06/06/2018 00:00 -03 | Atualizado 06/06/2018 15:00 -03

Heloísa Rocha: Ela mudou o rumo da carreira ao abraçar o conceito de compartilhar

Aos 52 anos, ela mudou sua área de atuação profissional da água para o vinho: "Me sinto privilegiada por empreender, fazer o meu sonho acontecer, porque sei que não é todo mundo que consegue."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Heloísa Rocha é a 91ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Se você tivesse que contar sua história em dez minutos, como ela seria? Para Heloísa Rocha, 52 anos, seu enredo poderia permear entre "siga outro caminho e mude completamente de direção", "invista num negócio e acabe com outro", "abra as portas do escritório e compartilhe com os outros", "encontre a sua inovação" ou "faça acontecer". Muitas possibilidades para a publicitária que encontrou o seu próprio jeito de trabalhar e se relacionar com as pessoas. Hoje ela comanda um espaço de co-working em Brasília e se envolve em projetos que acredita, como a curadoria de Ossobuco, palestras rápidas com pessoas que tenham conhecimento e ideias inspiradoras para contar.

No entanto, para encontrar seu caminho e criar sua própria forma de trabalhar foi uma longa jornada. E nesse tempo, ela descobriu que não precisava se ligar ao tradicional, estudar, casar, trabalhar, e em muitos casos, como acontece na capital federal, fazer concurso público. Ela entrou na Universidade de Brasilia (UnB) para fazer o curso de História, na época da democratização e no fim da ditadura, e acabou se envolvendo dentro de um grupo para mapear a parte cultural que tinha sido produzida nos últimos anos e que ainda estava perdido nos porões. "Eu não sei como fui parar nesse lugar, mas foi maravilhoso e era uma coisa muito efervescente de descobrir tudo que tinha sido produzido nos últimos 20 anos. Comecei a trabalhar demais, fiz o primeiro festival latino-americano da UnB e conheci pessoas maravilhosas. Nessa época, eu tranquei a universidade e nunca mais me formei", conta.

Você tem que estar tem que estar disponível 24 horas por dia e os salários altos acabam comprando a sua vida. Além de ser um ambiente totalmente machista.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje ela comanda um espaço de co-working em Brasília e se envolve em projetos que criam, conectam e compartilham.

Ela começou a trabalhar como produtora de filmes dentro da universidade e aprendeu a fazer cinema na prática. "Era algo que eu amava e achava sensacional. Mas aí veio a era Collor e a área cultural foi massacrada, a economia ficou muito louca e acabei indo trabalhar na área comunicação no departamento de marketing de um shopping e depois fui pra uma agência grande, onde fiquei por grande parte da minha vida profissional", relembra. "Eu aprendi muito e tive uma fase muito boa. Até que ficou ruim. Hoje eu olho pra atrás e vejo que foi um processo difícil. Quando você trabalha em publicidade acha que é uma área cheia de modernidade, que é sensacional, você faz o que você quer, você usa bermuda, mas é uma fachada pra uma exploração monumental. Você tem que estar tem que estar disponível 24 horas por dia e os salários altos acabam comprando a sua vida. Além de ser um ambiente totalmente machista", opina.

Helô sentia que precisava de uma mudança, se sentia desanimada, mas não sabia muito bem porquê. Até que em 2008 foi demitida, e na mesma época estava passando por um divórcio. Foi um momento de virada em que ela passou por um isolamento e uma busca pela conexão que estava procurando. "Tive que repensar tudo, saí achando que eu não sabia nada. Acho que as mulheres, principalmente, se cobram muito pra que tudo seja perfeito, e acha que o que a gente faz não tem muito valor e isso não é verdade", conta a publicitária que resolveu apostar na área que ela mais se interessava: internet.

Durante muito tempo eu achei que não era uma pessoa empreendedora, que eu era feita pra ser funcionária.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Diante de uma demissão e um divórcio, a publicitária resolveu apostar na área que ela mais se interessava: internet.

Ela começou então a se inserir no mundo da comunicação digital. Foi trabalhar nunca agência cheia de jovens, e mesmo sem entender muito, aprendeu o que tinha que aprender. "Entrei nesse mundo novo. Eu tinha um amigo de trabalho que me falava 'Helô, você foi feito pro digital!'. E eu dizia: 'ah, mas não sou dessa geração'. E ele me disse: 'foda-se'. E foi o que eu disse pra mim mesma. Foi uma fase que eu rejuvenesci muito. O empreendedorismo digital foi uma injeção de ânimo".

Quando ficou responsável pelo departamento de inovação da agência, ia atrás de novas ideias no mercado e conheceu o conceito de coworking. Chegou a ir para São Paulo conhecer os únicos dois espaços disponíveis no Brasil, na época, e ficou encantada com a ideia, mas guardou na gaveta. Anos depois tinha uma kombi de impressão de fotos de eventos chamada Lamblamb e se encontrou com um consultor financeiro, acabaram conversado casualmente sobre coworking e decidiram abrir um. A kombi ficou pra atrás. Ela mudou totalmente de caminho e se realizou. Há três anos, Helô comanda o espaço Co-Piloto em Brasília.

Me sinto privilegiada por empreender, fazer o meu sonho acontecer, porque sei que não é todo mundo que consegue.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Me sinto privilegiada por empreender, fazer o meu sonho acontecer."

É no escritório de porta aberta e folhas de vidro com a frase "conectar, criar, compartilhar" escrita na parede de trás da cadeira que Helô trabalha, que é também onde ela organiza planilhas, cuida do financeiro e da organização, mas também conversa, recebe quem só queira um conselho ou trocar uma ideia sobre um projeto, que se conecta com outras pessoas. "Me sinto privilegiada por empreender, fazer o meu sonho acontecer, porque sei que não é todo mundo que consegue, me sinto realizada, mudei, meu padrão de vida mudou completamente, mas sou feliz. E a gente ainda tem muito desafio pela frente, não dá pra ficar sentando numa coisa que deu certo".

Ela hoje também promove o Ossobuco em Brasília, ao lado de amigos, que reúne palestras de 10 minutos com pessoas comuns, que têm uma história pra contar. O encontro acontece mensalmente na capital federal. "Me coloquei no desafio de deixar a zona de conforto e fazer algo acontecer. Realizar essa história. Me sinto com o dever cumprido, foi uma meta que eu coloquei pra mim mesma. Fazer esse evento, apesar de ser voluntário, é um dos meus maiores prazeres da minha vida, fazer alguma coisa pela cidade, de gente como a gente que faz", conta orgulhosa.

Qualquer negócio tem que se renovar, todo mundo tem que se reinventar.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Helô sabe que, trabalhando com comunicação e tecnologia, é preciso se reinventar.

Helô se considera realizada profissionalmente, mas sabe também que é impossível ficar parada no mesmo lugar, e que no futuro, não muito distante, a forma de trabalhar não será a mesma. "Tem que estar com um olhar de quem quer enxergar o que está acontecendo, as relações profissionais mudaram. Eu não contrato mais uma pessoa para trabalhar no meu administrativo, porque ela tem certo diploma, mas porque ela é organizada. Qualquer negócio tem que se renovar, todo mundo tem que se reinventar. Deu certo até ontem, então amanhã a gente já faz de outro jeito".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC