COMPORTAMENTO
30/05/2018 18:39 -03 | Atualizado 30/05/2018 18:39 -03

Este é o maior evento da vida que as pessoas da geração X ainda não perceberam que vem pela frente

O sistema de atendimento a idosos deixou vocês na mão.

Quem vai cuidar de sua mãe ou avó quando ela não puder mais se cuidar sozinha?
Obencem via Getty Images
Quem vai cuidar de sua mãe ou avó quando ela não puder mais se cuidar sozinha?

Em sua coluna semanal "On The Fly", Ann Brenoff escreve sobre como enfrentar o envelhecimento – e algumas outras coisinhas.

Caros membros da geração do milênio,

Sinto muitíssimo ser a portadora de más notícias, mas vocês estão prestes a serem sorvidos por um turbilhão infernal inimaginável. É algo que vai devastá-los, deixá-los emocionalmente exaustos, podendo deixá-los fisicamente doentes e às vezes cheios de ressentimento. Pode atrapalhar sua vida profissional completamente ou obrigá-los a gastar suas economias para sua aposentadoria. E, um dia, essa provação vai terminar de uma hora para outra e deixá-los em estado de tristeza profunda. Ah, outra coisa: o governo não dá a mínima para nada disso. Vocês estão por conta própria.

Qual é esse cenário tão tenebroso? Vou explicar: vocês estão prestes a tornar-se os cuidadores dos membros de minha geração.

Isso mesmo. Um relatório recente da AARP (Associação Americana de Aposentados), "Millennials: The Emerging Generation of Family Caregivers", aponta diretamente para você da geração X. O texto explica que seus deveres de cuidador estão começando a se intensificar agora, tanto que um em cada quatro de vocês já está gastando 21 horas por semana cuidando de nós. Para que fique claro, estamos falando de 21 horas sem remuneração – ao mesmo tempo que vocês trabalham em seus empregos de verdade e/ou cuidam de suas famílias.

Quase metade de vocês vão ajudar a cuidar de seus pais ou sogros. Na maioria dos casos (65%), será sua mãe, disse a AARP. Cerca de 76% das pessoas cuidadas por familiares da geração X têm 50 anos ou mais; a média de idade das pessoas cuidadas é 60 anos. A média de idade das pessoas cuidadas por netos é 77 anos. E mais de metade dos cuidadores familiares da geração do milênio (51%) são os cuidadores únicos. Ou seja, não há ninguém que os auxilie nessa função.

Podemos prever que essa tendência vai continuar. À medida que mais e mais pessoas como eu envelhecemos, haverá a expectativa de que mais de vocês venham cuidar de nós. Por que? A política pública nos EUA se distanciou lamentavelmente da realidade, deixando de levar em conta o fato de que a cada dia 10 mil pessoas da geração do baby boom estão completando 65 anos. E essa carga de trabalho e responsabilidade está indo parar diretamente sobre os ombros de vocês da geração do milênio.

Vamos começar por explicar tintim por tintim o que significa realmente cuidar de um idoso. As pessoas de minha geração já sabem, porque nós fomos os cuidadores de nossos pais e cônjugues. Mas lá vai uma versão resumida para vocês.

É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer.

Os cuidadores familiares se encarregam de muitas das mesmas tarefas que os enfermeiros, e mais algumas. E muitas dessas tarefas não são nada agradáveis.

Pode prever que você terá que trocar fraldas, dar remédios, instalar barras de apoio e segurança, pregar tapetes ao chão e dizer à sua avó que ajudou a criá-lo que ela não pode mais dirigir o carro, ouvindo-a chorar e perguntar – de novo -- qual é mesmo o seu nome.

Você terá que trocar cateteres, colher amostras de sangue e acoplar seu pai à máquina de diálise domiciliar, porque os auxiliares de saúde não fazem visitas a domicílio todos os dias. Os cuidadores que fazem parte da família, sim. Às vezes você se esquecerá de descartar corretamente as agulhas e seringas usadas, e alguém vai chamar sua atenção por isso.

Você terá que passar tempo toda semana levando seu ente querido ao médico, perder horas na fila da farmácia e ao telefone com o convênio de saúde, ao mesmo tempo em que terá que cuidar de sua própria vida, família e trabalho. Você vai explodir de raiva, chorar até pegar no sono e passar dias sem tempo para sequer tomar um banho. Sua própria saúde será afetada. O estresse de tentar trabalhar ao mesmo tempo que dá conta de tudo isso vai parecer insuportável às vezes, especialmente se você não contar com nenhuma ajuda externa. A impaciência pode passar a fazer parte de seu cotidiano.

Não apenas você não será pago por esse trabalho – você terá que pagar

Você é uma bênção – é o que todos lhe dirão. Afinal, o trabalho feito pelos cuidadores familiares do país custaria US$642 bilhões por ano se fosse realizado por enfermeiros pagos, segundo a Rand Corporation. Enquanto isso, a Rand avaliou em US$522 bilhões a receita anual perdida pelos cuidadores familiares. Isso foi em 2014. Faça mentalmente um reajuste para levar em conta a inflação.

É espantoso. Para que fique bem claro: os cuidadores familiares trabalham de graça, contribuindo com seu tempo, sua energia e muitas vezes seu próprio bem-estar. Você vai fazer parte desse contingente por amor, por senso de dever, por sentimento de culpa e por ainda mais uma razão: você não terá outra escolha.

E esse trabalho vai onerá-lo de ainda outra maneira. Em seu relatório de 2016, a AARP disse que os cuidadores familiares gastam quase 20% de sua receita anual para cuidar de seu ente querido idoso. Cada um deles gastou em média US$6.954 por ano de seu próprio bolso.

Para cobrir essa despesa adicional, muitos cuidadores familiares diminuem seus próprios gastos. Eles reduzem ou até deixam de guardar dinheiro para sua própria aposentadoria futura. Deixam de ir a restaurantes ou sair de férias. Muitos deles gastam suas economias pessoais ou o dinheiro de seus planos de previdência.

O prejuízo para os cuidadores é duradouro

A saúde de muitos cuidadores é adversamente afetada pelo que eles fazem. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em Los Angeles constatou que quase um terço dos mais de 3 milhões estimados de cuidadores informais na Califórnia relatam sofrer estresse emocional tão grave que atrapalha sua vida. "Síndrome do cuidador" é o nome popular dado ao sentimento de raiva, culpa e exaustão decorrente de se cuidar incessamente de um ente querido que sofre de doença crônica.

Como vocês mesmos não vão demorar a descobrir, nem sempre é fácil encontrar cuidadores externos que possam lhes dar uma folga ocasional, e, quando se encontram, o custo é alto.

Cuidar de seus entes queridos pode impactar sua saúde, mas o efeito prejudicial sobre sua carreira profissional também pode ser terrível. Os cuidadores faltam ao trabalho, deixam de pedir ou aceitar promoções e às vezes abandonam a força de trabalho pago por completo para cuidar de seus entes queridos.

O custo dos salários e benefícios perdidos somam em média US$303.880 ao longo da vida de pessoas com 50 anos ou mais que deixam de trabalhar para cuidar de seus pais, segundo estudo das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina. Para agravar a situação, a redução de seus ganhos ao longo dos anos vai reduzir seus próprios benefícios sociais e aposentadoria, quando você tiver direito a eles.

O governo poderia ajudar muito, mas não ajuda

O relatório das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e matemática oferece uma visão sombria da situação dos cuidadores familiares nos Estados Unidos. O texto ressalva que os cuidadores estão se arcando sob o peso do que eles fazem e que haveria opções possíveis para lhes dar apoio, mas ninguém está dando atenção séria a esse problema.

O que poderia ser feito para aliviar o sofrimento que quase certamente o aguarda? Que tal créditos fiscais para cuidadores, ou o reembolso de suas despesas com o atendimento aos seus familiares idosos? Por que não lhes oferecer créditos da Previdência Social, para que eles próprios não sejam prejudicados no futuro? E que tal aprovar licença-familiar remunerada para cuidar de um familiar idoso, para que, depois de passar a noite cuidando de seu avô, você não tenha que se apresentar ao trabalho às 9h da manhã seguinte?

Boa sorte!

Ann

P.S. Bem-vindos ao clube!

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.