ENTRETENIMENTO
03/06/2018 15:55 -03 | Atualizado 03/06/2018 15:55 -03

O racismo e a renúncia de Fabiana Cozza ao papel de Dona Ivone Lara no teatro

“O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro”, diz cantora após receber críticas por ser “branca demais” para o papel.

Com quase 20 anos de carreira, a cantora Fabiana Cozza renunciou neste domingo (3) a interpretar o papel da Grande Dama do Samba no musical Dona Ivone Lara – um sorriso negro, previsto para estrear em setembro. A decisão foi tomada após Fabiana receber críticas de integrantes do movimento negro por ser considerada "branca demais" para o papel.

Na carta de renúncia, a cantora filha de mãe branca e pai negro e considerada parda na certidão de nascimento faz uma reflexão sobre o racismo no Brasil e sobre questões como o colorismo.

No início do texto, a artista diz que abdicou do papel a fim de evitar uma desunião do movimento negro diante da dimensão que tomou a discussão sobre a cor da pele dela. "O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro", afirma a cantora.

Fabiana critica o foco dado à questão e diz que sua vontade é que este episódio seja uma forma de busca união, de modo a "pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós". "Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros", diz a cantora.

Renuncio porque vi a 'guerra' sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando 'eles' transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram.Fabiana Cozza

Em seu relato, a cantora lembra violações históricas e conta que tomou a decisão "por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar 'branca' aos olhos de tantos irmãos. Ela afirma que "a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu".

Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.Fabiana Cozza

Na carta, a artista cita ainda como movido da renúncia o respeito à direção e produção do espetáculo e ao "elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio".

Ela cita também a família da sambista. "Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz", diz o texto publicado na íntegra nas redes sociais de Fabiana.

Fabianna Cozza e Dona Ivone Lara

Com 5 álbuns gravados e 2 DVDs lançados, Dona Ivone Lara é uma das artistas com quem Fabiana já dividiu o palco, além de nomes como Elza Soares, João Bosco, Emicida e Rappin Hood.

A escolha da cantora para o papel foi um pedido da família, de acordo com reportagem do jornal O Globo. "É engraçado como Dona Ivone Lara sempre esteve próxima a mim. Não só fisicamente, mas como também em todo o seu universo poético. Já gravamos juntas (uma versão de "Doces recordações"), nos encontramos em diversos eventos e até para o aniversário dela, numa roda de samba na rua, eu já fui. Acho que a Eliana (Lara, nora de Dona Ivone, e responsável pela indicação) percebia meu carinho por todos eles", contou Fabiana ao jornal.

Na peça, a atriz de 45 anos interpretaria a sambista do no início do estrelato até a velhice. A Grande Dama do Samba morreu em abril, aos 97 anos.

Referência de pioneirismo no ambiente historicamente masculino do samba, a cantora foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo de uma agremiação: Cinco Bailes da História do Rio (Ivone Lara, Silas de Oliveira e Bacalhau, 1965).

Com formação em enfermagem, Ivone Lara também teve atuação de destaque no uso da música para o tratamento de transtornos mentais, ao lado da psiquiatra Nise da Silveira. A sambista atuou como assistente social e aposentou-se em 1977, quando passou a se dedicar integralmente à música.

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Referência de pioneirismo no ambiente historicamente masculino do samba, Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo de uma agremiação.

Colorismo

O termo colorismo foi cunhado em 1982 pela escritora e ativista negra Alice Walker, autora de A Cor Púrpura. Conhecido também como pigmentocracia, é o conceito de acordo com o qual quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa, mais discriminação ela irá sofrer. A ideia que se relaciona especialmente a países de colonização europeia pós-escravocratas, como o Brasil, é controversa dentro do movimento negro.

De acordo com a youtuber Nátaly Neri, nome por trás do canal Afros e Afins e que se define como mulher negra e feminista, o colorismo faz com que a negritude fique seja diluída. "O colorismo e as teorias de embranquecimento no Brasil fazem e fizeram com que você não tenha consciência do que significa ser negro", explica no vídeo sobre o tema.

No texto "Colorismo: o que é, como funciona", escrito por Aline Djokic e publicado no Blogueiras Negras, a escritora faz uma reflexão sobre o impacto do colorismo dentro do movimento negro. "A tolerância do sujeito negro de pele clara pela branquitude (que privilegia, mas não o livra do racismo), cria por vezes uma rivalidade entre estes e os negros de pele escura, que têm que lutar por seu direito a mobilidade sem qualquer tipo de vantagem. Surge então, um sentimento de injustiça que pode intensificar a falsa idéia de que as pessoas de pele clara não seriam negras, já que têm o 'mesmo' acesso e desfrutam da mesma liberdade de locomover-se em todos os espaços como as pessoas brancas", afirma Djokic.