07/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/06/2018 19:13 -03

Iza e Lola: A dupla que criou um sexshop para atender exclusivamente ao desejo feminino

Frustração com produtos eróticos fez com que elas criassem a própria linha de dildos e straps-on: “É um mercado ainda muito dominado pelo fetiche masculino, trabalhado em cima do erotismo do homem".

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Iza e Lola contam a 92ª história do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

As duas estavam cansadas. Tinham uma sacola cheia de produtos que não curtiam. Mais do que isso. Eram coisas que simplesmente não funcionavam para elas. E tentaram muito. Compravam novidades, investiram em produtos de fora do país, mas era muita frustração. Não queriam aquelas peças de couro. Não gostavam de argolas penduradas. Não se sentiam interessadas por sites com imagens de algemas, aquela coisa toda em vermelho. Nada contra. Mas não tinha clima para elas. Assim, de uma necessidade e de anos de busca em sex shops, nasceu o projeto de Heloisa Etelvina, 36 anos, e Izabela Starling, 32 anos. Lola e Iza resolveram criar uma linha de strap-ons que tivesse a ver com elas.

"A gente tinha uma sacola de coisas que não funcionavam. É um mercado ainda muito dominado pelo fetiche masculino, apesar da maioria dos produtos ser destinado a uso feminino, é muito trabalhado em cima do erotismo do homem", diz Iza. Assim, as duas iniciaram um longo trabalho de pesquisa que durou cerca de dois anos.

E logo descobriram que não estavam sozinhas nessa busca por produtos que dialogassem com elas e suas vontades. "O que existia no mercado era um buraco com um pedaço de couro, duas tironas que você tinha que ficar horas afivelando... eu ficava em choque. Então nossa ideia inicial era fazer o strap on, que é essa calcinha, e com o tempo a gente foi procurar dildos e não tinha nada que fosse agradável, era tudo baseado em um falo, pênis e vimos que teríamos que criar também uma linha do nosso agrado, que seja pensado por nós, pensado para o corpo feminino", lembra Lola. Assim, as duas decidiram abrir um sex shop online, o Pantynova.

A gente tinha uma sacola de coisas que não funcionavam. É um mercado ainda muito dominado pelo fetiche masculino, muito trabalhado em cima do erotismo do homem.Iza

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
As duas contam que ficaram surpresas - e felizes - com o rápido sucesso do negócio.

Quando nasceu o projeto, as duas eram casadas - ficaram juntas por dez anos - e basearam boa parte das ideias nas vontades e conversas que tinham sobre o assunto. Iza conta que estavam na Califórnia quando tiveram essa sacada. "Sempre fomos consumidoras, sempre curtimos, a gente viajava muito e tinha que ir a sex shop. A gente estava em uma crise na nossa relação e viajamos pela Califórnia para isso. Quando voltamos fechamos o projeto, decidimos fazer." As duas realizaram então uma pesquisa com mais de 500 mulheres e perceberam que não era só de strap-on que o mercado estava precisando. E que não eram só elas que não se sentiam representadas pelo mercado de sexo no Brasil.

"Em princípio nosso foco era muito as mulheres lésbicas. A sexualidade da mulher lésbica, devido à invisibilidade mesmo, é muito pouco trabalhada. Tem estigma, muitos tabus e é a nossa realidade, queríamos falar com quem passar pelo que a gente passa. Mas depois a gente viu que era uma questão que não dizia só a gente e por isso resolvemos abrir um sex shop para as mulheres em geral e, antes de mais nada, somos mulheres", conta Iza.

O que existia no mercado era um buraco com um pedaço de couro, duas tironas que você tinha que ficar horas afivelando... eu ficava em choque. Nossa ideia inicial era fazer uma linha do nosso agrado, que seja pensado por nós, pensado para o corpo feminino.Lola

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
As duas eram casadas - ficaram juntas por dez anos - e basearam boa parte das ideias nas vontades e conversas que tinham sobre o assunto.

Assim, as coisas foram ganhando forma. Literalmente. Iza tem uma confecção de roupas de festa e vestido de noiva e focou na criação das calcinhas. "A ideia era algo que você pudesse sair de casa e estar pronta. Algo bonito, independente de ser um strap-on. É uma calcinha". Elas possuem em dois modelos - um de cintura alta e um de cintura baixa - e inúmeras cores e tecidos. Lola passou a esculpir os dildos, que encaixam na calcinha e formam o strap-on. Artista plástica, Lola conta que boa parte do trabalho é feito de forma artesanal mesmo. "É esculpido em casa. Primeiro faz em massinha. Depois passa para outra forma. Arruma, lixa. Fazemos em silicone industrial e aí eu experimento. Tem toda uma fase de teste! Ai faz em cera e mandamos para o produtor."

Tudo colorido, com formatos que – elas garantem – atendem aos desejos e ao corpo feminino. A ideia aqui foi criar algo diferente, menos plastificado e mais criativo do que já existia por aí. Tem a ver com o gosto delas, mas a coisa funcionou. O sexshop abriu há pouco mais de um mês e as duas já estão com boa parte dos produtos esgotados. Além dos strap-ons e dos dildos, elas revendem vibradores também – só coisas que elas gostam e teriam em casa.

A gente ambiciona ser um portal de sexualidade feminina mesmo, não só um sex shop, mas um canal de diálogo para poder falar disso de uma maneira divertida e leve. O brasileiro é um povo hiper sexualizado, mas nossa sexualidade é bem fraca. Não temos uma sexualidade trabalhada.Iza

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Tem estigma, muitos tabus e é a nossa realidade, queríamos falar com quem passar pelo que a gente passa."

Aliás, no site há também um guia do vibrador. "A gente tem um guia que é muito legal, explica todos os formatos e usos... você pode usar como quiser, claro, mas quando começamos ficávamos perdidas e tem funções específicas", diz Iza. Além disso, elas produzem também podcasts com comentários sobre algum segredo, drama, história curiosa ou desejo enviado pelas amigas, o Her Secret, uma área de contos eróticos em áudio e um espaço com artigos sobre sexualidade. A ideia é que um dia o negócio cresça e elas possam dedicar ainda mais tempo ao projeto. "A gente ambiciona ser um portal de sexualidade feminina mesmo, não só um sex shop, mas um canal de diálogo para poder falar disso de uma maneira divertida e leve. O brasileiro é um povo hiper sexualizado, mas nossa sexualidade é bem fraca. Não temos uma sexualidade trabalhada", avalia Iza.

"O nosso papo começou a finalizar assim que perguntei se ela namorava, me disse que teve um namorado na adolescência mas nunca tinha ficado com uma mulher antes, morria de desejo mas nunca tinha tido oportunidade. Esse era o meu momento, não tive dúvidas, me contive um pouco e beijei o seu rosto. Depois desse beijinho tímido ela cresceu, avançou loucamente nos meus lábios, senti toda essa energia contida começar a extravasar"

[Trecho de uma das histórias comentadas no podcast Her Secret]

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Tudo colorido, com formatos que - elas garantem - atendem aos desejos e ao corpo feminino.

As duas contam que ficaram surpresas – e felizes – com o rápido sucesso do negócio. E receberam pedidos de todo tipo. "A gente viu muitas mulheres héteros respondendo que morriam de vontade de usar o strap-on com o marido e falamos: 'vamos te ajudar, vamos fazer isso acontecer!'[risos]. E temos vendido para homem também. Isso indica que talvez algo esteja mudando. Que bom", comemora Lola. Realmente todo esse processo trouxe ainda mais reflexão para as duas sobre sexo e sexualidade.

A gente viu muitas mulheres héteros respondendo que morriam de vontade de usar o strap-on com o marido e falamos: 'vamos te ajudar, vamos fazer isso acontecer!'[risos]. E temos vendido para homem também. Isso indica que talvez algo esteja mudando. Que bom.Lola

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

"A maior parte da frustração masculina está em achar que sexo é só o pinto deles porque se eles broxam já acabou a noite, acabou o rolê. Fica limitado. Deve ser uma barra também. Acho que tem que haver uma desconstrução em cima disso, e das mulheres também, até para as meninas repensarem o que é sexo... Não tem pinto não tem sexo? É isso?"

Assim, além de vender os produtos que criaram elas esperam gerar um debate sobre outras questões e ajudar a quebrar preconceitos e tabus em torno do sexo. Para homens e mulheres. "Que as mulheres se descubram e que os homem mudem", espera Iza.

Se depender dessas duas, isso tudo pode ser feito com amor. E muito prazer.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC