COMPORTAMENTO
18/06/2018 18:55 -03 | Atualizado 18/06/2018 19:03 -03

Trânsito sem semáforos? Conheça o conceito de “espaço compartilhado”

O que caracteriza um espaço compartilhado é a participação colaborativa.

Fietsberaad

Em diversos lugares do mundo, alguns testes estão sendo feitos para tornar as ruas mais tranquilas e o trânsito mais seguro para todos. Foi assim que, em 2004, surgiu o conceito de "espaço compartilhado", a partir de um projeto de pesquisa financiado pela União Europeia. Os primeiros países a aderirem foram Inglaterra, Holanda, Dinamarca, Bélgica e Alemanha. Hoje, mais de 400 cidades já colocam em prática essa ideia.

Na Holanda, por exemplo, a cidade de Makkinga removeu a sinalização de trânsito (incluindo os semáforos) e transformou um antigo cruzamento de cinco ruas em uma praça. Com velocidades mais reduzidas, pedestres e motoristas passaram a interagir visual e verbalmente, diminuindo o número geral de acidentes, conforme mostrou um estudo.

As ruas compartilhadas são a idealização de como uma cidade deve ser. Em vez de os carros dominarem os espaços sozinhos por meio de separações físicas e dispositivos de controle como calçadas, semáforos e outros, eles dividem o espaço com os pedestres, que não precisam mais ficar encurralados em pequenas áreas por conta do perigo de serem atingidos pelos automóveis.

Como funcionam os "espaços compartilhados"

O que caracteriza um espaço compartilhado é a participação colaborativa: eliminam-se as restrições e regulamentações para que os próprios atores (motoristas e pedestres) tornem aquele local mais tranquilo e seguro. Cada um se responsabiliza pela sua segurança e a dos demais, diminuindo o conflito e os acidentes de trânsito. Porém, a implementação de locais assim exige alguns cuidados, confira:

Em primeiro lugar, o desnível entre asfalto e calçadas precisa ser eliminado. Rua e passeio público quase se "fundem" visualmente.

Outra característica importante é a utilização do local. Para que o novo desenho funcione, é necessário que diferentes atividades sejam realizadas simultaneamente, como o comércio, a moradia, o convívio e a circulação.

Por último, os limites de velocidade dos veículos motorizados devem ser diminuídos, contribuindo para que os pedestres possam se sentir mais seguros. Com menos velocidade, os motoristas conseguem se relacionar melhor no espaço que os cercam. Isso humaniza a relação dos condutores e os espaços pelos quais eles circulam.

Nos Estados Unidos, os resultados já têm sido evidentes. Estudos recentes mostram a eficiência do espaço compartilhado ao reduzir o número e a gravidade dos acidentes. Veja alguns exemplos de cidades que implementaram espaços compartilhados com sucesso.

Auckland, Nova Zelândia

No centro da cidade, as calçadas e as ruas não têm mais a separação de barreiras de concreto desde 2011. Agora, ambas estão integradas numa única superfície. Os veículos tiveram de reduzir a velocidade durante o dia. Com menos carros circulando pela região o número de acidentes foi estabilizado.

Bohmte, Alemanha

Desde 2007, a cidade alemã retirou todos os sinais de trânsito e pintou as ruas de uma só cor, sem separar espaços para cada tipo de transporte. Não é mais possível estacionar carros nas ruas. Segundo as autoridades locais, os cidadãos se comunicam mais no trânsito.

Drachten, Países Baixos

Um dos responsáveis por criar a ideia de espaços compartilhados é Hans Monderman, engenheiro holandês. Seu primeiro teste foi, justamente, em Drachten. Ali, os sinais de trânsito foram retirados para que pedestres e motoristas pudessem conviver pacificamente.

Londres, Reino Unido

Em uma das maiores cidades do mundo, um local movimentado, a Exhibition Road, foi transformada para acomodar melhor os transeuntes. Depois de sete anos de planejamento e três de construções, a capital londrina ganhou seu espaço compartilhado em 2012. Os pedestres circulam livremente e têm a preferência a todo momento, enquanto os motoristas esperam gentilmente a vez para passar. O número de acidentes caiu 60% e as lojas da região reportaram crescimento nas vendas. Pedestres e ciclistas passaram a usar mais o espaço, o que aumentou a diversidade de quem circula por ali.

E no Brasil?

A ideia dos espaços compartilhados ainda não chegou por aqui, mas isso não quer dizer que o nosso trânsito não seja impactado por algumas ideias inovadoras. Várias empresas têm experimentado aplicativos para incentivar um comportamento mais gentil no trânsito.

É o caso, por exemplo, da seguradora Porto Seguro, que lançou em junho o aplicativo Trânsito+gentil, que é baseado em um sistema de gamificação. Ao analisar os dados do trajeto percorrido – velocidade, frenagem, como o motorista entra nas curvas, entre outras métricas – o app pontua o usuário. Quem dirige melhor (e aqui leia-se: de forma mais segura) ganha mais pontos.

A ideia é incentivar por meio da recompensa – e não da punição – um comportamento mais seguro e gentil.