19/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/06/2018 00:00 -03

Silvia Koller: A pesquisadora que foi pioneira ao olhar para crianças em situação de rua

Com o projeto CEP-Rua, ela foi a primeira mulher que estudou aspectos positivos do comportamento de crianças em situação de rua. "Não queríamos olhar só para que não deu certo".

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Silvia Koller é a 104ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

A 65 dias de se aposentar, a psicóloga e pesquisadora, Silvia Koller, está tranquila, quase aliviada: ela sabe que, apesar do encerramento das atividades do Centro de Estudos Psicológicos CEP-Rua, o trabalho que ela construiu ao longo de 25 anos continuará com as dezenas de profissionais formados no local.

Ela, aos 58 anos, é uma referência no Brasil e fora dele. Isso porque, no início dos anos 1990, escolheu um tema ainda não estudado na academia para trabalhar em seu doutorado: crianças e adolescentes em situação de rua. Sua pesquisa tem como marca o paradigma da chamada "psicologia positiva": estudar como crianças se desenvolvem normalmente e psicologicamente saudáveis, apesar dos contextos adversos onde foram criadas. Trocando em miúdos: olhar para a saúde, e não para a doença.

Não queríamos olhar só para o que não deu certo, mas também aspectos positivos preservados apesar das condições precárias de vida, como bem-estar, superação das condições de risco, capacidade de ajudar o outro.

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Aos 58 anos, Silvia é pioneira no estudo da saúde e não da doença, quando tema é vulnerabilidade e situação de rua.

Foi durante a elaboração da tese "Julgamento moral pró-social de meninos e meninas de rua", defendida em 1994, que ela criou o CEP-Rua, em Porto Alegre, um programa pioneiro de pesquisa e extensão com alunos de doutorado, mestrado e graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Contatei instituições que trabalhavam com crianças, e eles me deixaram trabalhar, desde que desse algo em troca", contou em entrevista ao HuffPost Brasil. Assim, surgiu uma colaboração mútua entre os pesquisadores, que tinham acesso à realidade da rua e às pessoas que faziam parte dela; e os profissionais, que recebiam qualificação para o atendimento dos jovens.

Os alunos ouviam dos meninos e meninas relatos de violência, abuso, exploração do trabalho e toxicodependência entre as experiências vividas dentro de casa que os compeliam a ir para rua. "Quis entender então o que acontecia com essas famílias, com os irmãos que ficam em casa. E constatamos que os que buscam a rua são os mais resilientes, os mais fortes psicologicamente, a ponto de buscar uma saída". E, nas instituições de acolhimento, eles encontravam mais razões para estar fora de casa do que para voltar.

Silvia explica: "O objetivo das instituições era tirar as crianças da rua, mas, dando comida, roupas, recreação; sem um compromisso, sem hora marcada, acabavam incentivando ainda mais que eles saíssem de casa. Havia uma disparidade entre o que as instituições pretendiam e o que realmente acontecia. Foi preciso colocar regras, horários, vínculo com a escola".

A preocupação das mães é com o que vão comer daqui a pouco. E os pais dessas crianças ou não existem, ou estão ali fisicamente apenas.

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Sem registros, Silvia tem um cálculo de cabeça e estima que mais de 10 mil alunos passaram pelo CEP-Rua ao longo do tempo.

O grupo percebeu que era preciso, então, além de qualificar o atendimento especializado, trabalhar com as famílias. "Trabalhamos com mais de 1 mil crianças, e apenas 3 disseram 'eu não tenho família'. As referências familiares existem: pai, mãe, madrinha; mas são dispersas, não se comunicam. São famílias muito instáveis. A preocupação das mães é com o que vão comer daqui a pouco. E os pais dessas crianças ou não existem, ou estão ali fisicamente apenas. Não ajudam, não trabalham, são alcoólatras, desempregados, não agem como pais".

O CEP-Rua tinha três funções: pesquisa, intervenção (aplicação do conhecimento gerado na pesquisa em trabalhos de extensão) e formação de novos profissionais. Isso incluía capacitar quem trabalhava nas instituições e escolas que atendiam os meninos e meninas em situação de rua. Ia desde disciplinar os horários das refeições e atividades até a elaboração de cartilhas e manuais, que ensinam por exemplo aos profissionais como identificar e encaminhar casos de violência e, às crianças, como pedir ajuda.

"Silvia sempre teve essa preocupação de aproximar a academia da comunidade. Aprendi muito a unir pesquisa e extensão participando de capacitações em conselhos tutelares, escolas", recorda a psicóloga Carolina Lisboa, ex-orientanda de mestrado e doutorado da pesquisadora. Ela também conta ter aprendido a importância de produzir e publicar artigos sobre o tema. "Não para fazer [currículo] Lattes, mas para divulgar nosso trabalho, debater os resultados com a comunidade científica, e assim construir conhecimento", observa Carolina.

Em 1994, formar psicólogos para trabalhar com meninos de rua era uma temática inédita no Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
O CEP-Rua tinha três funções: pesquisa, intervenção (aplicação do conhecimento gerado na pesquisa em trabalhos de extensão) e formação de novos profissionais.

Sem registros, Silvia tem um cálculo de cabeça e estima que mais de 10 mil alunos passaram pelo CEP-Rua ao longo do tempo. O centro de pesquisa fecha as portas em agosto de 2018, mas a professora diz que ele "transcendeu": "Ele não existe mais no lugar físico, mas sim, nas pessoas que passaram por lá e seguem trabalhando, pesquisando na área". O legado está espalhado, afirma, em todos os continentes, em diversos países para onde migraram ex-alunos.

A psicóloga também comemora o fato de que, desde o início das atividades, a realidade das crianças em situação de rua mudou substancialmente. "O Bolsa Família teve um efeito fantástico por que as mães recebem dinheiro com o compromisso de mandar os filhos para a escola. Isso ajudou muito a tirar as crianças da rua. A sociedade civil está mais consciente em relação à violação dos direitos das crianças, e as instituições de apoio estão melhor preparadas", aponta.

Quanto a si, uma coisa é certa: Silvia não vai ficar parada. É professora honorária da Universidade de Chiclayo, no Peru, e da Universidade Autónoma de Peru, além de professora associada na North-West University, de Vanderbijlpark, na África do Sul. Ela também coordena o comitê internacional de pesquisa da Society for Research in Child Development, é membro do International Society for the Study of Behavioural Development e da Society for Research in Adolescence e do corpo editorial de 25 publicações especializadas (sendo 15 internacionais).

O Bolsa Família teve um efeito fantástico por que as mães recebem dinheiro com o compromisso de mandar os filhos para a escola, e isso ajudou muito a tirar as crianças da rua.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Mesmo com o fechamento da instituição, Silvia garante: "Tenho muito trabalho até 2024."

Ela também é revisora de outras 23 (12 internacionais) e de 12 projetos de fomento à pesquisa, entre os quais o European Research Council Executive Agency e a World Childhood Foundation. Com isso, passa boa parte de seu tempo envolvida em estudos e eventos internacionais. No primeiro semestre de 2018, viajou 6 vezes para fora do país e já tem participação confirmada em eventos em Portugal, Canadá e Austrália. Ainda está organizando um congresso em Baltimore (EUA) em 2019. "Tenho muito trabalho até 2024", projeta.

Neste meio tempo pelo menos uma viagem será de lazer, dedicada a um hobby adquirido há cerca de meio ano: o motociclismo. No verão, faz planos de ir de Porto Alegre a Santiago, no Chile, com o namorado e a família - na garupa de uma moto.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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