ENTRETENIMENTO
06/06/2018 17:01 -03 | Atualizado 07/06/2018 16:19 -03

Como o filme ‘Para Wong Foo’ abriu caminho para o fenômeno 'RuPaul's Drag Race'

O filme e o reality show viraram lendas das cultura pop, infiltrando-se no mainstream com glamour e complexidade.

Archive Photos via Getty Images
The iconic trio.

No começo de Para Wong Foo, Obrigada por tudo! Julie Newmar, há uma cena em que nossas três protagonistas – Vida Boheme, Noxeema Jackson e Chi-Chi Rodriguez - são paradas por um policial numa estradinha. É o meio da madrugada e elas estão montadas.

Para não ter de entregar a carteira de motorista que tem seu nome de batismo (Eugene), Vida (Patrick Swayze) tenta aplacar o policial claramente intolerante que as parou. Mas a conversa logo sai do controle, e o policial, o xerife Dollard, pede que Vida saia do carro, usando insultos raciais e tentando atacá-la sexualmente. Ao que Vida responde: "Tira a mão do meu pau, cara!"

Vida acaba derrubando Dollard no chão, e as drag queens fogem. É impossível não torcer para que elas escapem.

A cena dá o tom do resto do filme, uma farra burlesca que acompanha as três personagens presas numa cidadezinha a caminho de uma competição de drags – e agora foragidas da polícia. Uma década antes de RuPaul's Drag Race, Para Wong Foo (que tem a participação de RuPaul, no papel de Rachel Tensions) apresentou uma história que levou o público mainstream a torcer para as drag queens na tela, em vez de rir delas – uma conquista seminal, mas complicada.

Com a décima temporada de RuPaul's Drag Race no ar, Para Wong Foo foi o gatilho de uma mudança pequena, mas palpável, no cenário da cultura pop, oferecendo a um público relutante o que ele precisava ver na época: uma lente glamourosa e exagerada através da qual sua transfobia poderia ser processada. Muito antes que Drag Race pudesse existir e fazer sucesso na TV, o filme se ocupou os cinemas e desafiou as percepções estereotipadas do grande público.

No começo dos anos 1990, o mainstream basicamente não sabia o que era o drag como arte. RuPaul já era bem conhecida e tinha um hit nas paradas (Supermodel, de 1993). Mas, quando Para Wong Foo chegou aos cinemas, nem The Birdcage nem The RuPaul Show existiam – ambos programas estreariam no canal VH1 somente em 1996.

Um ano antes, Para Wong Foo apresentou suas drags ao mundo: Swayze, Wesley Snipes e John Leguizamo. Swayze era o galã, Snipes era o macho, dos filmes de ação; e Leguizamo, o cara engraçado. O trio não parecia nada provável, mas era essa justamente a intenção: a imagem dos três atores famosos montados de drag tinha apelo junto a fãs héteros acostumados com filmes de "homens vestidos de mulher", como Quanto Mais Quente Melhor e Tootsie.

Um dos primeiros trailers destacava o status "masculino" dos astros, declarando: "Esses caras durões vão enfrentar os papeis mais fisicamente desafiadores de suas carreiras", cortando para os três vestidos inteiros de vermelho.

Embora o marketing comunicasse uma coisa, a história de Para Wong Foo era diferente – ela humanizava os personagens e homenageava a cultura drag. A comédia muitas vezes tomava precedência em relação à nuance no filme (os três personagens principais infelizmente nunca aparecem não-montados), mas, por baixo dessa camada açucarada, havia uma nova maneira de abordar as histórias queerno mainstream.

O importante disso é que Para Wong Foo não pedia que as plateias rissem à custa das três drags. Em vez disso, a ideia era que o público ficasse do lado das protagonistas e vaiasse o policial transfóbico obcecado por capturá-las.

Em uma das principais cenas do filme, Dollard está sozinho num bar, falando sozinho: "Homens que querem ficar com homens... homens se tocando... seus queixos com barba se esfregando". Em um nível, é um solilóquio cômico, mas também incrivelmente revelador do absurdo e da fragilidade da masculinidade heteronormativa e das regras de gênero.

"Para o bem ou para o mal, a população da cidade que é conquistada por Vida, Noxeema e Chi Chi opera da mesma maneira que os héteros fãs de 'Drag Race'."

Ainda assim, como tantos filmes antigos da cultura pop, Para Wong Foo tem linguagem e conceitos problemáticos. Escrito pelo roteirista gay e branco Douglas Beane, o filme está cheio de piadinhas racistas (especialmente sobre o personagem latinx de Leguizamo), retrata os personagens gays como essencialmente pessoas assexuadas e perpetua o clichê de que os gays só merecem empatia quando consertam a vida dos héteros trágicos de forma "maravilhosa".

De fato, "para o bem ou para o mal, a população da cidade que é conquistada por Vida, Noxeema e Chi Chi opera da mesma maneira que os héteros fãs de Drag Race." Para que os héteros considerem as drags "cool", elas tiveram de ser tiradas do contexto e apresentadas como um espetáculo colorido e divertido. Só mais tarde puderam ser percebidas as complexidades, nuances e os atributos comuns. A aceitação veio gradualmente.

Essa abordagem faz sentido, e aparentemente foi eficaz. O sucesso de Para Wong Foo foi surpresa. No final de semana de estreia, o filme ficou em primeiro lugar na bilheteria, arrecadando 36,5 milhões de dólares nos Estados Unidos durante o tempo em cartaz. Leguizamo e Swayze foram indicados ao Globo de Ouro pelo filme.

Para Wong Foo foi, de certa forma, o progenitor de RuPaul's Drag Race, um programa que hoje tem audiência de quase 1 milhão de telespectadores. Mas, enquanto Para Wong Foo fez sucesso jogando com as expectativas dos héteros, Drag Race transcendeu essas expectativas atingindo um novo público e sem diluir seu conteúdo.

RuPaul's Drag Race, que estreou no canal Logo em 2009, fez muito mais do que Para Wong Foo seria capaz. Especialmente nas últimas temporadas, que tiveram alguns dos momentos mais queer da história da TV. Ao longo dos anos, vimos a competição mostrar também momentos de vulnerabilidade real – quando Roxxxy Andrews revelou na passarela que foi abandonada pela mãe aos 2 anos de idade; quando Peppermint revelou sua identidade como mulher trans; quando Trinity K. Bonet anunciou ser soropositiva. De repente, Drag Race estava falando de assuntos cruciais da vida queer – de como lidar com aceitação e rejeição ao conceito de família drag "escolhida".

Em uma década, o reality show passou de programa cult a um dos programas mais assistidos e comentados da TV.

E, a julgar pelo legado de Para Wong Foo, é perfeitamente possível que, apesar das falhas, RuPaul's Drag Race está abrindo um caminho ainda mais amplo para a próxima geração.

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