MUNDO
12/06/2018 15:33 -03 | Atualizado 12/06/2018 18:22 -03

Trump diz que o acordo com a Coreia do Norte é muito mais ‘abrangente’ do que realmente é

Especialistas classificam acordo como "vago" ou "notícia antiga com amontado fofinho de generalidades".

POOL New / Reuters
Kim Jong-Un e Donald Trump se reúnem em Singapura para acordo de desnuclearização.

SINGAPURA – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que o acordo assinado depois da cúpula com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, é "muito importante", "abrangente" e "muito melhor" que o esperado.

Especialistas em Coreia do Norte, entretanto, classificaram o documento como "vago" e "notícia antiga", apontando que ele ficou aquém dos objetivos delineados pelos Estados Unidos antes do encontro dos dois líderes.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, havia dito aos jornalistas na segunda-feira que a "completa, verificável e irreversível desnuclearização da península coreana é o único resultado que os Estados Unidos vão aceitar" de Pyongyang.

O acordo assinado nesta terça (12) inclui um compromisso de Kim para trabalhar pela "completa desnuclearização" da península coreana, mas os termos "verificável" e "irreversivelmente" estavam claramente ausentes do documento. O acordo não define explicitamente o escopo da desnuclearização e não indica como a Coreia do Norte vai levá-la a cabo.

Falando aos jornalistas horas depois da cerimônia de assinatura, Trump disse que os dois líderes fizeram "negociações vigorosas para implementar o acordo o mais cedo possível", apesar de não ter oferecido uma agenda para conversas futuras.

Pressionado a explicar o que significa exatamente "desnuclearização completa", Trump afirmou apenas que o processo seria realizado "o mais rápido possível científica [e] mecanicamente".

Pergunta: Que agenda o senhor enxerga para a desnuclearização e para a redução de sanções?

Trump: Cientificamente você tem de esperar certos períodos... As sanções serão levantadas quando estivermos certos de que as armas nucleares não são mais efetivas.

Mintaro Oba, ex-funcionário do Departamento de Estado especialista nas Coreias, disse que o acordo resultante da cúpula é "um amontado fofinho de generalidades e notícias antigas".

"A declaração contém posições que já são bem estabelecidas, como o comprometimento de desnuclearização 'da península coreana' e o desejo de trabalhar por um 'regime de paz' na região", disse Oba por email ao HuffPost, fazendo referência a promessas semelhantes feitas por Kim em abril na histórica reunião com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in.

Vipin Narang, professor de relações internacionais do MIT, observou que a linguagem do acordo de terça-feira é muito semelhante a uma declaração conjunta dos 2 países de 1993. "Lembra quando eles refilmaram 'Karate Kid' 25 anos depois. É a mesma coisa", escreveu Narang no Twitter.

Oba disse, porém, que o resultado era "amplamente esperado, dada a complexidade das questões e a seriedade do interesse dos norte-coreanos em manter meios de intimidação nuclear dignos de crédito". Ele também disse estar muito interessado em saber se as próximas negociações, lideradas por Pompeo, levarão a "laços diplomáticos sustentáveis e de longo prazo" entre os 2 países.

Pompeo afirmara na segunda-feira que os Estados Unidos "já tinham sido enganados antes" por Pyongyang.

"Muitos presidentes assinaram pedaços de papel e acabaram descobrindo que os norte-coreanos não prometeram o que pensávamos ou então simplesmente voltaram atrás em suas promessas", afirmou ele.

"O 'V' é importante", continuou Pompeo, em referência à verificação. "Vamos nos certificar de que haja um sistema suficientemente robusto para verificar os resultados."

Questionado na entrevista coletiva sobre o "V", Trump insistiu que a desnuclearização "será verificada".

Quanto à maneira de fazê-lo, Trump disse que isso seria possível "tendo muita gente lá ... uma combinação de ambos" — inspetores americanos e internacionais.

.@MajorCBS: Os senhores discutiram métodos para verificar o processo de desnuclearização?

Presidente Trump: "Sim ... ela será realizada tendo muitas pessoas lá e conforme desenvolvermos uma certa confiança. E acho que conseguimos isso."

O presidente acrescentou que algumas coisas foram acordadas após a assinatura do acordo porque não houve "tempo suficiente" durante a reunião de cúpula. Ele afirmou, por exemplo, que Kim tinha prometido destruir uma "importante" base usada para testes de mísseis. Trump não ofereceu detalhes.

Imagens de satélite publicadas na semana passada pelo 38 North, um site especializado em análises sobre a Coreia do Norte, indicam que o país havia destruído uma "estrutura chave de teste de mísseis". Não ficou claro se Trump estava se referindo ao local.

Trump afirmou que os Estados Unidos vão interromper os "jogos de guerra" com Pyongyang, uma referência aos exercícios militares conjuntos realizados com as Forças Armadas sul-coreanas. Kim condenou esses exercícios no passado. Ele acrescentou que quer "trazer nossos soldados [estacionados na Coreia do Sul] de volta para casa", mas disse que a retirada das tropas "não é parte da equação agora".

Alguns analistas criticaram Trump por assinar um acordo "vago".

"Nenhuma provisão verificável. Nenhuma provisão para inspeções. Trump parece ter oferecido redução de tropas e o congelamento de exercícios militares. Poucos detalhes – mas qualquer outro presidente que não Trump teria sido denunciado violentamente pelos dois partidos por um acordo tão fraco e vago."

"Quanto mais Trump fala, pior parece o acordo. Os Estados Unidos interrompem os exercícios, prometem retirar tropas, sem novas sanções, tudo isso em troca de promessas vagas de desnuclearização."

"Trump se gaba que esse acordo supera e muito as expectativas dos céticos. O que vimos até agora é exatamente o tipo de acordo vago e sem comprometimentos que os céticos esperavam. (Apesar de alguns ainda acreditarem que a diplomacia em si vale a pena.)"

Degelo de tensão

"O objetivo da Coreia do Norte era ceder o mínimo possível, enquanto o objetivo dos Estados Unidos era obter o máximo possível", afirmou Oba. "A Coreia do Norte tinha um parâmetro mais baixo para o sucesso, e isso lhe garantiu uma posição mais forte na negociação, algo refletido na declaração final, que basicamente reflete as posições existentes da Coreia do Norte."

Ele acrescentou: "A Coreia do Norte tinha posição de vantagem por causa da pressão do tempo e do desejo de Trump de sair bem da cúpula".

Ainda assim, os especialistas consideraram o resultado positivo, afirmando que ele sugere um degelo na tensão de décadas entre Pyongyang e Washington.

Trump reconheceu que a cúpula foi somente o começo de um processo desafiador e potencialmente longo. "Se você não levar a bola até depois da linha do gol, não significa muita coisa", disse ele na entrevista coletiva.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.