LGBT
03/06/2018 18:02 -03 | Atualizado 03/06/2018 18:23 -03

'O nosso corpo é resistência política', diz viúva de Marielle Franco na Parada LGBT

Mônica Benício fez discurso na abertura da 22ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, neste domingo (3).

Monica Benicio, esposa de Marielle Franco, discursa durante a 16th caminhada de lésbicas e bissexuais, em São Paulo.
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Monica Benicio, esposa de Marielle Franco, discursa durante a 16th caminhada de lésbicas e bissexuais, em São Paulo.

A arquiteta Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), assassinada em março de 2018, fez um discurso na abertura da 22ª Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, realizada neste domingo (3). Emocionada, Mônica afirmou que o evento, para além de uma festa, é um ato político e destacou o fato de que o Brasil está entre os países que mais mata LGBTs no mundo.

"Embora tenha cara de festa, isso aqui é um ato político. O Brasil é o País que mais mata sua população LGBT e a gente não pode assumir isso, não pode deixar continuar dessa maneira. O nosso corpo é resistência política. E isso aqui hoje é resistência", disse, referindo-se à Parada.

Em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por LGBTfobia. O número representa uma vítima a cada 19 horas. O dado está em levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), que registrou o maior número de casos de morte relacionados desde que o monitoramento anual começou a ser elaborado pela entidade, há 38 anos.

De acordo com um relatório da ILGA (Associação Internacional de Gays, Lésbicas Bissexuais, Transgênero e Intersexuais), o Brasil ocupa o primeiro lugar em homicídios de LGBTs nas Américas com cerca de 340 mortes por motivação homofóbica em 2016. Os grupos brasileiros, como o GGB, estimam que 144 desses homicídios sejam de travestis e transexuais.

Isso aqui é mensagem pra eles quando a gente diz que as nossas vidas importam. As nossas famílias existem.

Em seu discurso, a arquiteta ainda afirmou que o evento é símbolo da resistência LGBT no Brasil e destacou que é preciso "votar com consciência":

"Isso aqui é mensagem pra eles quando a gente diz que as nossas vidas importam. As nossas famílias existem. A gente resiste e a gente vai seguir amando sem temer. É importante que a gente vote com consciência e coloque pessoas que nos representam de fato."

E finalizou: "Porque senão eles vão continuar nos matando. A gente tem que vir para a rua para fazer festa, mas a gente tem que vir para a rua para fazer revolução, porque isso aqui é revolução. E a gente não pode mais admitir que as nossas vidas continuem sendo ceifadas do jeito que são. Marielle era uma mulher negra, favelada e foi assassinada porque, sobretudo, carregava no corpo todas as pautas que defendia."

Neste ano, a 22ª edição da Parada desceu a Avenida Paulista mostrando resistência e celebrando o orgulho de ser LGBT, mas também pediu maior participação LGBT na política, com o slogan "Poder pra LGBTI+, Nosso Voto, Nossa Voz". Atualmente, o único parlamentar homossexual no Brasil é o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ).

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Mônica Benício na Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de SP, realizada neste sábado (2).

Ainda neste fim de semana, durante a "Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de SP", que chegou à sua 16ª edição com a temática "Somos Marielle: Contra a criminalização da pobreza, o genocídio e a intervenção militar", Mônica fez um discurso:

"Esse ato é político e de resistência, é onde a gente diz que o nosso corpo é uma representação política e a gente precisa continuar seguindo nessa luta", disse a arquiteta em seu discurso, segundo a Ponte Jornalismo. Em entrevista ao veículo, ela afirmou: "É fundamental que a gente não se cale. É legítimo que a gente sinta medo, mas é preciso que a gente continue seguindo de qualquer forma, porque é interesse do governo nos silenciar. A revolução está em curso."

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Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados em 15 de março de 2018 e, até o momento, o crime segue sem resolução.

Na mesma data da marcha, neste sábado (2), completaram-se 80 dias da morte de Marielle Franco. No momento em que o assassinato da vereadora completou um mês, em entrevista ao HuffPost Brasil, Mônica disse acreditar no poder transformador de cada um para mudar o cenário de violência em que o Brasil se encontra atualmente -- e em formas de continuar com a luta de sua esposa.

"Existem várias formas de continuar essa luta", explicou. "Existe a forma pela qual Marielle escolheu, que é por dentro do Parlamento, por dentro do sistema. Acho que a política hoje ainda é uma das formas mais bonitas que a gente encontra de lutar pela democracia, embora o Brasil não seja o melhor exemplo que a gente tenha de prática disso, mas eu acredito nisso. Só que também há outros meios de fazer isso. (...) Qualquer pessoa pode fazer isso, de qualquer lugar, não necessariamente dentro do Parlamento."