09/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 09/06/2018 14:40 -03

Ana Paula Bispo: A baiana que não dá ponto frouxo nem no crochê, nem na vida

A produtora cultural encontrou no trabalho manual um jeito de se reinventar: "Se alguém me dissesse que um dia eu iria me sustentar, pagar minhas contas com crochê eu ia falar que era mentira”

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Paula Bispo é a 94ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Ninguém tem certeza de onde veio, mas qualquer pessoa que bata o olho em uma peça desse estilo sabe o que é. O crochê, como a História conta, se originou na Arábia e chegou à Espanha pelas rotas comerciais do Mediterrâneo. Também há indícios posteriores da técnica em tribos da América do Sul. Outros, por sua vez, afirmam que veio de uma técnica de costura chinesa.

Não sabemos sua origem ao certo, mas a diferença do tipo de produção começa já na agulha, que possui um gancho invocado na ponta, como se berrasse: "tricô aqui, não. Aqui é crochê". O objetivo da técnica é reproduzir, linha por linha, em alto relevo, o traçado da malha rendada. Em linhas gerais, o estilo é praticamente um modelo desta última quase que em formato 3D, em alto relevo.

Há quem ache que o estilo é perfeito para aquelas mãos que não têm paciência para esperar uma semana para ver o trabalho pronto. E é verdade. Pelo menos para a nossa imediatista de plantão, a soteropolitana Ana Paula Bispo, de 33 anos.

Eu não queria aprender crochê, achava muito chato. Se me dissessem que hoje eu pagaria meu aluguel com isso, eu falaria que era mentira.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Desempregada, a produtora cultural encontrou no crochê uma maneira de sair do vermelho.

Desde pequena, Ana Paula foi colocada em cursos dos mais diversos gêneros pela mãe. Ela, que sempre "se virou" - além do trabalho fixo, fez bicos de manicure, artesanatos e costura -, achava que os filhos também tinham de saber fazer de tudo um pouco, para quando a situação apertasse.

Fez curso de bordado, de tapeçaria, aprendeu a fazer bonequinhas de lã, mas sempre pulava a aula de costura propriamente dita. Crochê então, nem pensar. "Eu não tinha paciência, nunca me interessei, achava chato. Se alguém me dissesse naquela época que um dia eu iria me sustentar, pagar minhas contas com crochê eu ia falar que era mentira".

Na hora de escolher a faculdade, a "mão na massa" ficou um pouco de lado. Optou por produção cultural, e se encantou, dentro da universidade, pela fotografia. Antes de aprender a dominar a arte, chegou a trabalhar em uma loja de revelação fotográfica. E amava. O motivo? "Eu sabia que gostava daquilo porque o resultado saía na hora, a espera era mínima".

Com diploma na mão, a discípula de Cartier-Bresson, o fotógrafo que prega o momento decisivo na fotografia, seguiu fotografando o espontâneo em um freela aqui e outro acolá em conciliação com o emprego em uma secretaria do governo. No início do ano passado, no entanto, foi surpreendida com a demissão: "Fiquei perdida".

Eu sou bem imediatista. Antes de ir para faculdade eu trabalhei numa loja de revelação de fotografia e eu sabia que eu gostava daquilo porque o resultado saía na hora, a espera era mínima.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

Juntou as economias dos trabalhos com a câmera e do que recebeu com a demissão e foi para São Paulo, passar uma semana ao lado de amigos que haviam se mudado recentemente para o estado. E foi em solo paulista que veio o estalo. Mais precisamente, no Festival de Música de Paranapiacaba. No evento, viu de longe uma oficina de crochê, com fio de malha. O olho brilhou, mas não ficou para a aula.

De volta a Salvador, após uma sessão de cinema no centro da cidade, aproveitou que já estava por lá e resolveu procurar o material. O objetivo era despretensioso: reproduzir um colar de fio de malha que viu um amigo usando. Comprou o material e, como uma boa millenial, foi atrás de tutorial no Youtube, onde a mágica aconteceu.

Sejamos justas: o algoritmo do site também deu um empurrãozinho. Colar vai, colar vem, nas sugestões, surgiu um "como fazer" de uma bolsa de crochê. Eureka: "como eu estava desempregada e queria ganhar uma grana com alguma coisa, vi a oportunidade. Nunca tive intenção de que fosse um hobby. Sempre tive a intenção de tirar um dinheirinho. Só não achei que fosse gostar tanto".

Aproveitou o que aprendeu no curso de comunicação, e antes mesmo de pegar o jeito da coisa, já estava divulgando nas redes sociais. O primeiro passo foi encontrar um nome. Como a maioria dos vídeos tutoriais que assistia eram espanhol - detalhe: ela nem arranha na língua -, optou pela grafia hispânica de fio de malha: Mis Trapillos.

Como eu estava desempregada e queria ganhar uma grana com alguma coisa, vi a oportunidade. Nunca tive intenção de que fosse um hobby. Sempre tive a intenção de tirar um dinheirinho. Só não achei que fosse gostar tanto.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Na loja colaborativa "Guapas", em Salvador, Ana encontrou uma rede de mulheres dispostas a fortalecer seu trabalho.

Ao contrário da linha normal, o fio de malha, que é mais grosso, propicia uma execução mais rápida da obra. "Como eu comecei a fazer para me sustentar, eu tinha que pensar na minha produtividade e rentabilidade. Como vou gastar meu tempo fazendo a peça, tenho que pensar quanto vale o dia do meu trabalho. Nesse aspecto, a bolsa é o que sai mais em conta".

Há quase um ano paga o aluguel com o artesanato. Expõe em feirinhas, vende pelo Instagram e tem um ponto de venda fixo na loja colaborativa "Guapa, Multimarcas Artesanais", em Salvador, que é uma de suas paixões. "É mais do que uma loja, é uma rede. Eu não sei o que seria de mim sem aquelas mulheres fortalecendo, se ajudando. Não é só um espaço onde eu alugo um caixote para expor".

Localizada no bairro Rio Vermelho e formada majoritariamente por mulheres - há apenas um homem entre os expositores -, a rede propõe participação ativa dos artistas na rotina da loja.

Há um desconto, por exemplo, para aqueles que se dispõe a passar uma tarde como vendedora, tendo contato direto com as clientes. "O abatimento, financeiramente falando, nem é tão vantajoso assim. Mas é tão legal ficar lá e ter esse contato. Eu vejo o que os clientes gostam mais, o que elogiam mais".

Como eu comecei a fazer para me sustentar, tinha que pensar na minha produtividade e rentabilidade. Como vou gastar meu tempo fazendo a peça, tenho que pensar quanto vale o dia do meu trabalho. Nesse aspecto, a bolsa é o que sai mais em conta.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
De mudança para São Paulo mês que vem, Ana Paula pretende expandir seu artesanato além da Bahia.

De malas prontas para passar uma temporada em São Paulo, evita falar em se mudar de vez para a terra da garoa, porque "nunca pensa nesses termos definitivos". Já de olho em lojas colaborativas locais, pretende continuar a vender lá o seu trabalho e procurar alguma outra coisa para complementar a renda.

"Vou ver o que vai acontecer, o meu porto seguro é aqui na Bahia. Se der merda lá, eu volto para a casa de mainha". O pessimismo, como vocês puderam ver, é inversamente proporcional à sua força de vontade. É como dizem por aí: ela não tem ponto frouxo. Nem no crochê, nem na vida.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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