ENTRETENIMENTO
05/06/2018 13:37 -03 | Atualizado 05/06/2018 13:53 -03

'Elas eram muito amigas': A resposta da família de Dona Ivone Lara à renúncia de Fabiana Cozza

Produtor de musical dedicado à Grande Dama do Samba também comentou saída de Fabiana Cozza do projeto.

Buda Mendes via Getty Images
Grande Dama do Samba, Dona Ivone Lara morreu em abril deste ano, aos 97 anos.

A família de Dona Ivone Lara recebeu com tristeza e indignação a notícia de que a cantora Fabiana Cozza renunciou ao papel da Grande Dama do Samba no musical Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro – O Musical, que tem previsão de estreia para o próximo mês de setembro.

"Isso que fizeram com a Fabiana foi um absurdo. É uma total falta de respeito. Para a gente, ela é negra. Além de ser uma artista incrível, ela e minha avó se conheciam há mais de 20 anos, eram muito amigas", disse André Lara, neto de Dona Ivone Lara, ao G1.

No último domingo (3), a paulistana Fabiana Cozza renunciou ao papel da sambista carioca - que morreu em abril, aos 97 anos - nos palcos por meio de uma carta aberta, na qual também compartilha reflexões sobre o racismo no Brasil e também sobre questões como o colorismo.

A decisão de Cozza veio após uma onda de críticas feitas por integrantes do movimento negro nas redes sociais apontando que ela é "branca demais" para o papel.

"Fabiana também tem conhecimento profundo de todo o repertório da Dona Ivone e consegue interpretá-lo como ninguém", acrescentou André. De acordo com o neto de Dona Ivone Lara, o talento da cantora e sua amizade com a sambista foram fatores determinantes para que Cozza fosse escolhida para o papel. "E é bom registrar: a direção do musical está em contato com a gente há muito tempo, tudo foi conversado conosco antes", concluiu André.

Renúncia aceita

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o produtor do musical, Jô Santana, aceitou a renúncia de Fabiana Cozza e agora está em busca de uma nova intérprete para o papel de Dona Ivone Lara.

Em comunicado enviado ao jornal, Santana explicou que a cantora paulistana foi a única do elenco de 22 atores convidada para o espetáculo. A escolha da artista ocorreu por conta de uma decisão da própria família de Dona Ivone Lara. O restante do elenco foi selecionado através de audições.

No texto, o produtor também reflete sobre o episódio e torce ainda para que ela traga à tona "discussões pertinentes à sociedade".

"Acreditamos que as demandas do movimento que desencadeou a renúncia são legítimas, que bom que a partir de uma obra teatral possamos trazer à tona discussões pertinentes à sociedade. Aceitamos as demandas, nos reconhecemos nestas, porém, não podemos comungar com reações violentas que foram levantadas na última semana contra a artista e contra este coletivo de trabalho formado por artistas de reconhecimento internacional."

Colorismo

O termo colorismo foi cunhado em 1982 pela escritora e ativista negra Alice Walker, autora de A Cor Púrpura. Conhecido também como pigmentocracia, é o conceito de acordo com o qual quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa, mais discriminação ela irá sofrer. A ideia que se relaciona especialmente a países de colonização europeia pós-escravocratas, como o Brasil, é controversa dentro do movimento negro.

De acordo com a youtuber Nátaly Neri, nome por trás do canal Afros e Afins e que se define como mulher negra e feminista, o colorismo faz com que a negritude fique seja diluída. "O colorismo e as teorias de embranquecimento no Brasil fazem e fizeram com que você não tenha consciência do que significa ser negro", explica no vídeo sobre o tema.

No texto Colorismo: O Que é, Como Funciona, escrito por Aline Djokic e publicado no Blogueiras Negras, a escritora faz uma reflexão sobre o impacto do colorismo dentro do movimento negro. "A tolerância do sujeito negro de pele clara pela branquitude (que privilegia, mas não o livra do racismo), cria por vezes uma rivalidade entre estes e os negros de pele escura, que têm que lutar por seu direito a mobilidade sem qualquer tipo de vantagem. Surge então, um sentimento de injustiça que pode intensificar a falsa idéia de que as pessoas de pele clara não seriam negras, já que têm o 'mesmo' acesso e desfrutam da mesma liberdade de locomover-se em todos os espaços como as pessoas brancas", afirma Djokic.

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