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30/05/2018 18:35 -03 | Atualizado 19/06/2018 16:09 -03

O que o desaparecimento de 1.500 crianças imigrantes tem a ver com a nova política de imigração de Trump

Relatório do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) americano afirma que o governo americano não sabe o que aconteceu com 1.475 meninos e meninas.

Spencer Platt via Getty Images
Nova política de imigração do governo Trump separa famílias.

O governo americano perdeu o contato, ou não sabe o que aconteceu, com cerca de 1,5 mil crianças imigrantes que cruzaram as fronteiras dos Estados Unidos desde outubro de 2017. A informação é de uma reportagem publicada no New York Times no último dia 26 de abril, com base em um relatório do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) americano.

Desde então o governo americano tem sido questionado sobre o que aconteceu. As queixas se tornaram mais constantes nos últimos dias. Segundo o secretário-assistente do departamento de Administração para Crianças e Famílias, Steven Wagner, o governo tentou entrar em contato com as pessoas que supostamente assumiram a responsabilidade por essas crianças, mas não conseguiu descobrir onde elas estão.

O caso levantou suspeitas de que elas poderiam ter sido vítimas de tráfico infantil ou até mesmo de trabalhos forçados e ilegais no país. As crianças ficaram sob custódia do governo quando se apresentaram sozinhas para cruzar a fronteira no sudoeste dos Estados Unidos.

De acordo com o relatório, a maioria delas vinha de países como Honduras, El Salvador e Guatemala, e estava fugindo de situações hostis, como o domínio de cartéis de drogas, violências e abuso doméstico.

Esses dados do relatório viralizaram nas redes sociais na última semana com os movimentos #WhereAereTheChildren (Onde estão as crianças) e #EndFamilySeparation (Fim da separação das famílias).

Mas quão precisas são as informações que circulam online? E essas crianças estão realmente desaparecidas? O que elas têm a ver com as novas políticas de imigração do governo Trump?

O governo dos Estados Unidos realmente não sabe o que aconteceu com as 1.475 crianças imigrantes?

Em uma leitura superficial do relatório, sim. De acordo com informações da Associated Press, o governo chegou a esse número com base em uma pesquisa feita com mais de 7 mil crianças imigrantes que estavam cadastradas nos documentos oficiais.

De outubro a dezembro de 2017, o HHS entrou em contato com 7.635 crianças que o departament havia colocado sob custódia de responsáveis e descobriu que 6.075 das crianças ainda viviam com seus tutores, 28 haviam fugido, 5 foram deportadas e 52 estavam morando com outras pessoas. O restante dessas crianças está desaparecido, disse Steven Wagner, secretário-assistente interino do HHS.

De acordo com o Washington Post, funcionários do Departamento de Saúde e Serviços Humanos argumentaram que não é responsabilidade legal do departamento encontrar essas crianças depois que elas são liberadas de seus cuidados.

Outros apontaram que os tutores adultos são, muitas vezes, parentes das próprias crianças que já viviam nos Estados Unidos e que intencionalmente podem não estar respondendo às tentativas de contato do HHS ou não querem dar maiores informações sobre as crianças com medo que elas sejam deportadas.

Porém, nenhum desses argumentos são suficientes para afirmar que as crianças estão vivendo em uma situação segura.

As crianças foram separadas de seus pais na fronteira?

No caso específico das 1.475 crianças, não. Os jovens desaparecidos do relatório da HHS chegaram sozinhos na fronteira entre outubro e dezembro de 2017. De acordo com o Post, o governo americano se refere a essas crianças como "crianças estrangeiras desacompanhadas".

Mas existem crianças que estão sendo separadas de seus pais após a travessia da fronteira nos Estados Unidos?

Sim.

Em maio de 2018, o procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, anunciou que o Departamento de Justiça americano começaria a processar todas as pessoas que cruzassem ilegalmente a fronteira do país, mesmo aquelas que deveriam ser tratadas como requerentes de asilo.

A consequência dessa política é que as crianças serão separadas de seus pais, já que, ao cruzarem a fronteira, os adultos serão acusados de um crime.

A jornalista Caitlin Dickerson, que cobre a situação dos imigrantes para o NYT, usou o seu twitter para explicar a situação.

De acordo com ela, desde a política de "tolerância zero" nas fronteiras, a separação de famílias tem sido a regra, e não a exceção.

Mas essa política não é realmente nova. Desde março de 2017, o Departamento de Segurança Doméstica do governo de Donald Trump estudava uma proposta de separar crianças das mães que cruzam ilegalmente a fronteira do país com o México, por exemplo. O objetivo era inibir as mães de migrarem para os Estados Unidos com os seus filhos.

Por que essa situação gerou comoção agora?

Não se sabe ao certo por que a situação das crianças desaparecidas gerou comoção nas redes sociais apenas nos últimos dias. Uma hipótese é o fato de que, na última sexta-feira (25), é o Dia Internacional das Crianças Desaparecidas.

Nas redes sociais, diversas personalidades americanas, entre jornalistas, ativistas e atores, publicaram mensagens questionando o papel da administração Trump diante da situação das famílias imigrantes.

Eu tenho um cliente imigrante cujo bebê de 23 meses foi retirado dela. O governo não pode (ou não vai) nos dizer onde ele está sendo mantido, ou quem está cuidando dele. O que diabos o governo quer com uma criança, além de aterrorizar?

Essas crianças são REFUGIADOS econômicos e político sprecisam levar isso para o tribunal mundial. É mentalmente e emocionalmente prejudicial ser separado dos cuidadores. Crianças estão sendo traficadas. AJUDE-OS

No entanto, em meio as mensagens de protestos, muitas pessoas usaram as hashtags #WhereAreTheChildren ou #MissingChildren, intencionalmente ou não, dando a entender que as crianças foram separadas de seus pais na fronteira. O que, no caso das 1.475 crianças desaparecidas, não ocorreu.

A discussão ganhou ainda mais força na manhã do sábado (26), quando o presidente Donald Trump tentou culpar os políticos democratas, do partido da oposição, pela "horrível lei que separa os filhos dos pais quando atravessam a fronteira" em um tweet. Porém, essa foi uma política apoiada por sua própria administração.

Pressionem os democratas para que ponham fim à horrível lei que separa as crianças dos pais, depois de cruzarem a fronteira para a captura e liberação dos EUA, loteria e cadeia também devem acompanhá-la e devemos continuar construindo o MURO!

Apesar do que o presidente afirmou no twitter, não há uma lei americana que exija que as crianças sejam separadas de seus pais.

Nenhuma lei exige isso - separar pais e filhos é a escolha de sua administração. Centenas de crianças com apenas 18 meses correm o risco de sofrer um trauma ao longo da vida. Não vamos deixar você transferir a culpa ou usar as famílias como fichas de barganha para a construção do seu muro.

O chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, considerou a nova política como uma estratégia "técnica": "Eles [as crianças] serão enviados para assistência social - ou o que for. Mas o grande ponto é que eles optaram por entrar ilegalmente nos Estados Unidos", argumentou em entrevista a NPR.