dessa mesma avó, uma máquina de costura da outra avó, chinesa, frases que a inspiram, imagens de obra de arte que ela tatuou no braço, pedaços de tecidos. Fragmentos de vidas. Pedaços dela. Caroline Ricca Lee, 27 anos, artista visual, performer e ativista tem buscado justamente isso em tudo que faz: a si mesma.

Estuda, busca referências, mas é quando olha para si e para suas origens que encontra as informações mais ricas. Sua mãe é de ascendência japonesa. Sua avó veio para o Brasil de navio, aos 2 anos, e as duas são muito próximas. Compartilham histórias e vivências. Por parte de pai, a família é chinesa. Os avós vieram para o Brasil na fuga da revolução cultural. Mas a proximidade é outra.

"É uma quebra da construção identitária porque não tenho contato com a minha família chinesa. Eu descobri umas fotos agora porque minha avó foi hospitalizada, mas eu não cheguei a conhecê-la; até numa retórica artística tenho falado muito sobre essa construção de memórias que não são passadas como heranças faladas porque ninguém me apresentou essas memórias."

Eu já fazia parte do movimento feminista, mas ainda não tinha noção do que era questão de raça.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
As fotografias que Caroline guarda servem de apoio para fazer um exercício para além de lembrar: não esquecer.

Essas fotos que encontrou estão em sua mesa. Junto com os tantos outros pedaços de si. É um exercício diário olhar para todas essas partes. E foi dessa observação que muita coisa foi ganhando sentido e significado para ela. "Sempre cito minha avó nesse contexto de primeiros sentimentos porque ela é japonesa e veio muito pequena para o Brasil, então foi criada dentro de uma comunidade japonesa. Eu já fazia parte do movimento feminista, mas ainda não tinha noção do que era questão de raça. Vivenciava a xenofobia desde pequena sendo a única asiática na escola, mas ainda não entendia e tentava me 'embranquecer' de diversas maneiras."

Aos poucos, foi entendendo melhor algumas todas essas questões. O segredo? Observar e não esquecer. "Comecei a observar minha avó e perceber como ela era oprimida. Ela sofria opressão de dois sistemas patriarcais. O brasileiro, da opressão dos nossos corpos; e o asiático que atuava dentro da casa que era gerida pelos homens de ascendência japonesa e asiática", aponta. "Ela tinha uma pressão fora e dentro de casa e isso fazia com que ele perdesse totalmente sua subjetividade e liberdade. Eu comecei a tentar mapear como isso chegava até mim e, a partir disso, entendi que meu corpo também era oprimido e minha vivência como mulher vinha carregada por essas duas forças."

O corpo asiático vem nesse lugar do exótico, quase não humano, não tem individualidade, tem uma falta de identidade, de autonomia.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline ficou quase 10 anos no mercado da moda, até que percebeu que preferia viver das suas criações - não da dos outros.

Caroline já discutia e pensava sobre diversas questões feministas, e se identificava com muitos desses temas, mas começou a ver que quando compartilhava as suas vivências nem sempre se sentia totalmente compreendida. "O corpo asiático vem nesse lugar do exótico, quase 'não humano'. Não existe individualidade, existe falta de identidade, de autonomia. E iniciando essa reflexão sobre o lugar da mulher asiática através de observar a minha avó e levando isso até minha mãe, até chegar a mim, percebi como era uma questão necessária de ser pautada."

Foi quando ela fez uma chamada nas redes sociais para marcar um encontro com mulheres asiática. A intenção era montar um grupo de estudos e discussão sobre isso. E assim começava a nascer, em 2016, a PlataformaLótus, hoje um coletivo interseccional que promove a representatividade e inclusão de mulheres brasileiras de ascendência asiática na agenda feminista. Dar espaço e voz para esse tipo de encontro e discussão é algo muito importante para a atuação de Caroline e para seu processo de entendimento sobre seu papel no mundo.

"É incrível como as mulheres que chegaram ao coletivo vieram com a frase de 'eu achava que eu era branca'. Criar grupos de etnias tão plurais é também entender esse reconhecimento e pertencimento de histórias muito semelhantes, mas de vivências muito distintas, e até de uma necessidade de criar aberturas de vozes", conclui. "Eu, sendo uma mulher de descendência asiática do leste, amarela, tento abrir vias e formas de tornar visível a vocalização das manas marrons, porque são grupos étnicos que acabam sendo marginalizados dentro do colorismo no Brasil, marginalizado no contexto dentro de uma diáspora de refúgio", completa.

É incrível como as mulheres que chegaram ao coletivo vem com a frase de 'eu achava que eu era branca'.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela busca em suas heranças asiáticas o sentido para seu trabalho e ativismo.

Caroline está feliz com o andamento dos trabalhos e com o crescimento do coletivo. E apesar da atuação virtual, não abre mão dos encontros presenciais com as integrantes. Ela sabe que ali a discussão ganha outros contornos. "Estar junto, olhar no olho, compartilhar histórias é o que devolve parte de nós mesmas. A Lótus agora está montando um canal de youtube que se chama 'Hibryda' e no final das gravações a gente fica quase como um grupo de apoio. Cada mulher que eu encontro devolve um pedaço perdido, devolve um pedaço negado, devolve um pedaço de mim. Estamos retomando nossas forças, nossas memórias e nossas identidades por meio do movimento feminista."

E na vida de Caroline, tudo é costurado. Evidente. Formada em moda, achou que ali conseguiria trabalhar a sua relação com roupas, algo antigo em sua vida. Segundo ela, nunca aprendeu a costurar em casa, mas olhando para toda a história da sua família ela entende o motivo. "Minha mãe foi muito essa mulher que quis negar a domesticação. Quando eu comecei a costurar era uma coisa de 'pra que você está fazendo isso?', sabe? Mas eu sinto que essa questão da roupa veio lá trás para eu entender o vestível como uma tela; e de usar meu corpo desde cedo como uma forma de expressão, criar amor pela roupa, criar amor de vestir a roupa da minha mãe e me sentir parte dela. E eu pensei que meu lugar era na moda."

Entre as histórias dessas duas mulheres tão importantes em sua trajetória, a ativista estava alinhavando a sua. "Minha mãe foi essa mulher dos anos 80 que quis trabalhar, fazer coisas antes de construir uma família. Exatamente porque minha avó foi essa figura da domesticação. Mas acho que o bonito de você chegar aos extremos é entender o caminho do meio. E é isso que eu tenho fazer."

Cada mulher que eu encontro devolve um pedaço perdido, devolve um pedaço negado, devolve um pedaço de mim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Acho que o bonito de você chegar aos extremos é você entender o caminho do meio e é isso que eu tenho fazer."

Ficou quase dez anos no mercado da moda, até que percebeu que não queria trabalhar fazendo produto e foi viver da sua arte. "Sou artista visual e é louco como era um embate no início trabalhar em tantas mídias. Foi uma pacificação entender que realmente meu trabalho se dá de várias formas. E entender que eu sou múltipla e que, com a compreensão de que eu sou composta da minha subjetividade, do meu corpo, da minha raça, do meu gênero, da minha memória, da minha herança -- e que eu sou, sim, artista visual, costureira free stlyle, perfomer, figurinista."

Foi libertador reconhecer essa atuação em tantas frentes diferentes. E, apesar de realmente ser bastante coisa, tudo se une de uma forma ou de outra. "A linguagem do meu trabalho é bem crua e até poluída. Uso a costura como essa forma de costurar na pele. A roupa é a pele que a gente apresenta para a sociedade e você costurar na pele é como ter uma tatuagem". O gosto pela costura é antigo e como ela já contou, não veio da mãe. Mas veio de algum lugar. Mesmo com pouca informação sobre a família chinesa, quando mostra a máquina de costura no canto do quarto conta, quase sem grifar a informação: "minha avó chinesa ganhava a vida costurando quando chegou no Brasil".

Foi uma pacificação entender que eu sou múltipla e com a compreensão de que eu sou composta da minha subjetividade, do meu corpo, da minha raça, do meu gênero, da minha memória, da minha herança.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Segundo ela, nunca aprendeu a costurar em casa, mas olhando para toda a história da sua família ela entende o motivo.

Tudo está mesmo costurado. Tanto que seu trabalho artístico conversa muito com a sua formação e atuação com moda. "A beleza e a moda foram espaços de reencontro comigo e de autocuidado, de autoconhecimento para entender como eu posso trabalhar o meu corpo como uma grande tela de expressão; como eu posso trabalhar o meu rosto como um grande espaço de expressão. Eu quero me colocar como minha obra, expor minha vivência."

E ela coloca. Seu corpo é registro de muitas coisas que transcende a memória.

Caroline sabe que vai virar história. Na verdade, já é.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC