15/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 18/06/2018 15:47 -03

Rosa Luz: A artista que faz de seus versos e rimas uma luta contra a transfobia

Ela tem 22 anos, é trans, negra, rapper, youtuber, artista, comunicadora e enxerga seus caminhos: "Em vários momentos da minha vida minha felicidade foi reprimida e minha identidade podada."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Rosa Luz é a 100ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O lápis preto perfeitamente delineado nos olhos, as tatuagens que marcam a pele, a voz suave e doce que se transforma em potência quando ela canta seus versos e se faz escutar. Rosa Luz, mulher trans, negra, rapper, youtuber, artista, comunicadora, entende os caminhos que quer percorrer e como quer ser vista. Com apenas 22 anos, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, ela tem um entendimento da vida que impressiona e que quando comunica é em favor do feminino, contra o abuso, o preconceito e o patriarcado. As letras dela não podiam ser mais claras: mulher tem peito e tem pinto.

Nos versos e na rima, ela diz como é. Rosa Luz não só escreve e manda o rap, ela é uma artista que parou um dos mais movimentados lugares de Brasília (DF), a rodoviária do plano piloto numa performance forte e marcante, onde deixa os peitos à mostra para tentar criar reações das pessoas que passam por ali. Ela também criou o canal "Barraco da Rosa" que tem mais de 28 mil inscritos no YouTube, onde dá lições artísticas e fala sobre sua vida e transexualidade. "Eu estava num espaço onde minha arte estava insuficiente e queria dialogar com as pessoas, foi um lugar importante de vitrine pra minha fala".

Criar um canal foi a minha última saída. Era isso ou ir começar a me prostituir porque essa é a realidade de quem é trans, é muito difícil ir além e conseguir um emprego, mesmo que você tenha um currículo foda.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Rosa Luz é mulher trans, negra, rapper, youtuber, artista, comunicadora e muito mais.

Enquanto caminha com a reportagem do HuffPost Brasil na praça principal de Santa Maria, cidade satélite do DF, onde mora atualmente, um grupo de duas meninas e um rapaz passa e grita: "Ei, Rosa, adoro seu canal, viu? Parabéns!". Ela responde tímida com um sorriso, a voz calma e suave, que a separa da mulher comunicativa e firme que aparece em seus vídeos. O canal abriu portas para Rosa, inclusive para participar do documentário Chega de Fiu Fiu, produzido pelo coletivo feminista Think Olga, para trazer à tona o assédio vivido pelas mulheres na ruas. Mas também a fez pensar muito sobre a questão do público e do privado, o que acabou transformando sua visão sobre o assunto durante o processo.

Já recebi muitas mensagens ruins. Tipo um cara que escreveu: 'se pudesse, te matava por puro prazer' e uma carinha feliz.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Luz", diz a tatuagem na lateral de sua testa (que comporta sua mente, tão inventiva.)

"Depois de um ano de canal, eu percebi que eu estava sendo estereotipada como a negra barraqueira, que eu brincava muito com isso, mas eu entendi o papel da comunicação e o peso da minha fala. Então, tem um pouco da minha vida pessoal, e às vezes as pessoas te tratam bem e às vezes te tratam mal. Tem as pessoas que acabam te endeusando, mas tem transfobia também", conta. Com vídeos intitulados de "Como ler uma arte?", "Como fazer cinema sendo pobre" ou até "Tour pelo meu corpo trans e auto-amor", ela entende que passa uma mensagem importante. E dentro do canal ela também montou o "YoutubeTrans", para relizar entrevistas com outras mulheres trans.

Trans são tratadas num contexto de violência e patriarcal muito forte. No começo não via isso, mas acho importante as pessoas conseguirem ter um espelho e agora eu poder comunicar isso.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu entendi o papel da comunicação e o peso da minha fala."

A arte surgiu na vida de Rosa para trazer sentido. Na adolescência ela estudava muito, escrevia poemas e ia do Gama até o centro de Brasília para a escola e para as aulas de espanhol e inglês. "'Tava' num momento muito conturbado com meus pais se separando e já com conflitos identitários, então focava nos estudos para esquecer dos problemas. Eu só tinha comida do lanche, mas estudava". Ela seguiu assim até o dia em que fez uma pintura na aula de artes que tinha no colégio e sentiu que, ali, poderia depositar suas emoções. Resolveu cursar Teoria Crítica e História da Arte na Universidade de Brasília e no curso passou a produzir muito mais do que imaginava.

Rosa fazia artes visuais e performances, mas foi na fotografia que encontrou um caminho. Foi nessa época que seu processo de transição aconteceu. Com uma peruca e um batom diante da câmera, ela se reconheceu. "Os dez segundos do timing era o tempo que eu tinha pra mostrar e o que pertencia ao meu corpo e não o que me foi colonizado ou que a sociedade me disse em como para me comportar. E foi ali que eu comecei a auto-afirmar", lembra.

Em vários momentos da minha vida minha felicidade foi reprimida e minha identidade podada.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A arte surgiu na vida de Rosa para trazer sentido.

Depois de expor e produzir alguns projetos, ela foi selecionada para uma residência artística no Reino Unido, onde viajou por 2 meses com 10 artistas. "Foi quando alguém me perguntou como eu queria ser tratada e eu disse que era como "ela". Quando eu vi, já era Rosa Luz". Ainda que estivesse no meio artístico e encontrasse certa liberdade, a artista também se deparou com transfobia, inclusive na universidade. "Tive professores me questionando e até dizendo que iam rezar por mim".

Neste caminho, Rosa acabou quebrando paradigmas dentro dela mesma e tem passado por fases de auto-cuidado e respeito. Começou a se relacionar com um rapaz cis, hétero e branco. "Foi uma coisa que revolucionou a minha vida. Eu fui a primeira mulher trans que ele se envolveu. Eu não acreditava que era possível ter um afeto com um homem branco, isso me fez mudar muitas coisas, porque eu tinha um discurso mais radical, e comecei a ver de uma maneira mais flexível, percebi que eu sou um ser humano antes de tudo".

Mas o medo não a deixa de lado: o assassinato de Matheusa no Rio de Janeiro, que também era artista trans, mostra o lugar que a mulher trans ou pessoas não-binárias têm em sociedade. "Essa é a realidade do País em que a expectativa de uma mulher trans é de 35 anos. Pode acontecer com qualquer uma".

Não é fácil a gente viver e sobreviver. Gostaria de estar vivendo da minha arte. Me encontro em várias narrativas e tenho trabalhado bastante com a palavra.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Neste caminho, Rosa acabou quebrando paradigmas dentro dela mesma e tem passado por fases de auto-cuidado e respeito.

Ela continua na batida com rap, já conseguiu produzir um EP e três clipes com uma vaquinha pela internet. E tenta encontrar outras formas de se sustentar e continuar a se comunicar: seja por meio do canal no Youtube ou com alguns convites que surgem no meio do caminho. "Não tenho perspectivas de trabalho. Então, tenho vivido um dia após o outro. Tenho trabalhado os desapegos das coisas materiais. Tento encontrar o equilíbrio e atiro pra tudo o que é lado mesmo, música, audiovisual, quero me formar e tentar um mestrado. Ocupar um espaço, que nem sempre é fácil".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC