COMPORTAMENTO
14/06/2018 14:14 -03 | Atualizado 25/06/2018 10:57 -03

O presídio brasileiro que oferece aulas de meditação para os presos

"Quando falamos em meditação para os presos, estamos falando sobre a sua saúde mental"

Detentos participam de aulas de meditação em Ribeirão das Neves (MG).
Divulgação/Geraldo Lara
Detentos participam de aulas de meditação em Ribeirão das Neves (MG).

Eles estão encarcerados e pouco acompanham as notícias do que acontece no mundo após os muros da prisão. Mas durante 10 dias, um grupo de 21 presos do Complexo Penitenciário Público-Privado (CPPP), em Ribeirão das Neves (MG), experimentou uma espécie diferente de liberdade.

O uniforme da penitenciária deu lugar aos trajes brancos e leves. Uma área da prisão foi isolada e preenchida com tapetes para a meditação. Até mesmo a alimentação sofreu transformações e evitou-se o consumo de carnes. E, assim, o conjunto de detentos do complexo mineiro foi convidado a participar do curso de meditação vipassana, uma das técnicas mais antigas do mundo e que significa "enxergar as coisas como elas são".

O projeto Vipassana na Prisão foi realizado pela instituição Vipassana Brasil em parceria com a administração do presídio. Essa é a 1ª vez que um grupo de detententos brasileiros abandona a sua rotina para vivenciar a prática de exercícios meditativos em completo silêncio.

"Quando falamos em meditação para os presos, estamos falando sobre a sua saúde mental", explica Rodrigo Gaiga, diretor-presidente da Gestores Prisionais Associados (GPA), que administra o complexo, em entrevista ao HuffPost Brasil. "Seeu estou trabalhando com essas pessoas para que eles possam ter uma oportunidade ao sair de lá, eu preciso que eles pensem em si mesmo. E o curso foi uma oportunidade de eles pensarem em suas atitudes, no que eles queriam para o futuro deles após o cumprimento da pena."

Gaiga, que havia participado do curso de meditação em 2017 a convite de um amigo, percebeu que ele poderia ser uma ferramenta importante no processo de ressocialização e convivência dos presos.

"Na administração do complexo, nós pensamos em 3 pilares ao enxergar o preso como indivíduo: O empreendedorismo, como forma de trabalho; a criação de vínculos e importância da família para tolerar o dia a dia; e a importância de cuidar da saúde. A meditação tem benefícios que são inegáveis e que se encaixam com os nossos pilares", compartilha o gestor.

Se eu estou trabalhando com essas pessoas para que eles possam ter uma oportunidade ao sair de lá, eu preciso que eles pensem em si mesmo. E o curso foi uma oportunidade de eles pensarem em suas atitudes, no que eles queriam para o futuro deles após o cumprimento da pena.Rodrigo Gaiga, diretor-presidente da GPA

A rotina meditativa

Durante 10 dias, entre 18 e 27 de abril, os presos seguiram uma rotina dura, com a mesma disciplina que é oferecida durante os cursos de Vipassana que acontecem até em outros países, como Índia e Estados Unidos. E com atenção a um detalhe importantíssimo: completamente em silêncio.

Eles acordaram às 4 horas da manhã todos os dias e se preparam para a 1ª meditação das 4:30h até às 6:30h. Depois, um café da manhã era servido e o grupo era liberado para um descanso até as 8h.

Em seguida, das 8h as 9h acontece mais um período de meditação, o grupo faz um intervalo rápido de 5 minutos e em seguida acontece mais meditação até as 11h.

Finalizado o período da manhã, é servido o almoço até as 13h e um descanso. No turno da tarde, o período de meditação acontece das 13h ate às 14:30h. Mais um descanso e outro turno de meditação até as 15:30h seguida de outra sessão de meditação até às 17h. É servido, então, um café da tarde até as 18h e mais um turno de meditação para fechar o dia.

No fim das sessões, acontece uma palestra diária sobre a experiência. Antes de dormir, é sugerida mais uma sessão de meditação. O expediente dos presos termina por volta das 21:30. No dia seguinte, às 4h da manhã todos estão de pé para cumprir a mesma agenda.

'"É um dia bastante intenso e essa a intensidade não é à toa. Para a pessoa ter uma experiência completa da técnica, a quantidade de meditações é importantíssima", explica José Duailibi em entrevista ao HuffPost Brasil. Duailibi auxiliou a equipe da Vipassana, composta por 5 pessoas, que estavam em contato direto com os presos.

Os obstáculos da meditação

Foram escolhidos 25 presos em regime fechado para participar do curso de vipassana. Houve uma pré-seleção dos alunos na penitenciária com base no perfil de cada um deles. De acordo com Duailibi, a maioria já desenvolvia outras atividades dentro do próprio presídio. Dos selecionados, apenas 4 presos desistiram do curso.

"É uma média bastante razoável se comparada aos cursos de vipassana fora do presídio. A gente entende as desistências, já que esse é um curso que oferece um mergulho muito intenso em sua consciência. Os participantes só podem falar em dois horários específicos do dia, e apenas com o professor da meditação para fazer perguntas sobre a técnica. Então, são mais de 10 hrs por dia de meditação em silêncio absoluto", explica Duailibi, que conheceu a prática há 14 anos, quando morava na Índia.

Os presos não tinham nenhuma experiência prévia com a meditação e isso tornou o desafio ainda maior.

"Eles estavam agitados e desconfiados com aquela proposta. É claro que tivemos algumas trangressões, como alguns dos alunos que não respeitaram o silêncio, por exemplo. Mas ao longo dos dias, a transformação no comportamente era muito perceptível. Cada vez mais eles se comportavam melhor na sala de meditação e estavam muito dedicados à prática. Não é fácil ter essa disciplina e a maioria se dedicou ao trabalho que foi proposto ali", compartilhou.

Para Edgard Teixeira, um dos presidiários que completou o curso, a meditação provocou até mesmo dores físicas nos dias iniciais.

"Foi um sofrimento. Senti muita dor física e desconforto. Depois começamos a entender o propósito da meditação e tivemos que enfrentar os problemas de frente e ver que com tranquilidade e muita concentração, foco, a gente encontra a solução", explicou.

Para Gaiga, o curso foi uma quebra de paradigma. O projeto-piloto está sendo negociado com o Estado para que possa se tornar um trabalho ininterrupto.

"É uma população que não tinha conhecimento daquilo e foi uma aderência totalmente espontânea. Quando eles fizeram o curso, eles abriram mão de dedicar o tempo deles para outras atividades, inclusive atividades que tem remissão de pena. É como se você tivesse soltado uma bomba atômica do bem."