16/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 25/06/2018 11:49 -03

Josyara, a compositora ribeirinha que canta a mansa fúria do sertão baiano

“Ser artista independente é muito suor. Parece que não vai dar, sabe? Você pensa que tá de boa, mas mês que vem já é agora, e tem que pagar as contas todas de novo."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Josyara é a 101ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Nas margens do Rio São Francisco nasceu a beleza, como bem cantou Luiz Gonzaga. Lá na região do Vale, no estado da Bahia, a junção dos nome dos avós José - aquele que acrescenta - e Yara - a senhora das águas doces -, deu forma ao nome da menina ribeirinha que carrega na voz a segurança de ter a coragem de ser o que é: Josyara Lélis, ou só Josyara, como prefere ser chamada.

Com a letra J como um elo, ela é de Juazeiro. O sotaque entrega. Quem veio de lá também foi o inventor da Bossa Nova, João Gilberto; o Luiz Galvão, um dos poetas do Novos Baianos; e a soberana de Salvador, Ivete Sangalo. O talento, dizem as boas línguas, deve estar impregnado no solo, e entra por osmose no corpo dessa gente. A proximidade com Pernambuco, tendo apenas uma ponte separando e unindo ao mesmo tempo o município de Petrolina, faz com que a veia artística dos moradores seja potencializada.

Juazeiro é uma cidade que para mim significa casa e acolhimento, por ser tudo que me tem de memória do que é infância. Daquilo de se construir buscando as coisas por mera curiosidade.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Josyara tem sempre uma viola debaixo do braço.

"É uma cidade que para mim significa casa e acolhimento, por ser tudo que me tem de memória do que é infância. Daquilo de se construir buscando as coisas por curiosidade. Quando a gente é do interior, a gente tem isso de buscar a rua, da liberdade", explica ao HuffPost Brasil.

Foi lá, revirando um armário de casa, com a intromissão inerente a toda libriana que se preze, que encontrou um violão escondido junto a outras coisas que pareciam não ter valor. Seria lindo dizer que, ao encontrar o instrumento, ela tenha descoberto que aquilo era tudo que lhe faltava para a vida parecer completa. Como quase tudo na vida, nessa história, expectativa e realidade se desassemelham.

"Eu destruí o violão (risos). Joguei no chão, brincava destruindo as peças, pintei ele todo", conta. Após se tornar íntima do objeto, dar a ele sua cara e aprender sobre cada centímetro de sua extensão, mudou o tom da brincadeira. Decidiu que iria imitar as cantoras da época, como Cássia Eller e Marisa Monte, que, além da voz, traziam sempre uma viola debaixo do braço.

Foi mágico, impressionante. Tudo escuro e só aquela luz na minha cara. Eu só fechei olhos e toquei. E, quando acabou, eu fiquei paralisada.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A primeira música que aprendeu, foi "Vambora", de Adriana Calcanhoto.

"Ficava na frente de casa simulando que tava tocando, e uma amiga de minha mãe, que fazia shows em barzinho - lá em Juazeiro, isso é muito forte lá, principalmente 'na orla' -, e me perguntou se eu queria aprender". Aceitou o convite, e passou a ir, diariamente, na casa da mais nova professora. Estreou tocando para outras pessoas no Teatro João Gilberto. E a sensação de estar no palco a preencheu de uma maneira intensa. "Foi mágico, impressionante. Tudo escuro e só aquela luz na minha cara. Eu só fechei olhos e toquei. E, quando acabou, eu fiquei paralisada".

A primeira música que aprendeu, foi Vambora, de Adriana Calcanhoto. E como quem diz "você tem meia hora pra mudar a minha vida", ouviu, após alguns meses de curso, de um tio, o convite para estrelar um festival de música em uma cidade da região, Bom Jesus da Lapa. O nome do evento, Rock In Rio São Francisco, dá uma prévia do estilo que resolveu adotar aos 14 anos.

Abriu o show de Edson Gomes, com uma banda formada por amigos do pai - todos com mais de 30 anos nas costas. No repertório, outra baiana predominava. A cantora Pitty, que despontava nas paradas de sucesso com seu álbum de estreia Admirável Chip Novo, foi a grande guru da adolescência de Josyara. Assim como na sua estreia com o violão, foi uma mulher que lhe mostrou o caminho.

Tudo o que a cantora de Salvador ouvia, ela ouvia também. Dessa maneira, conheceu Nirvana, Ramones e outras bandas que formaram o seu primeiro repertório. Coincidência ou não, no ano seguinte, passou a dividir com Pitty não só os gostos, mas também a morada. Aproveitou que a família paterna vivia na capital baiana, e se mudou de mala e cuia para cursar música em um centro técnico.

O Sertão tá na minha raiz, no meu jeito de cantar e de falar. E o Recôncavo me deu essa coisa de tocar com a mão direita mais percussiva, me trouxe uma ligação com a música afro.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A tatuagem que representa um cangaceiro mostra que o Sertão está em sua raiz, em seu jeito de cantar e falar.

Já esboçava uma composição aqui e outra ali, mas, com a distância de casa, sua caneta ficou imparável. O rock, ela deixou para a atitude somente. Em suas canções, passou a carregar a saudade de Juazeiro e o encantamento com o novo lugar. "O Sertão tá na minha raiz, no meu jeito de cantar e de falar. E o Recôncavo me deu essa coisa de tocar com a mão direita mais percussiva, me trouxe uma ligação com a música afro.

Atrelado ao violão, seu melhor amigo, passou a levar a sério também a voz - antes um mero detalhe. Carrega consigo até os dias de hoje o conselho que ouviu da mulher que lhe ensinou os primeiros acordes: imagina uma linha reta. Se você desafinar, ela vai subir ou vai descer. O meu canto tem que ser linear. Eu vi que era prazeroso. Foi muito mais pelo prazer, do que um sonho que eu tivesse comigo. É o prazer de abrir a boca pra cantar e ser gostoso.

Aula vai, aula vem, começou a conhecer gente que, assim como ela, tinha no música o seu refúgio maior. Aos 19 anos, os shows que fazia em barzinhos e casas noturnas, com reeleituras de outros artistas, não pareceu mais suficiente. Era a hora de gravar o seu próprio material. Foi aí que surgiu um edital da Petrobras, e ela foi contemplada.

Ainda novinha, não teve tanta voz no processo de concepção do álbum."Eu nunca tinha entrado em estúdio antes. Eu não sabia o que eu queria, mas sabia o que eu não queria. E tinha uma força muito grande dos homens de lá,, querendo impor as coisas". Não queria bateria no CD, não teve jeito. Lhe impuseram. Das 13 faixas, só divulgou cinco - aquelas sem percussão.

Eu vi que cantar era prazeroso. Foi muito foi muito mais a partir do prazer que eu passei a sentir, do que um sonho que eu tivesse comigo. É o prazer de abrir a boca pra cantar e ser gostoso

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Josyara venceu o Natura Musical do ano passado, e passou a se dedicar exclusivamente à preparação do álbum

Dois anos depois de lançar o disco autoral que não lhe agradou por completo, recebeu um convite que mudou a sua vida. Uma ex-namorada, membro de movimentos estudantis, a convidou para ir para São Paulo de ônibus por R$ 30. O precinho amigo e a vontade de conhecer "essipê" falou mais alto. Ficou uma semana. Duas. Três. E só voltou para Salvador para buscar as coisas.

"Em São Paulo você anda, anda, anda e não sabe onde tá, é tudo muito gigante. Eu fui tocando aqui e acolá, comecei a tocar na rua, no Centrão, no Tabuleiro de Acarajé da Césario [Mota Júnior]... E paralelamente fazendo umas coisinhas menores, uns saraus. Mas é difícil para caralho, tem mês que não tinha dinheiro, não tinha nada, e eu me perguntava: 'E agora?".

Somou para caramba e voltou para casa com outra cabeça, com a vontade assentar todas as ideias, de reunir em um só lugar tudo o que viveu nessa fase "darkzera", em suas próprias palavras. Iria fazer, agora, um trabalho que lhe orgulhasse, que tivesse a sua cara, que realmente pudesse chamar de seu. Foi salva, mais uma vez, pelos editais. Venceu o Natura Musical do ano passado, e passou a se dedicar exclusivamente à preparação do Mansa Fúria.

Eu tenho muito disso da água dentro de mim. Uma hora maré mansa, calma, outra hora: pá! Quebrando tudo

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

O nome do CD, que deve sair em meados de agosto, vem por tudo aquilo que viveu, desde menina, no interiorzão baiano. "Eu sou uma pessoa muito tranquila, mas tenho muita raiva no coração também. E tem a minha relação com a água, como ribeirinha. Eu tenho muito disso da água dentro de mim. Uma hora maré mansa, calma, outra hora: pá! Quebrando tudo".

Em Salvador, onde está em processo de finalização do álbum, ainda mora com a família. Não tem como. A falta de casas culturais e oportunidades na cidade é inversamente proporcional à quantidade da nova safra de artistas que tem saído da boa terra. "Ser artista independente é muito suor. Parece que não vai dar, sabe? Você pensa que tá de boa, mas mês que vem já é agora, e tem que pagar as contas todas de novo".

Em meio a todos os reveses, sem dinheiro no bolso ou parentes importantes, como todo nordestino vindo do interior, sobrevive e permanece. Afinal, ainda citando Gonzagão, "a natureza ela conservou".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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