NOTÍCIAS
21/06/2018 09:12 -03 | Atualizado 22/06/2018 16:03 -03

100 dias sem resposta: Quem mandou matar Marielle?

Prestes a completar 100 dias, assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes não tem motivação conhecida. 'Se esse crime não for solucionado, toda a democracia estará ameaçada', diz Marcelo Freixo.

A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros no dia 14 de março, no Rio.
Reprodução/PSOL
A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros no dia 14 de março, no Rio.

A execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes completa 100 dias na sexta-feira (22) sem que a sociedade saiba quem são os assassinos e o que motivou o crime.

Conduzida pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a investigação segue sob sigilo. As principais linhas de apuração apontam para a atuação de milícias ou, ainda, crime político.

"A investigação vai dizer qual grupo político matou a Marielle, seja ele um grupo partidário ou de milícia ou seja lá o que for. E é isso que a gente quer saber. A gente quer saber quem matou, quem mandou matar e por quê", disse o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao HuffPost Brasil.

Amigo e padrinho político de Marielle, Freixo defende que as autoridades sejam constantemente cobradas, mas diz que confia no trabalho da polícia. Segundo ele, o grau de complexidade do crime impõe um ritmo particular à investigação.

"É um crime sofisticado, não vai ser resolvido no tempo do nosso desejo. Mas há um empenho grande, então é importante que a gente apoie essa investigação. E tem que ter cobrança também, para deixar claro que a Marielle não será esquecida e que esse é um caso que não poderá ser esquecido", afirmou o deputado.

Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
Marcelo Freixo: 'A Marielle não será esquecida e esse é um caso que não poderá ser esquecido'

"Todos os crimes têm que ser investigados. Não é que o valor da vida dela seja maior que o de qualquer outra pessoa, mas houve ali um crime contra a democracia. Se esse crime não for solucionado, toda a democracia estará ameaçada", completou Freixo.

A investigação vai dizer qual grupo político matou a Marielle, seja ele um grupo partidário ou de milícia. A gente quer saber quem matou, quem mandou matar e por quê.Marcelo Freixo.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse na terça-feira (19) em entrevista à Rádio Eldorado que os investigadores já sabem quem são os "prováveis mandantes e assassinos" e que o foco agora está na "construção de provas" contra os suspeitos.

Um dos elementos que torna o caso ainda mais complexo é o fato de que Marielle não havia recebido nenhuma ameaça.

Testemunha

Em maio, o jornal O Globo revelou que uma testemunha apontou quem seriam os mandantes da execução: o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM e miliciano Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando de Curicica (bairro da zona oeste do Rio), que atualmente está preso – ele responde por homicídio e porte ilegal de arma. Ambos negam envolvimento com a morte de Marielle.

O delator, que é PM e miliciano, procurou a Polícia Federal de forma espontânea e alegou que estava sendo ameaçado pelos supostos assassinos.

Segundo ele, o crime teria sido motivado pelo avanço de ações de Marielle em áreas de interesse da milícia. Conhecida pela defesa dos direitos humanos, a vereadora atuava em todas as frentes: denunciava abusos da Polícia Militar, atendia vítimas da milícia e também dava apoio a policiais vitimados pela violência no Rio e suas famílias.

Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto/Getty Images
Homenagem a Marielle Franco em São Paulo.

O depoimento do delator, no entanto, é considerado frágil. A polícia descobriu recentemente que a testemunha poderia ter alguma ligação com a família Brazão, que disputa com Siciliano a influência política na zona oeste. A família é representada por Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado e ex-vereador e ex-deputado estadual pelo MDB, e seu irmão, o vereador Chiquinho Brazão (Avante). Ambos negam envolvimento com o caso.

"Qualquer testemunha tem que ser ouvida e investigada, mas esse depoimento vem sendo muito questionado. A testemunha tem que ser investigada pelo que disse e por aquilo que quis dizer, e a interesse de quem", afirmou Freixo.

Cobrança

A Anistia Internacional também está empenhada em cobrar das autoridades a elucidação do caso. Para a organização, as autoridades precisam mostrar mais compromisso com a apuração rigorosa dos fatos.

"A gente compreende que as investigações estejam sob sigilo, mas o silêncio das altas autoridades não é aceitável. As autoridades deveriam vir a público com frequência para garantir que o caso será solucionado da forma correta, independentemente do tempo que a investigação levar", disse Renata Neder, coordenadora de Pesquisa, Políticas e Advocacy da Anistia Internacional Brasil, ao HuffPost Brasil.

Se o caso não for solucionado, o Estado estará passando a mensagem de que é permitido matar defensores de direitos humanos. Isso desmobiliza as pessoas, gera medo, gera silêncio.Renata Neder, da Anistia Internacional.

Segundo Neder, alguns elementos indicam que a imparcialidade das investigações pode estar sob risco. Ela cita, por exemplo, a informação de que armas do mesmo modelo da que teria sido usada na execução de Marielle e Anderson foram desviadas.

Uma das hipóteses dos investigadores é que os assassinos tenham usado uma submetralhadora HK MP-5, armamento de uso restrito e pouco utilizado, inclusive pelas polícias. As forças de segurança do Rio teriam 71 exemplares no total, mas em maio a imprensa revelou que 5 dessas armas foram desviadas do arsenal da Polícia Civil em 2011.

Para a Anistia, a informação pode comprometer a competência da Polícia Civil de investigar o caso. "Ninguém veio a público dar explicação sobre onde estão essas armas. Quais foram as medidas tomadas para investigar o desaparecimento dessas armas?", questiona a coordenadora.

Renata Neder afirma que, olhando o histórico do Brasil, o risco de que o caso Marielle termine sem solução preocupa.

"Ninguém quer isso, e é por isso que nós estamos mobilizados. O Brasil, em geral, não investiga homicídios de defensores de direitos humanos. Esse caso parece ter, sim, o envolvimento de agentes do Estado, e a gente sabe que no Rio a Polícia Civil não costuma investigar os casos de homicídio com participação de policiais."

Yasuyoshi Chiba/AFP/Getty Images
Renata Neder, coordenadora da Anistia Internacional, em foto de 2017.

Mulher negra, da favela, "cria da Maré", lésbica e defensora dos direitos humanos, Marielle Franco foi a 5ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro em 2016. O crime contra ela e Anderson, cometido na noite do último dia 14 de março, aconteceu em um Rio sob intervenção federal. Por essas e outras razões, a repercussão do duplo homicídio foi grande não só no Brasil, mas em todo o mundo.

"Se o caso não for solucionado, o Estado estará passando a mensagem de que é permitido matar defensores de direitos humanos. Isso desmobiliza as pessoas, gera medo, gera silêncio e interrompe a luta por direitos", disse Neder. "E sendo vereadora, o assassinato de Marielle significa também uma ruptura democrática."

Nas eleições de 2018, o PSOL deve lançar pelo menos 19 mulheres - muitas delas negras - para a disputa da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Para Marcelo Freixo, este é o sinal de que o partido não está disposto a recuar.

"É uma resposta. Quem matou a Marielle, seja lá quem for, de alguma maneira tenta produzir mais medo. Mas esse recado não está sendo aceito. Quando o PSOL reage, vai para a rua, exige justiça e lança 19 candidatas mulheres, ele dá uma resposta ao medo."