ENTRETENIMENTO
17/06/2018 23:00 -03 | Atualizado 18/06/2018 13:49 -03

'As Boas Maneiras', o filme que traz mito do lobisomem para São Paulo

Premiada em diversos festivais, fábula de terror dirigida por Juliana Rojas e Marco Dutra está em cartaz nos cinemas.

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Contradições e questões sociais e geográficas de São Paulo são abordados em 'As Boas Maneiras'.

Terror, fantasia e contrastes sociais se misturam em As Boas Maneiras, filme dirigido pelos cineastas paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas, em cartaz nos cinemas.

Na trama divida em dois atos, Clara (Isabél Zuaa) é uma moradora da periferia de São Paulo contratada por Ana (Marjorie Estiano) para auxiliá-la durante sua gestação e ser babá do futuro bebê. Ana é de uma família rica de Goiás, amante de sertanejo universitário, que não fala sobre o pai de seu bebê. A relação entre as duas se estreita no decorrer da gestação ao mesmo tempo que coisas perturbadores passam a acontecer em madrugadas de lua cheia.

"A ideia do filme veio de um sonho antigo que contei para a Juliana [Rojas], no qual duas mulheres apareciam em um lugar isolado e lá cuidavam de uma criança monstruosa", conta Dutra ao HuffPost Brasil. A descrição do sonho do diretor dá apenas sinais da elaborada conjuntura que o espectador acompanha na segunda parte da história, quando a gravidez de Ana e seu apetite por carne ficam insustentáveis.

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"Ainda existe uma ideia de que o cinema de horror é mais trash ou menor do que os outros gêneros", lamenta Juliana Rojas.

Por fim, o que vem ao mundo é, sim, um ser monstruoso: uma espécie de lobisomem, um dos mais tradicionais personagens do folclore brasileiro. Ao se deparar com o ser indefeso — a quem Ana deu o nome de Joel —, Clara decide criá-lo e, acima de tudo, protegê-lo da maneira mais digna na casa onde mora. "Era um filme de fantasia desde o início e a história acabou se tornando sobre a formação de uma família estranha e sobre o laços de afeto entre as pessoas dessa família", diz Dutra, que decidiu junto com a parceira de direção abordar a figura do Lobisomem devido à questão do "contraste entre instinto e comportamento" que ele representa.

A cidade de São Paulo é também uma personagem de As Boas Maneiras, contribuindo para a trama com suas próprias contradições. Se na primeira parte o espectador vê apenas a casa de Ana e os arredores de uma região privilegiada, na segunda, se depara com dia a dia de Clara numa casa menor, de vizinhos mais próximos e com a escola da Prefeitura onde o pequeno Joel estuda, ao lado de filhos de imigrantes e refugiados. "Tentamos trazer a presença da cidade de São Paulo, as contradições e as questões sociais e geográficas para a história", confirma Juliana.

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Marjorie Estiano e a portuguesa Isabél Zuaa vivem as protagonistas no segundo longa dirigido pela dupla Marco Dutra e Juliana Rojas.

Outro aspecto que chama atenção na fábula de horror é a qualidade de seus efeitos visuais. As Boas Maneiras é uma coprodução Brasil-França, o que possibilitou o uso de tecnologias de ponta e combinação de técnicas na apresentação do pequeno lobisomem. "A sequência do parto, por exemplo, foi feita quase com animatrônica e efeitos mecânicos. Já o Joel com 7 anos é uma mistura de animação digital e planos com detalhes de partes do corpo, como mãos e orelhas, que são reais", explica Dutra. A versão colorida e reluzente do céu de São Paulo foi alcançada com a ajuda de matte painting, uma técnica de computação gráfica que combina imagem filmada e paisagem pintada.

As Boas Maneiras é o segundo filme dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra. O primeiro, Trabalhar Cansa (2011), marcou a estreia de ambos na direção de um longa-metragem. A parceira começou no curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Pode-se dizer que a fábula de horror que se passa em São Paulo deu certo. O filme fez sucesso em 2017 no Festival de Locarno, na Suíça, onde conquistou o prêmio especial do júri; e também no Festival do Rio, onde foi eleito Melhor Longa de Ficção segundo o júri e levou também os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante (Marjorie Estiano), Fotografia (Rui Poças) e o Felix – destinado a obras com temática LGBT.

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Em 'As Boas Maneiras', o pequeno Joel é interpretado pelo ator estreante Miguel Lobo.

O sucesso de As Boas Maneiras é exemplo de que há espaço no cinema nacional para novas narrativas e realização de obras com identidade genuinamente brasileira. Mas ainda existem sérias dificuldades a serem superadas até que essas histórias alcancem grande público.

"Além da dificuldade de distribuição, que atinge todos os filmes nacionais, o cinema de horror brasileiro também enfrenta o preconceito", explica Juliana. "Ainda existe uma ideia de que é um cinema mais trash ou menor do que os outros gêneros", lamenta a cineasta, que também acredita numa mudança de cenário. "Estamos começando a ver mais títulos de gênero no cinema brasileiro", comemora. "Temos diretores com trabalhos interessantes nesse contexto, como o Rodrigo Aragão, que fez Mangue Negro e A Noite do Chupacabras. Ou a Gabriela Amaral Almeida, que é uma cineasta baiana radicada em São Paulo, que vai lançar O Animal Cordial, que trabalha com cinema de gênero há muitos anos", enumera.

Assista ao trailer de As Boas Maneiras:

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