POLÍTICA
13/06/2018 09:19 -03 | Atualizado 13/06/2018 09:19 -03

Flávio Rocha, sobre impacto da pré-campanha presidencial na Riachuelo: ‘É o preço a se pagar’

Com discurso semelhante ao de Bolsonaro na defesa dos bons costumes, empresário diz que eles se diferem pelo pensamento econômico e pela defesa da democracia.

Flávio Rocha sobre Bolsonaro: “Acho louvável porque ele é o único candidato que não se submete à ditadura do politicamente correto”.
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Flávio Rocha sobre Bolsonaro: “Acho louvável porque ele é o único candidato que não se submete à ditadura do politicamente correto”.

O que leva uma pessoa que está "no melhor momento da sua vida empresarial" a "pagar um preço" para se "aventurar" na empreitada de ser candidato à Presidência da República? O dono da Riachuelo, Flávio Rocha, pré-candidato pelo PRB, não hesita em dizer que "acredita que pode contribuir" com o País.

O discurso lembra o do ex-prefeito de São Paulo João Doria (PSDB), também empresário, de levar para o governo a experiência da iniciativa privada. "O Estado é para servir e não para privilégio. Esse é o ensinamento de uma empresa privada bem-sucedida. Ela é bem-sucedida porque ela é focada no seu cliente. (...) E eu acredito que a nova política é o Estado servidor", diz Rocha, em entrevista ao HuffPost Brasil.

O líder do movimento Brasil 200, encampado por empresários que defendem a redução do tamanho do Estado, tenta se diferenciar dos adversários. A marca de gestor, que até a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) já carregou, vem acompanhada de ingredientes que o afastam completamente da petista e também do tucano: a defesa ferrenha pela moral e bons costumes. Nesse ponto, Flávio Rocha, que é o candidato do MBL (Movimento Brasil Livre), estaria mais próximo do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), que também mira o Palácio do Planalto.

Ambos carregam bandeiras semelhantes: são a favor do Escola Sem Partido e acreditam que a polícia é perseguida. Rocha diz até respeitar a coragem de Bolsonaro de ser o único que toca nas questões fundamentais de valores. "Acho louvável porque é o único candidato que não se submete à ditadura do politicamente correto", pontua.

Entretanto, enfatiza que "não compactua com extremos" e que na economia não tem nenhuma afinidade com o adversário. Afirma que no histórico de atuação política de Bolsonaro consta, por exemplo, que ele não defende as privatizações. "Ele é um nacionalista, defende a ditadura... Assim, a diferença fundamental é que, para mim, a democracia é um valor sagrado, fundamental", emenda.

Rocha insiste: é liberal na economia e conservador na moral. Por isso, os direitos das mulheres e LGBTs, para ele, não devem aumentar. "Sou a favor da lei como está", disse mais de uma vez.

Essas opiniões, assim como a enfática defesa da reforma trabalhista, a qual ele avalia que "único direito que o mau trabalhador perdeu foi o direito de mentir", já causam impacto na Riachuelo. Recentemente, as atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, por exemplo, recusaram convite para fazer propaganda da marca por causa da campanha do empresário.

Rocha diz que já sabia que sofreria as consequências da exposição. "Eu sabia disso dos riscos de me expor politicamente, mas acho que esse é um preço a pagar. E eu, como patriota, como pessoa, acredito que posso trazer a minha contribuição, aceito esse preço a pagar como natural."

Leia a entrevista.

HuffPost Brasil: Recentemente, o senhor disse que o Brasil está vivendo um dos piores períodos da sua História. O que o senhor teria feito de diferente?

Flávio Rocha: O que eu faria de diferente era voltar o Estado para servir e não para privilégio. Esse é o ensinamento de uma empresa privada bem-sucedida. Ela é bem-sucedida porque é focada no seu cliente. A lógica da velha política se tornou ganhar as eleições atendendo às corporações. E eu acredito que a nova política é o Estado servidor.

A diferença entre uma corte e o Estado moderno... O nosso Estado é uma corte distante, lá em Brasília, que enxerga como súditos os 98% de cidadãos que puxam a carruagem, que pagam a conta da farra estatal. Isso tem que mudar. A educação tem que servir ao propósito de o aluno aprender e não a corporação que se apropriou do sistema educacional. Essa é uma questão óbvia na empresa privada; é até a diferença entre uma empresa privada bem-sucedida e uma malsucedida e está longe de ser praticada no Estado.

Para isso, vem a segunda lição de empresa privada, que é gestão. O corporativismo é tão atuante que impede até a utilização dos mais elementares instrumentos de gestão que são tão eficientes e tão disseminados na iniciativa privada, a começar pelas ferramentas tecnológicas, que esbarram muitas vezes no corporativismo. É com esse intuito que eu, angustiado ao ver, às vésperas das eleições, a gente aí dividido entre os dois extremos da política, a extrema esquerda e o projeto de extrema direita dominando o cenário, e a total ausência de uma alternativa que junte a fórmula da prosperidade, que é democracia e livre mercado, que eu, no melhor momento da minha vida empresarial, me aventurei nessa empreitada.

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"Há uma total ausência de uma alternativa que junte a fórmula da prosperidade, que é democracia e livre mercado."

O seu discurso conservador o aproxima de Jair Bolsonaro, que é o candidato que o senhor se refere como extrema direita. Em que o senhor se diferencia dele?

Me diferencio primeiro em não compactuar com extremos. Eu acredito e até respeito a coragem do Jair Bolsonaro ao ser o único que toca nas questões fundamentais dos valores. Uma parte angustiante do nosso debate político é o ataque sistemático aos valores. Os alicerces da sociedade brasileira são constantes vítimas de ataques, a começar pelo alicerce maior que é a família, depois a polícia, que é vítima de um ataque sistemático, muitas vezes até calunioso.

Os alicerces todos estão sob ataque permanente porque essa é a tática do novo marxismo, o marxismo cultural, do bagunçar para governar. Isso [críticas do Bolsonaro] eu acho louvável, porque ele é o único candidato que não se submete à ditadura do politicamente correto, e ataca e defende os valores, carregando até um pouco demais nas cores.

Acho louvável, porque ele [Bolsonaro] é o único candidato que não se submete à ditadura do politicamente correto, e ataca e defende os valores, carregando até um pouco demais nas cores.

Mas quando você vai para o debate econômico, eu sou totalmente distante, não tenho nenhuma afinidade com o candidato Jair Bolsonaro. No seu histórico, ele é contra, por exemplo, as privatizações. Ele é um nacionalista, defende a ditadura... Assim, a diferença fundamental é que, para mim, a democracia é um valor sagrado, fundamental. Esse já é um diferencial relevante, e segundo os ideais econômicos são diferentes.

Me considero um liberal na economia e um conservador, defensor dos valores e costumes. A gente vê vários candidatos aí apenas confinados no discurso econômico que se calam na questão fundamental dos valores,. Acho que esse não vai ser um debate apenas econômico, sobre a eficiência do Estado. Não é isso que está tocando o coração do eleitor. Ao mesmo tempo, falar dos valores, mas não mostrar firmeza no ideário liberal que é o que constrói a prosperidade, que são as idéias que deram certo, não é o ideário completo.

Existiam alguns Macrons brasileiros, que defendiam ideário liberal, mas com ideário de esquerda e até compactuando com afronta e erosão dos valores.

Está faltando o projeto óbvio que é um contraponto completo a esse triste período que a gente viu para trás, que era o inchaço do Estado, o intervencionismo na economia e afronta aos valores. O que é um contraponto? É um liberal na economia e conservador nos costumes. Isso está faltando.

Esse projeto esbarra no sistema de coalizão, em que o presidente trabalha junto com o Congresso. Como o senhor pretende dialogar com o Parlamento?

Eu acredito na força de algo que está faltando há muitas décadas no Brasil, que é um grande propósito, um grande projeto de País. Nós trazemos um projeto consagrado e vitorioso em todos os lugares do mundo, que é um projeto com economia livre e ao mesmo tempo o compromisso inarredável com a democracia. Essa é a fórmula da prosperidade. Esse projeto, respaldado por 60 milhões de votos, se constitui um grande e sedutor projeto de país. Tenho certeza que em torno disso nós vamos unir não só o Congresso, mas toda a sociedade.

O senhor articula algum frente partidária ou suprapartidária com integrantes do MBL?

Nosso movimento, o Brasil 200, está formando uma grande frente partidária para que cheguemos ao governo já com uma sólida base parlamentar. Esse movimento que deu origem a essa candidatura.

Como empresário, como o senhor avalia a reforma trabalhista?

A reforma trabalhista é antes de mais nada uma grade conquista do trabalhador, demonstrando crescimento do nível de emprego e com capacidade para conter a incrível irracionalidade de hostilidade do chamado manicômio trabalhista. Um país que gera 3 milhões de ações trabalhistas desperta verdadeiro pavor... Nada afugenta mais na geração de emprego e investimento do que esse nível de litigância.

Antes de mais nada, a reforma trabalhista foi uma grande conquista do trabalhador.

Isso se mostra nos índices de criação de postos de trabalho e na redução muito forte na quantidade de ações trabalhistas. Tem estado onde já caiu 70% o índice de ações trabalhistas. Outros ponto muito importante é a redução no número de itens por ação. Uma ação trabalhista típica antes da reforma continha em média 38 itens reivindicados, isso caiu em quase 90%. A média está em 4 itens. Isso é muito animador e mostra que a reforma trabalhista vai trazer uma grande recuperação no ambiente de negócios, tornando a atividade de gerar empregos menos arriscada no Brasil.

Há reclamação de trabalhador de que teve seu direito de brigar na Justiça lesado...

Segundo Rogério Marinho [deputado relator da reforma trabalhista], o único direito que o mau trabalhador perdeu foi o direito de mentir. Existia muita ficção, quando você cai de 38 itens para 4 itens, você mostra que isso era um cardápio que existia nos maus escritórios da Justiça do Trabalho, que faziam trabalhador assinar um monte de reivindicação inexistente.

O único direito que o mau trabalhador perdeu foi o direito de mentir.

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Segundo o empresário, nada afugenta mais na geração de emprego e investimento do que a quantidade de processos que eram ajuizados na Justiça do Trabalho.

O Brasil é um dos países que mais agridem a população LGBT. Como combater a tolerância e o preconceito? E qual sua posição sobre o casamento gay?

Eu sou o presidente da maior empresa de moda no Brasil; moda é sinônimo de diversidade. Somos os maiores empregadores de transexuais no Brasil, somos os maiores empregadores de mulheres, são 75%; 85% das nossas clientes são mulheres. Diversidade é um valor fundamental.

Eu sou perfeitamente a favor da união civil estável. Duas pessoas adultas podem firmar qualquer contrato de convivência. Agora como liberal, não acho que o Estado deve se meter e interferir na agremiação religiosa de qualquer tipo de instituição para ditar uma regra ou algo que seja contra os princípios ou a orientação dessa instituição. Como norma, como lei, quaisquer duas pessoas adultas podem fazer um contrato de convivência de qualquer ordem. Acho que esse é o limite do Estado.

Então gays poderiam se casar no civil também, na sua opinião?

Poderiam, poderiam fazer um contrato sem dúvida, como está hoje na lei.

Mas casamento, sem envolver igreja.

Sou contra o Estado... Estamos em um Estado laico, o Estado não pode chegar em uma igreja e obrigar a fazer qualquer norma, não pode ditar as normas da doutrina da igreja. Estado é Estado, igreja é igreja.

A polêmica não envolve a igreja, envolve mudar na Constituição para casamento ser entre duas pessoas em vez de homem e mulher.

Ah, eu sou a favor. O contrato de união estável como está na lei, eu sou a favor. Eu sou a favor de como está na lei.

[A lei brasileira não permite casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há uma resolução do Conselho Nacional de Justiça que proíbe que autoridades competentes se recusem a habilitar ou celebrar casamento civil ou, até mesmo, a converter união estável em casamento.]

E a descriminalização do aborto?

Sou contra. Acho que só Deus pode tirar a vida de um ser humano.

Mas o senhor acha que a mulher que faz o aborto deve ir presa?

Sou a favor de como está na lei. Acho que isso não prevê sanções de prisão. Existe inclusive a situações onde o aborto é permitido, no caso de estupro, quando a vida da mulher está correndo risco... Sou a favor da norma legal atual.

[No Brasil, o aborto só é legal em caso de estupro e risco de vida da mãe, de acordo com o Código Penal. Uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) prevê também a interrupção da gravidez no caso de anencefalia do feto. Nos demais casos, é crime. A pena pode chegar a 3 anos de prisão.]

O senhor teme que prejuízos à Riachuelo com a campanha?

Depois que me expus politicamente aconteceram vários ataques, até do MST a uma fábrica nossa. Tem ataque ao call center, calúnias, gente falando, fazendo ataques a mim e a minha família. Isso realmente acontece, mas eu sabia disso dos riscos de me expor politicamente, mas acho que esse é um preço a pagar e eu, como patriota, como pessoa, acredito que posso trazer a minha contribuição, aceito esse preço a pagar como natural.