ENTRETENIMENTO
29/05/2018 11:07 -03 | Atualizado 30/05/2018 11:31 -03

Em 'Tully', Charlize Theron se conforma que a idade adulta é uma brincadeira cruel

A dupla responsável por 'Juno' e 'Jovens Adultos' continua mestre da "dramédia" sobre depressão.

Quando vemos Marlo (Charlize Theron) pela primeira vez em Tully, ela está descendo a escada de sua casa suburbana compacta. Um par de chinelos aparece no quadro. Em seguida, uma calça de pijama cor de rosa, uma barriga de grávida e, por fim, uma expressão tensa. Será exaustão? Estresse? Baixo astral? Tudo isso e mais: Marlo tem dois filhos na escola primária, um bebê a caminho e um marido (Ron Livingston) que escapa para o quarto deles à noite para jogar videogame. "Meu corpo parece o mapa em alto relevo de um país dilacerado pela guerra", Marlo comenta mais tarde, quando alguém lhe pergunta sobre sua vida sexual dormente.

Marlo continua a andar arrastando os pés, e Tully se detém sobre sua busca por um momento de inatividade – uma horinha de silêncio, de realização com algo que não seja ligado à função materna.

A colaboração anterior da atriz com a roteirista Diablo Cody e o diretor Jason Reitman foi Jovens Adultos, de 2011, em que o conceito proposto foi o oposto. Quando conhecemos Mavis, a personagem beberrona de Theron, ela está desmaiada na cama de barriga para baixo, ainda com o enchimento que tinha enfiado dentro do sutiã na noite anterior. Mavis bebe porque há inatividade demais em sua vida: progresso insuficiente na série que ela escreve (como ghostwriter) para o público jovem adulto, poucos relacionamentos que signifiquem alguma coisa, nenhum autocontrole.

Tully, em cartaz nos cinemas, e Jovens Adultos compartilham algo que vai além de seus criadores: os dois filmes são mistos de drama e comédia e tratam da depressão. Mavis e Marlo lutam de maneiras distintas para compartimentalizar a solidão que sofrem e a exasperação provocada pelas circunstâncias de suas vidas adultas, que foram aparecendo aos poucos, despercebidas, roubando a despreocupação juvenil delas. Mavis era a rainha das meninas no colégio – mas o que acontece com uma pessoa que chegou ao seu auge de realização aos 17 anos de idade? Já Marlo, quando tinha 20 e poucos anos e vivia no Brooklin, era um espírito livre, não onerado por algo chamado responsabilidade. Mas o que acontece com essa pessoa quando, aos 40 anos, ela se dá conta de que trocou aquela liberdade juvenil pela permanência de uma família? Marlo lamenta a liberdade perdida, dizendo que sua decepção seria justificada, mesmo que ela tivesse tido alguma aspiração real na vida, coisa que não teve.

A juventude perdida é um dos temas favoritos de Hollywood. Quantas vezes já não vimos personagens voltando para casa, como Mavis e Marlo, para reviver seu próprio passado com nostalgia? O elemento comum em filmes que vão de A Primeira Noite de Um Homem a Hora de Voltar está presente em inúmeros filmes – tanto assim que, em Jovens Adultos, Mavis fala a um antigo colega de classe de posição social inferior (Patton Oswalt): "Mas o amor conquista tudo. Você não viu A Primeira Noite de Um Homem?"

Aí está o problema e a nuance. Mavis faz uma interpretação equivocada do argumento de Primeira Noite, razão por que sua tentativa de cortejar um velho namorado do colégio, hoje casado (Patrick Wilson) é tão equivocada e movida a álcool quanto foi Benjamin Braddock quando interrompeu o casamento de Elaine Robinson e fugiu com ela para um futuro não pavimentado.

Mas, enquanto Mavis frequentemente ignorava a realidade de sua depressão, Marlo é obrigada a lembrar-se de suas realidades a todo momento. Ela precisa dizer que seus filhos são "uma bênção", porque é isso o que fazem as mães amorosas. Ela precisa brincar quando fala do que sente em relação a seu próprio corpo, porque as mulheres, teoricamente, não deveriam manifestar ressentimento para valer sobre os defeitos decorrentes de dar à luz. Quando o marido de Marlo a leva de carro ao hospital para dar à luz, Reitman coloca a câmera no banco de trás, e vemos principalmente a chuva caindo sobre o parabrisas, em um momento que supostamente deveria ser de alegria.

Na esperança de evitar "uma reprise do que aconteceu da vez passada" – uma alusão à depressão pós-parto que Marlo sofreu no passado --, seu irmão (Mark Duplass) recomenda que ela contrate uma "babá noturna". ("Todo o mundo faz isso", ele insiste). É quando chega em cena Tully (Mackenzie Davis), uma babysitter maníaca de 26 anos que assume os deveres de Marlo com seu bebê à noite, faz cupcakes para as crianças mais velhas e arruma a casa bagunçada de Marlo de modo que, ao amanhecer, está tudo impecável. ("Sou como a Arábia Saudita, tenho um superávit de energia!", ela insiste.) Ah, o poder do sono. Como se tivesse sido atingida por uma dose de realismo mágico, Marlo de repente volta a ter energia, verve, até desejo sexual. Mas outra coisa também vai acontecendo pouco a pouco: ela percebe que Tully encarna aquela energia dos 20 e poucos anos pela qual ela ainda anseia – aquela época dourada em que ela perambulava por Bedford-Stuyvesant, conversava com os amigos a qualquer hora, passava de uma relação semicompromissada para outra e abraça a toxicidade potencial de amizades em que investira demais.

Em Jovens Adultos, os esforços de Mavis para exibir seu lado positivo – para ocultar a verborragia desagradável – na esperança de reacender um amor perdido vão tornando-a cada vez mais amarga, até o ponto em que ela acaba por explodir, gritando palavrões no meio da cerimônia de atribuição do nome do bebê de seu amado, à qual ela mal tinha sido convidada, para começo de conversa. É essa explosão, e a consciência de que ela própria detonou o único desejo real que tinha, que finalmente a leva a questionar sua condição, mesmo que apenas de modo passageiro. Jovens Adultos termina com uma justaposição: Mavis dá à narradora de seu romance uma fala final alegre, "vida, lá vou eu!", palavras que ela repete enquanto examina o paralama amassado de seu carro. Ela conquistou um pouco de esperança, mas a realidade ainda é arrasadora. Será que alguma coisa vai mudar? Você decide.

Mas Tully, o mais sofisticado dos dois filmes, cria uma virada positiva mais definitiva. Vamos descobrir que a vida de Tully não é tão invejável quanto Marlo imaginava, e, depois que as duas passeiam pelo Brooklyn para que Marlo possa recuperar sua juventude, ela acorda sentindo que a vida ainda vale a pena. Jovens Adultos não hesita em mostrar a incapacidade de Mavis de se conciliar com a depressão, mas Marlo, que é esposa, mãe e profissional de recursos humanos, é assombrada pela ideia de que tem o dever de estar satisfeita com a vida. Quando ela entende que talvez esteja melhor nesta fase de sua vida, e que não tem problema sentir raiva de seus filhos de vez em quanto, isso confere uma aura otimista a Tully.

Tully também assinala a evolução criativa de Cody e Reitman. Ambos tiveram altos e baixos profissionais nos últimos anos; este é o melhor trabalho de cada um deles há algum tempo. A parceria deles começou com Juno, em 2007, um filme terno que parece ter a obrigação de terminar em tom esperançoso. Assistir a essa transição, do drama contundente de Jovens Adultos para o existencialismo irreverente de Tully, é assistir ao processo de amadurecimento narrativo de Cody e Reitman, apesar de ele ainda ser encorajado pelas nuances maravilhosas de Charlize Theron. Como Marlo, a roteirista e o diretor são adultos agora. As relíquias de sua juventude ainda merecem ser revisitadas, mas o momento atual é o melhor.

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