ENTRETENIMENTO
14/06/2018 18:30 -03 | Atualizado 14/06/2018 18:43 -03

Por que Anne Hathaway é o ponto alto de 'Oito Mulheres e Um Segredo'

O papel dela é uma crítica exagerada do que é ser uma mulher obcecada com a própria imagem jogando o jogo das celebridades.

Em Oito Mulheres e Um Segredo, versão feminina dos clássicos filmes de roubos incríveis, Anne Hathaway faz o papel da atriz vaidosa Daphne Kluger, que, ao provar o vestido decadente e as joias que vai usar no baile Met Gala, dá um chilique que associamos na nossa imaginação às estrelas mais mimadas de Hollywood.

Daphne só se acalma quando sua estilista, Rose Weil (Helena Bonham Carter), faz um elogio: "Você tem o melhor pescoço do cinema". Instintivamente, Daphne olha no espelho e acaricia a pele da região da clavícula, com ar de alívio.

Lisonja aceita. Crise evitada. Segue o show.

É o tipo de reação que você esperaria de Anne Hathaway no meio de uma prova de roupas de milhões de dólares – se, é claro, você acreditar nas histórias que descrevem Hathaway como uma atriz vaidosa obcecada em manter uma imagem perfeita e uma persona baseada em pseudo-sinceridade. Ela é a menina que saiu do teatro e está determinada a ser a queridinha da América, ou pelo menos é o que diz o clichê.

Para citar Hathaway, o sonho virou realidade: depois de anos como alvo de tuítes engraçadinhos, posts de blog maldosos, réplicas duras, pesquisas sarcásticas, notas previsíveis, perfis redentores, exames detalhados e uma boa dose de mea culpa, Hathaway provou ter espírito esportivo. Sua performance em Oito Mulheres e Um Segredo é uma crítica exagerada e deliciosa do que é ser uma mulher obcecada com a própria imagem jogando o jogo das celebridades.

Mas dessa vez Hathaway está ligada na piada – e a piada é com a gente.

Quando os corneteiros da internet decidem não gostar de alguém famoso que não fez nada errado, a pessoa deveria ignorar as críticas. Reconhecê-las significa revelar que você se importa com eles, e isso não é nada cool. O fenômeno conhecido como Hathahate (ódio por Hatha) não deixou essa brecha para Hathaway. Seu zelo virou uma espécie de calcanhar de Aquiles. Mas, em vez de seguir em frente com a mesma humildade que a tornou motivo de tantas piadas, Hathaway transformou sua reputação num metacomentário.

Daphne Kluger é a anfitriã do Met Gala, promovido pela revista Vogue. Em Oito Mulheres e Um Segredo, o evento é descrito com precisão como um dos tíquetes mais exclusivos da cultura pop americana. (Hathaway vai regularmente ao Met Gala) O papel de anfitriã cabe à maior das estrelas – este ano, foram Rihanna (que também está no filme), Amal Clooney e Donatella Versace – o que coloca Daphne entre os supervips. Mas ela está incomodada com Penelope Stern (Dakota Fanning), uma jovem atriz que é considerada a nova "it girl" de Hollywood.

As escolhas fashion de Daphne são feitas pensando em brilhar mais que as concorrentes. Ela se encaixa perfeitamente no papel que atribuímos a Hathaway, apesar de haver poucas evidências que comprovem que ela realmente mereça a fama de diva. Não é exagero interpretar Penelope Stern como a Jennifer Lawrence da situação – a atriz da moda que tem carisma fácil e parece a antítese da calculista Hathaway.

Para roubar um colar Cartier de diamantes astronomicamente caro, duas trapaceiras (Sandra Bullock e Cate Blanchett) convencem Daphne a ser vestida por Rose Weil, uma designer em baixa que fez sucesso nos anos 1990 mas ainda é uma das prediletas de Anna Wintour, a grande eminência do Met Gala. Daphne jamais teria chegado perto de Rose, que deixou o glamour das passarelas para trás e hoje vive endividada. Mas Daphne acredita que Penelope também vai contratar Rose, que por sua vez é usada pelas trapaceiras num plano espetacular. Se Rose conseguir colocar aquele colar no pescoço de Daphne, elas vão trocá-los por uma falsificação.

Aí começa uma série de momentos narcisistas tão exagerados que Hathaway poderia até dar uma piscadela para câmera. Tocando no colo ou piscando aqueles olhos reluzentes, ela sabe como usar tudo o que você disse sobre ela, com efeito humorístico máximo.

Como um todo, o filme é apenas mais ou menos, mas o elenco e o roteiro são brilhantes. (Olivia Milch e Gary Ross são os coautores; Ross dirigiu.)

O filme também encerra este capítulo da imagem de Hathaway. Famosa desde os 19 anos, a atriz de 35 anos já deixou claro há tempos que sabe da fama que tem. Hathaway optou pelo não-cool, mas, ironicamente, isso a tornou cool de novo.

"Aparece em praticamente todas as entrevistas que dou", disse ela no ano passado, em referência à sua reputação. Hathaway vem discutindo o fenômeno desde 2013, quando seu discurso açucarado recebendo o Oscar acelerou o Hathahate. "Isso mexe comigo", disse ela à revista US Weekly. Em 2014, Hathaway indicou exatamente por que algumas pessoas se voltavam contra ela: "Uma das coisas de que me acusam é ser pouco autêntica", disse ela à Harper's Bazaar, quebrando o tabu das celebridades de não falar sobre a reação do público a suas personas.

Depois de sair um pouco dos holofotes – "minha impressão é que as pessoas precisavam de um tempo de mim", disse ela ao The Huffington Post -, ela voltou mais implacável que nunca, pronta para refletir sobre sua notoriedade e brincar com os clichês que vemos em Oito Mulheres e Um Segredo. É essa disposição que a colocou do outro lado do espectro do Hathahate. Agora não é mais moda não gostar dela. Como as roupas da temporada passada, a piada saiu da moda. Mas não seria assim se ela não tivesse desafiado seus detratores tão gloriosamente, se ela não tivesse aceitado sua posição temporária de piñata humana. A essa altura, a internet está pedindo desculpas a Hathaway – e exigindo que você faça o mesmo, um sinal de que estamos mais cuidadosos na hora de fritar mulheres famosas por esporte. Eis um raro exemplo da cultura popular americana superando a satisfação coletiva sobre o infortúnio alheio.

E como é possível odiá-la quando Daphne Kluger está se pavoneando com todo aquele ar de diva que Hathaway supostamente estaria buscando? No final de Oito Mulheres e Um Segredo, Daphne é a mais esperta entre as personagens – um passo à frente de tudo o que está acontecendo. No final das contas, Hathaway também.

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