COMPORTAMENTO
18/06/2018 18:34 -03 | Atualizado 18/06/2018 18:35 -03

Gamificação: transformando o dia a dia em diversão

De onde surgiu essa ideia? Como ela se espalhou? Como a gamificação está sendo usada hoje?

David Grandmougin

Os jogos são velhos conhecidos de todos nós, mas uma nova ideia está misturando a lógica dos games com a vida real: a gamificação. Por meio desse novo conceito, atividades e locais corriqueiros se tornam plataformas para a diversão. De onde surgiu essa ideia? Como ela se espalhou? Como a gamificação está sendo usada hoje?

Em 2009, Jane McGonigal, doutora em artes performáticas pela Universidade de Berkeley, sofreu um acidente doméstico que resultou em uma lesão cerebral. Informada de que sua recuperação seria longa, decidiu aproveitar suas dificuldades para transformá-las em um jogo. Pediu a amigos e familiares que lhe dessem pequenas missões para que ela continuasse motivada. Coisas como olhar pela janela com calma e andar um pouco mais do que ela havia andado no dia anterior.

As tarefas propostas resultavam em pontos; em contrapartida, tomar café (algo proibido pelo médico) a fazia perder pontos. A brincadeira ganhou um nome, o jogo SuperBetter. Mais tarde, McGonigal desenvolveu o jogo e o expandiu, conseguindo arrecadar US$ 1 milhão. Hoje, ele é um aplicativo que ajuda as pessoas a construírem resiliência e enfrentarem questões difíceis em suas vidas.

Jane McGonigal é uma das pioneiras da gamificação, a prática de aplicar a mecânica de jogos à vida real. Por conta da pesquisadora, essa ideia se espalhou pelo mundo e começou a fazer parte de diversas áreas como negócios, saúde e a vida social. Sua palestra no TED e seu livro "Reality is Broken: Why Games Make Us Better and How They Can Change the World" (A realidade está estragada: por que os games nos tornam melhor e como eles podem mudar o mundo, em tradução livre) se tornaram influentes pelo mundo todo.

Como funciona o sistema de gamificação?

A gamificação ajuda a criar incentivos para que os usuários realizem certas tarefas, melhorem seu desempenho em alguma atividade ou construam um hábito. Para gamificar algo, não é preciso ter um jogo necessariamente. Basta que exista um sistema de pontuação ou de recompensas.

Os jogos estão presentes na vida da humanidade há séculos. Muito antes dos videogames, já existiam jogos de cartas, por exemplo. A tecnologia, no entanto, permite ampliar esse horizonte. Com um dispositivo móvel não só é possível carregar dezenas de games, como também incorporá-los a atos corriqueiros, por exemplo, fazer exercícios, compras ou até dirigir.

Para que sua dinâmica funcione e agrade aos usuários, os jogos precisam ter três características, de acordo com Jane McGonigal: regras, metas e sistema de feedback voluntário.

As regras dizem respeito à estrutura geral do jogo, o que o jogador precisa fazer para cumprir as metas estabelecidas. Para que o usuário saiba como está indo, é necessário mostrar seu desempenho por meio do sistema de feedback, assim ele saberá do que precisa para cumprir as metas. A participação voluntária acontece, segundo McGonigal quando todo o resto está em harmonia e o jogador se sente motivado a continuar aceitando os desafios.

Além disso, os jogos têm três pilares que mantém o usuário motivado e disposto a continuar participando dos desafios. Em primeiro lugar, o jogador precisa ter autonomia, ou seja, estar no controle. Além disso, é necessário haver um propósito, uma causa que motive o usuário a continuar. Por último, a pessoa precisa sentir que tem domínio das técnicas do jogo; em outras palavras, precisa sentir que tem maestria. Assim, ela se sentirá mais segura para aceitar quando o nível de dificuldade aumentar.

Dirigir melhor vale pontos

Um exemplo de gamificação é o aplicativo que transforma a corrida em jogo de luta contra zumbis. Outro é o aplicativo Trânsito+gentil, que faz da condução segura e defensiva um desafio a ser cumprido toda vez que o motorista percorre algum trajeto (leia mais abaixo). Uma montadora chegou a testar um sistema de gamificação que incentivava os motoristas a andarem mais devagar em Estocolmo, na Suécia.

Cada vez que um condutor passava pelo radar abaixo da velocidade máxima, concorria a uma loteria. O prêmio era pago com o valor das multas de quem não respeitava o limite. O resultado? A velocidade média caiu em 22%.

No Brasil, a Porto Seguro quer usar a gamificação para tornar o trânsito mais gentil. O aplicativo T+G aplica os princípios dos jogos aos percursos dos motoristas. Usando o app, o motorista recebe um feedback depois que termina seu percurso e fica sabendo como foi seu desempenho na aceleração, frenagem, curvas, média de velocidade e outros dados que registram a condução do veículo.

Com esses dados, o aplicativo incentiva o usuário a melhorar suas habilidades e a conduzir de maneira mais segura. Existem, ainda, diversos incentivos para que ele continue jogando. Quanto mais usar o app, mais chances o motorista tem de ganhar descontos no seguro do carro e prêmios como viagens, eletrônicos e outros.

Todos os que baixarem o aplicativo e se cadastrarem ganham imediatamente 3% de desconto no Porto Seguro Auto. Os motoristas de 18 a 24 anos podem receber descontos de até 35%.