MULHERES
28/05/2018 17:17 -03 | Atualizado 28/05/2018 17:20 -03

A responsabilidade de interpretar Moira em 'O Conto da Aia', segundo Samira Wiley

Em entrevista ao HuffPost, atriz fala sobre como foi filmar em meio ao movimento #MeToo e sobre como a série trata questões raciais.

Samira Wiley como Moira, em 'O Conto da Aia'.
Samira Wiley in "The Handmaid's Tale" Season 1.
Samira Wiley como Moira, em 'O Conto da Aia'.

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers da primeira temporada de O Conto da Aia

Samira Wiley tinha acabado de interpretar Poussey emOrange Is the New Black quando começou a cativar os espectadores no papel de Moira, a amiga destemida de Offred ou June (Elisabeth Moss) em O Conto da Aia. Sua atuação contundente lhe valeu uma indicação ao Emmy na categoria melhor atriz coadjuvante numa série dramática, que ela acabou perdendo para sua colega de elenco Ann Dowd, que representa a temível Tia Lydia.

Ela diz que essa derrota só a fez investir mais fundo em seu retorno a O Conto da Aia. "Todos os dias estamos aqui, dando de tudo na segunda temporada para garantir que será tão ou mais incrível que a primeira", a atriz disse ao HuffPost.

Wiley estava prevista para voltar às telas em abril. Após uma primeira temporada que fez manchetes, ela disse que todos os envolvidos na série, desde os roteiristas e o elenco até a equipe técnica, estão sentindo a pressão para produzir um trabalho melhor que nunca, especialmente agora que a trama vai além do que está contido no livro distópico original de Margaret Atwood. Haverá novas reviravoltas e novos lugares para explorar em Gilead e redondezas, especialmente para Moira.

Na final da primeira temporada, Moira escapou de Gilead e atravessou a fronteira do Canadá, onde foi recebida por Luke (O.T. Fagbenle), o marido de June. Os espectadores ficaram sem saber se ela e Luke se uniriam em um esforço para salvar June, que descobriu recentemente estar grávida de um filho que não é de Luke. Mas, quando a temporada estava prestes a terminar, nossa protagonista foi tirada de uma casa na qual estava sendo detida e colocada dentro de uma van preta, deixando o destino de todo o mundo em aberto.

Abaixo, Samira Wiley compartilha alguns detalhes sobre a trama da segunda temporada e reflete sobre o significado da série na era do movimento #MeToo. Ela esclarece alguns de seus comentários anteriores sobre o tratamento dado à questão racial na série.

HuffPost: Vocês estão gostando da ideia de falar da segunda temporada e lançá-la para o mundo, depois de todo o hype em torno da primeira?

Samira Wiley: E como! Especialmente porque estamos imersos nela desde setembro. Todo esse tempo, a segunda temporada tem sido a nossa vida inteira. Todo os dias, sem exceção, estamos aqui, dando de tudo na segunda temporada para garantir que será tão incrível ou até mais incrível que a primeira, e não poder falar disso é um pouco... Não vejo a hora de poder falar com as pessoas sobre isso. Acho que a segunda temporada será demais.

Depois do sucesso – dos prêmios, dos elogios – da temporada um, o elenco e os criadores sentiram muita pressão em relação à segunda temporada?

É claro que temos o sentimento coletivo de querer garantir que a temporada dois seja incrível. Mas acho que cada um de nós tem suas metas pessoais. No caso de Elisabeth [Moss] – não sei como ela poderia superar o que fez na primeira temporada, mas ela é incrível, então vamos ver. No caso de minha própria jornada, ganhei uma indicação individual ao Emmy também, e essa foi a coisa mais fantástica que já aconteceu comigo em minha vida profissional, então estou sentindo a necessidade de ficar em cima para garantir a qualidade do meu trabalho. Há pressão adicional para mim, porque quero acertar, seja lá o que isso quer dizer.

Depois de seu trabalho como Poussey em Orange Is the New Black, deve ter significado muito para você encontrar um papel como o de Moira. É bacana representar essas personagens fortes e ser reconhecida pelo seu trabalho?

É como um sonho. Também sinto que tenho sorte tremenda por estar ficando muito mais à vontade com quem sou na comunidade LGBT. Acho que a visibilidade é importantíssima, e saber que de algum modo fui "escolhida" para ser uma voz da comunidade – é uma responsabilidade real que tenho, e quero ser capaz de retratar essas personagens de uma maneira inspiradora para as mulheres jovens. Não sei como foi que me couberam essas duas personagens que têm tido tanto impacto, mas isso me impõe humildade, e eu só quero continuar a inspirar as pessoas com nosso trabalho.

Você falou em responsabilidade. Representando uma personagem como Moira na segunda temporada, cuja história está mudando – você pode comentar como é entrar nesse espírito, nesse astral, para voltar a encarnar essa personagem?

Moira está tendo uma jornada diferente nesta temporada. Ela escapou para o Canadá, e sua vida agora está completamente diferente. Mas acho que nós, mulheres, temos tantos lados diferentes, somos tão complexas. Poder mostrar a jornada desta mulher forte agora que sua vida mudou... Nós a enxergamos como uma guerreira, alguém que está determinada acima de tudo a escapar de Gilead. E agora, que ela o fez, para onde ela vai? Em Toronto, no Canadá, para onde ela fugiu, vamos ver não apenas a Moira forte com quem já estamos acostumados, mas também uma pessoa que está tentando se adaptar a esse mundo novo. Ela passa por dificuldades diferentes no Canadá. Acho muito importante e interessante explorar todos os lados dessa mulher.

Não pode ser fácil para ela ter escapado, mas pense em tudo pelo qual ela passou em Gilead e tudo que ela sabe que sua amiga, June, está enfrentando. É difícil mentalmente para ela levar a vida adiante?

É difícil, sim. Na teoria, parece ótimo: você escapa de Gilead, você está livre, está num centro de refugiados, recebe dinheiro, convênio médico, um carro, e tudo está indo superbem. Mas Moira está lá sem ninguém, sabe? Ela acaba encontrando Luke, mas ele é a única pessoa que ela tem. June é sua melhor amiga na vida e ela não está por perto; sua companheira não está ali. Então estar em liberdade soa maravilhoso, mas também pode ser deprimente e difícil. Moira está tentando trabalhar tudo isso.

June está grávida, mas a situação dela não parece boa após a primeira temporada. O que Moira e Luke vão tentar fazer para resgatá-la, se é que vão tentar?

Não sei quanto posso dizer sobre June. Para onde ela vai é um mistério de verdade. Mas posso falar de Luke e Moira. É claro que eles estão pensando em June sempre. Ela é a terceira parte do grupo deles – eles três realmente formam uma família e realmente amam Hannah. Pensam nela todos os dias e pensam em como tirá-la de lá, como chegar a ela. June faz parte da família deles, então ela domina os pensamentos deles enquanto estão juntos no Canadá.

Agora que a história avançou para além do ponto onde o livro terminou, vamos ver mais do mundo fora de Gilead? Não apenas em Toronto, mas em volta das fronteiras da República?

Sim, a história passa a tratar um pouco mais do que acontece fora de Gilead. Vamos ver e ouvir coisas e perspectivas de diferentes partes do mundo. Mas mesmo dentro de Gilead, vamos ver lugares que nunca antes vimos. Uma coisa que me vem à cabeça é algo do qual falamos tanto na primeira temporada, as Colônias, para onde são enviadas pessoas que foram classificadas como "não mulheres". São mulheres descritas como traidoras do gênero, que são lésbicas – é claro que a mulher está garantida se puder ter filhos; mesmo que seja gay ela pode ser uma aia --, mas as colônias são o lugar para onde mulheres são transferidas para definhar e morrer. Já ouvimos falar dos horrores desse lugar, mas existe outro lugar em Gilead que vamos poder ver nesta temporada, e não é bonito. Só vou dizer isso.

Vamos conhecer personagens novas nas Colônias, que vão deslanchar uma nova trama?

Sim, vamos conhecer personagens que não conhecemos até agora.

Você acha que a série será vista ou interpretada de modo diferente, agora que aconteceu o movimento #MeToo?

Bem, assim como na primeira temporada, quando as pessoas falaram de como nossa série era pontual e relevante ao clima social, à eleição presidencial e à situação que vivíamos naquele momento, minha esperança é que as pessoas digam a mesma coisa sobre a segunda temporada, em relação ao movimento Me Too, ao movimento Time's Up e ao fato de as mulheres de modo geral sejam vitimadas, algo que todas nós, mulheres, conhecemos e vivemos todos os dias de nossa vida. "O Conto da Aia" está conscientizando a outra metade de nossa população. Para mim, é importante que o trabalho com que eu me envolvo tenha relevância para o momento que estamos vivendo. Isso me faz sentir que cada dia é importante dentro do trabalho que estou fazendo. É exatamente com isso que quero me envolver. Vou adorar se a reação for a mesma com a segunda temporada.

Deve ser uma sensação poderosa estar numa série de TV que é citada constantemente quando se fala em política e questões sociais atuais. Mas isso me leva a pensar de novo sobre a pressão que isso deve gerar.

Com certeza. Isso é algo que acho que não ajuda, ficar pensando na pressão. Não foi assim que trabalhamos na primeira temporada. Apenas fizemos todo o possível para ser fiéis à história, para deixar Margaret [Atwood] feliz e muitos dos fãs do livro, também. Tentamos ser fiéis ao cerne da história. Agora, na segunda temporada, precisamos poder nos afastar do livro e criar nossa própria história. Isso aumenta um pouco a pressão, sabe? Porque as pessoas estão querendo saber: "O que vai acontecer agora?". Para mim, é importante tentar não pensar nessa pressão.

Contando com o ponto de vista de Margaret e usando esses movimentos para inspirar o roteiro, você acha que os roteiristas fizeram referências ao Me Too e à política social de hoje na segunda temporada?

Acho que com tudo, eu me surpreendo com os roteiristas da nossa série e os admiro. Parece que eles estão em perfeita sintonia com tudo o que está acontecendo em nosso país, nosso mundo. Toda vez que leio o roteiro, a sensação é de estar assistindo a um novo episódio para o público – sinto isso dentro de mim. A série parece tão relevante parao que estamos vivendo no momento, para as coisas que estamos vendo nos jornais e na TV, os relatos que ouvimos de nossos colegas e outras pessoas. Admiro realmente o fato de eles conseguirem fazer isso. É ótimo poder retratar isso e trabalhar em colaboração com eles para criar algo tão coeso.

Você falou previamente que sente orgulho de como a série trata da questão racial, porque focaliza mais as mulheres em geral, independentemente de sua cor de pele, etnia ou orientação sexual. Você pode falar um pouco mais disso agora no início da segunda temporada? Já que as tramas potenciais podem mergulhar mais fundo nisso.

Obrigada por lembrar do que eu falei no ano passado, porque depois da nossa primeira temporada, realmente não estou cega nem surda em relação a tudo o que as pessoas vêm falando de raça em relação à série. Você ouve comentários tipo "tem um clima pós-racial" ou "a série ignora o fato de que as pessoas negras estão neste mundo". Mas isso é importante para a discussão. Às vezes, para mim, quando estou trabalhando numa coisa, é difícil me colocar inteiramente fora dela e olhar para ela objetivamente. Neste momento, eu sou Moira. Estou tentando compreender essa personagem e fazer cada momento funcionar. Mas penso realmente que essas coisas merecem ser discutidas e reconhecidas.

Com as Colônias agora em cena e novas partes da trama ocorrendo dentro de Gilead e por perto, a série vai aproveitar essa oportunidade para ampliar essa discussão?

Não estou equipada realmente para responder essa pergunta. Minha participação na série é muito... acho que não estou em posição de responder, sinto muito. [A Hulu esclareceu que Wiley estava ansiosa para responder, mas achou melhor deixar que o criador Bruce Miller fosse o primeiro a tratar desse tema.]

Você enxerga a possibilidade de "O Conto da Aia" continuar depois da segunda temporada?

Acho que sim, sem dúvida. Como eu disse, admiro e me assombro com os roteiristas e penso "como eles vão poder levar isto daqui adiante?" Então, quando tenho o roteiro diante de mim, penso "meu Deus, como eles fizeram isso?". Por conversas que já tive com eles, acho que eles estão, sim, com planos de criar mais temporadas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.