MUNDO
19/06/2018 16:29 -03 | Atualizado 21/06/2018 09:19 -03

Carta de Mossul

"A maior e mais longa batalha urbana de qualquer lugar do mundo desde a Segunda Guerra Mundial foi travada para retomar Mossul do Estado Islâmico."

United Nations High Commissioner for Refugees
A year after its liberation, much of West Mosul still lies in ruins.

A maior e mais longa batalha urbana de qualquer lugar do mundo desde a Segunda Guerra Mundial foi travada para retomar Mossul do Estado Islâmico. A liberdade foi conquistada a um preço pavoroso: milhares de civis foram mortos na operação, que durou um ano, grandes sacrifícios foram feitos pelas forças de segurança iraquianas e curdas e grandes partes da cidade foram reduzidas a escombros.

Boa parte da zona oeste da cidade, o último reduto do EI, ainda está em ruínas hoje, um ano depois de o grupo terrorista ser derrotado na cidade. É como se os disparos tivessem silenciado apenas ontem.

O Estado Islâmico atacou civis em muitos países. Em seu auge, a organização chegou a controlar mais de um terço do território do Iraque e metade do território sírio. Mais de 70 países integraram a coalizão militar e diplomática formada para combatê-la. E, se aprendemos alguma coisa com os últimos dez anos no Oriente Médio e Afeganistão, é que se "vencemos" militarmente mas não damos ajuda eficaz na sequência para assegurar a estabilidade, o ciclo de violência continua.

Seremos culpados de realizar uma espécie de triagem moral coletiva, escolhendo seletivamente quando e onde defenderemos os direitos humanos, por quanto tempo e em que grau?

Seria de se imaginar que nada fosse mais importante que tentar garantir que o extremismo violento nunca mais possa retornar a Mossul. Seria de se prever que a reconstrução de uma cidade que foi símbolo da diversidade, da convivência pacífica e do legado cultural fosse uma das maiores prioridades de um governo iraquiano que quer estabilizar o país. Seria de se imaginar que as ruas da zona oeste de Mossul estivessem cheias de equipamentos de reconstrução, removedores de minas, arquitetos, planejadores urbanos, órgãos governamentais, ONGs e especialistas em patrimônio histórico e cultural mundial, todos dando assistência técnica ao Iraque em um plano mestre para reconstruir a cidade.

Entretanto, um ano após a expulsão do EI, a zona este de Mossul está abandonada, em ruínas, num cenário apocalíptico. As paredes que ainda estão em pé estão crivadas de buracos de balas e projéteis de morteiros. O silêncio nas ruas é fantasmagórico: 500 mil [verificar]ex-moradores da cidade estão vivendo em campos, porque não há casas para as quais voltarem. Cadáveres fétidos ainda se espalham pelas ruínas, aguardando ser recolhidos.

Em ruas que parecem inteiramente inabitáveis, algumas poucas famílias trabalham retirando os escombros de suas casas com as próprias mãos, enfrentando o perigo dos explosivos ocultos que o EI deixou para trás. Na semana passada ocorreu uma explosão em uma casa que fez 27 mortos e feridos.

Ainda pior que a ruína física da cidade é o trauma invisível imposto à paisagem emocional de sua população. Os moradores que retornam à cidade perderam suas casas, em que suas famílias viviam havia gerações; perderam seus bens, suas economias e até mesmo os documentos que comprovam sua identidade. Comunidades de diferentes religiões – cristãos, yazidis e muçulmanos – que antes conviviam lado a lado foram separadas e agora estão divididas.

Um homem me abordou com lágrimas nos olhos e relatou que foi açoitado por militantes. Uma criança me contou que viu um homem ser morto diante dela na rua. Uma mãe e um pai descreveram a noite em que um projétil de morteiro atingiu a filha adolescente deles, arrancando suas pernas e deixando os ossos fraturados expostos. Eles a carregaram ao hospital e suplicaram ao EI por atendimento médico. Foram barrados, e a filha sangrou nos braços deles até morrer.

Injustiças e sofrimentos dessa magnitude são impossíveis de quantificar. Para as pessoas que sobreviveram a essas experiências, o fato de terem sido abandonados por sua própria conta e em grande medida esquecidas parece totalmente errado e profundamente inquietante. A distância entre o que elas merecem e o tratamento que estão recebendo é chocante.

Eu me perguntei se em qualquer outro momento da história teríamos reagido diferentemente ao que aconteceu em Mossul. Teríamos reagido como reagimos após a libertação da Europa dos nazistas, na Segunda Guerra Mundial, e inundado a cidade de assistência para sua reconstrução?

Pensei também nos sobreviventes dos ataques com armas químicas, dos bombardeios de hospitais, dos estupros organizados e da inanição intencional imposta a civis, todas características dos conflitos contemporâneos, e me perguntei se teremos ficado insensíveis ao sofrimento humano. Será que, à luz da história recente, duvidamos tanto de nossa capacidade de agir com eficácia no exterior que começamos a tolerar o intolerável? Seremos culpados de realizar uma espécie de triagem moral coletiva, escolhendo seletivamente quando e onde defenderemos os direitos humanos, por quanto tempo e em que grau?

Em Mossul, sinto que eu estava no ponto zero dos fracassos e erros da nossa política externa dos últimos dez anos. Mas também estava em um lugar que representa a capacidade humana de sobrevivência e renovação, além da permanência obstinada dos valores humanos nos corações individuais.

Penso em um pai que conheci e na alegria dele pelo fato de suas duas filhas pequenas terem podido voltar à escola. Paupérrimo e sem casa para morar, ele falou como se não tivesse bem mais valioso que os boletins escolares de suas filhas. Não pode haver símbolo mais profundo da vitória sobre o EI que todas as meninas de Mossul poderem frequentar a escola e se saírem bem nos estudos.

Nem uma única família que visitei na zona oeste de Mossul me pediu nada. Elas não estão contando com nossa ajuda. A história de Mossul começou há três mil anos; tenho certeza que sua população conseguirá sobreviver a três anos sob o Estado Islâmico. Mas seria muito melhor se encarássemos a recuperação de seus habitantes como nossa empreitada comum, do mesmo modo como enxergamos a derrota do EI como nossa responsabilidade coletiva.

Angelina Jolie é a enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, co-fundadora da Iniciativa Preventiva da Violência Sexual e cineasta.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.