LGBT
12/06/2018 18:30 -03 | Atualizado 12/06/2018 19:12 -03

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, e o afeto como forma de luta pelo orgulho LGBT

"E, assim, por ela, por nós, continuaremos lutando para que nada nos sujeite, e que o que nos defina seja sempre o amor."

Arquivo Pessoal/Reprodução Anistia Internacional
Foto do arquivo pessoal de Mônica, divulgada no vídeo da Anistia Internacional.

A demonstração de afeto em público era uma das maiores formas de luta pelos direitos LGBTI+ de Marielle Franco (Psol-RJ), vereadora carioca assassinada em março deste ano. A afirmação é da arquiteta e militante pelos direitos humanos, Mônica Benício, companheira de Marielle por 14 anos.

Hoje, 12 de junho, Dia dos Namorados, completam-se 90 dias do assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Mônica gravou um vídeo divulgado pela Anistia Internacional e também escreveu uma carta direcionada à vereadora publicada no jornal O Globo.

Em vídeo, a viúva afirma que, durante um tempo tiveram receio de tornar público seu relacionamento mas que, "se dependesse de Marielle, tinha foto das duas todo dia nas redes sociais": "Marielle lutava na causa LGBTI e acho que a maior expressão dessa [luta], para além do parlamento, era a divulgação da vida pública dela", afirma.

Para Mônica, essa postura de Marielle dizia respeito ao fato de tornar o relacionamento das duas legítimo e reforçar que isso era um amor. "Que era feliz e que as nossas famílias existem. Eu acho que essa era a principal forma de ela lutar dentro dessa causa", conta.

Ela ainda agradeceu pelo apoio que vem recebendo e disse que é fundamental toda manifestação de carinho, afeto, mobilização e cobrança por justiça, pressionando as investigações e lutando para que não haja mais assassinatos como o de Marielle.

Marielle e nossa história de amor representam força inspiradora para a luta.

Entre muitas idas e vindas, Monica e Marielle estavam prestes a completar 13 anos de relacionamento e pretendiam se casar em 2019. Em carta publicada pelo jornal O Globo, ela ressalta que demonstrar o afeto em um relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo -- e ou pessoas que fogem da binariedade de gênero -- é essencial para que ele seja reconhecido.

"No país que mais mata sua população LGBTI e que nega direitos às chamadas minorias políticas, Marielle e nossa história de amor representam força inspiradora para a luta, mas também, e, principalmente, para o livre exercício do afeto e dos sentimentos", escreve.

E finaliza: "Seguiremos a todo tempo reafirmando que existimos, que nossas vidas importam. E, assim, por ela, por nós, continuaremos lutando para que nada nos sujeite, e que o que nos defina seja sempre o amor."

O caso Marielle Franco

CARL DE SOUZA via Getty Images
"Justiça para Marielle", pede o luminoso erguido nos arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, People gather in Lapa neighbourhood, Rio de Janeiro, em protesto no dia 14 de abril.

No início de maio, o ministro extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a investigação sobre o assassinato da vereadora "está chegando na sua etapa final". Porém, quase três meses após a morte da vereadora, não há novidades sobre as investigações, tampouco os responsáveis pelo crime foram encontrados.

No momento em que o crime completou um mês, em entrevista ao HuffPost Brasil, Mônica Benício disse acreditar no poder transformador de cada um para mudar o cenário de violência em que o Brasil se encontra atualmente -- e em formas de continuar com a luta de sua esposa.

"Existem várias formas de continuar essa luta", explicou. "Existe a forma pela qual Marielle escolheu, que é por dentro do Parlamento, por dentro do sistema. Acho que a política hoje ainda é uma das formas mais bonitas que a gente encontra de lutar pela democracia, embora o Brasil não seja o melhor exemplo que a gente tenha de prática disso, mas eu acredito nisso. Só que também há outros meios de fazer isso. (...) Qualquer pessoa pode fazer isso, de qualquer lugar, não necessariamente dentro do Parlamento."

Como o Brasil trata LGBTs

Em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por LGBTfobia. O número representa uma vítima a cada 19 horas. O dado está em levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), que registrou o maior número de casos de morte relacionados desde que o monitoramento anual começou a ser elaborado pela entidade, há 38 anos.

De acordo com um relatório da ILGA (Associação Internacional de Gays, Lésbicas Bissexuais, Transgênero e Intersexuais), o Brasil ocupa o primeiro lugar em homicídios de LGBTs nas Américas com cerca de 340 mortes por motivação homofóbica em 2016. Os grupos brasileiros, como o GGB, estimam que 144 desses homicídios sejam de travestis e transexuais.