MULHERES
13/06/2018 14:47 -03 | Atualizado 13/06/2018 17:48 -03

O último grande tema que Anthony Bourdain explorou foi a própria masculinidade

O chef foi franco em relação às coisas que ignorava e ao papel desempenhado por sua esposa, Asia Argento, para convertê-lo em aliado das mulheres.

Na esteira do movimento #Me Too, Anthony Bourdain não usou sua plataforma preciosa para especular se o movimento teria ido longe demais. Em vez disso, perguntou o que ele próprio poderia ter feito diferentemente.

"Estou furioso. Já vi isso de perto e venho ouvindo relatos em primeira mão de muitas mulheres", Bourdain disse à Slate em outubro. "E estou refletindo sobre minha própria vida. Estou olhando em retrospectiva para minha própria carreira profissional e antes dela. Durante todos esses anos, as mulheres não me disseram nada." Ele se perguntou por que não era visto "como o tipo de pessoa em quem essas mulheres pudessem sentir-se à vontade em confiar", dizendo que sentia isso como sendo "uma falha pessoal" sua.

Na sexta-feira passada pela manhã, quando saiu a notícia de que o chef de 61 anos se suicidara, pensei naquela entrevista à Slate. Pensei na empatia profunda evidente em todo o trabalho de Bourdain. Ele não enxergava a empatia tanto como um talento quanto como algo que ele precisava trabalhar continuamente, com o qual precisava se preocupar, que precisava medir constantemente. Pensei em sua atitude pública de atenção e seu questionamento da "cultura dos machões idiotas" que trabalham em restaurantes. Pensei no apoio que ele deu à sua companheira Asia Argento, que acusou Harvey Weinstein de estupro e foi criticada tão intensamente pela imprensa italiana, que a retratou como promíscua, que deixou o país. Pensei na autoconfiança que uma pessoa precisava ter para ser "o Elvis dos chefs de cozinha bad boys" e criticar a cultura dos chefs bad boys. Pensei que o mundo precisa muito de mais homens como Anthony Bourdain, não menos.

Bourdain não tinha medo de criticar abertamente o comportamento de outras celebridades de seu próprio setor. Quando Mario Batali e Ken Friedman foram acusados publicamente de assédio e erros de conduta sexuais, Bourdain não tentou se tornar invisível, nem indagar publicamente se as mulheres seriam mentirosas, nem tentar desculpar os atos de seus colegas, falando em hábitos sexuais confusos. Ele publicou um texto no Medium, deixando claro que a admiração que sentira anteriormente por Batali e Friedman se tornara irrelevante, dizendo que "nada mais importa senão os relatos de mulheres sobre como é a vida num setor que eu amo e que divulgo há quase 30 anos. E nada mais importa senão nossa disposição, como seres humanos, como cidadãos, homens e mulheres igualmente, de ouvir plenamente o que elas têm a dizer."

Ele foi franco em relação às coisas que ignorava e ao papel desempenhado por Asia Argento e mulheres como Rose McGowan e Annabella Sciorra em abrir seus olhos para seu próprio desconhecimento dos fatos. Bourdain não apenas declarou que acreditava nas mulheres: ele as ouvia realmente, algo que pode parecer óbvio ou não tão importante, mas que na realidade é espantosamente raro e importante.

Muitas vezes se pede às mulheres que elas não apenas ofereçam seu sofrimento repetidas vezes para o consumo público, mas também expliquem o significado dele. Anthony Bourdain não pedia nada disso às mulheres em sua vida.

"Num momento tardio da vida, conheci uma mulher extraordinária com uma história particularmente terrível para contar. Ela me apresentou a outras mulheres extraordinárias com relatos igualmente terríveis", escreveu Bourdain no mesmo texto no Medium, aludindo a Asia Argento. "Sou grato a elas por sua coragem e me sinto inspirado por elas. Isso não me torna mais 'iluminado' que qualquer outro homem que tenha começado a ouvir e prestar atenção. Mas espero que me torne um pouco menos estúpido."

A maioria de nós só pode esperar que tenhamos o máximo possível de pessoas em nossa vida que nos tornam "um pouco menos estúpidos". O maior talento de Bourdain foi que ele fazia isso para o grande público, nos possibilitando conhecer lugares onde nunca tínhamos ido, saborear coisas que nunca chegaríamos a cozinhar e ter a coragem de ouvir pessoas cujos pontos de vista poderiam complicar irrevogavelmente os nossos.

*Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.