28/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 29/05/2018 16:30 -03

Ela rompeu com o ciclo de violência e descobriu que ser livre é não ter medo

Julia Maia sobreviveu à violência doméstica e sexual e hoje ajuda outras mulheres que passam pelas mesmas situações. "Demorei 12 anos para perceber que vivia em um relacionamento abusivo."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Julia Maia é a 82ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

A mãe de Júlia Maia, de 37 anos, não sabe se o som vinha de algum lugar do próprio hospital, de alguma casa das redondezas ou mesmo de sua imaginação, mas jura de pés juntos que, enquanto dava luz à cantora, seus ouvidos foram invadidos pela música Realce, de Gilberto Gil.

A força é bruta, já diria a canção, e ao longo da sua vida, mesmo tendo passado por "poucas e boas" - em suas palavras -, a citação presente nessa faixa específica representa de maneira assertiva a maneira com que a soteropolitana encara toda a sua trajetória. Essa força, inclusive, é o que a deixa confortável para hoje, ajudar e orientar outras mulheres que passam pelas mesmas violências que sofreu.

Mesmo a mais empoderada das mulheres pode sofrer violência.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu canto com a minha voz, com o meu corpo, com o meu sexo; eu canto toda."

Na parede de seu apartamento no Rio Vermelho, onde recebeu a reportagem do HuffPost Brasil, ao lado de grafites assinados por artistas baianas, há um quadrinho preto que pode passar despercebido aos menos atentos. "Eu canto com a minha voz, com o meu corpo, com o meu sexo; eu canto toda", diz a frase atribuída à cantora Janis Joplin escrita na peça.

E é verdade. Julia canta ininterruptamente desde os 7 anos, quando subiu ao palco pela primeira vez, acompanhada do pai. Ele, músico e anarquista, e sua mãe, psicóloga, viviam um casamento aberto, já lá no auge dos anos 70, e criaram a filha com com leveza e liberdade. "Eu sempre tive um nível de liberdade muito grande para fazer o que tinha vontade, sempre fui muito de me jogar nas experiências", conta. Ou seja, o incentivo para o dom já intrínseco à sua natureza foi imediato: passou a adolescência de banda em banda espalhando sua voz.

Ela conta que, por causa dessa independência que recebeu dentro de casa, começou a namorar muito cedo. Aos 15, engravidou pela primeira vez de um namorado da mesma idade e escolheu fazer um aborto. "Eu abortei escondido. Por mais que você entenda que é aquilo que você quer, no fundo você nunca quer. É uma sensação muito louca, muito forte. Eu tinha 15 anos de idade e ele também, não tinha opção".

O estupro me levou para um lugar que consumiu mais de dez anos da minha vida.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, o sorriso de Julia é fruto da consciência de que o ciclo de violência em sua vida acabou.

Exatamente um ano depois, já com outro namorado - esse 9 anos mais velho - a camisinha estourou novamente e, desta vez, decidiu manter o bebê: "Foi aí que realmente começou a minha jornada". No primeiro ano do ensino médio, estudou durante os primeiros meses do ano o suficiente para que quando chegasse mais próximo de outubro - mês de nascimento da filha - não precisasse mais frequentar as aulas.

Com apoio total dos pais e da família do companheiro, descartou, sob qualquer hipótese, realizar cesariana. Com enxoval comprado, expectativa lá em cima e data marcada no hospital, em uma consulta dentro de casa uma semana antes do prevista para nascer, a pequena Anaís resolveu que essa era a hora de vir ao mundo. "Ela nasceu lá em casa, parecia novela. A médica chegou para me examinar e viu que eu tava com a dilatação completa, não dava mais para sair. Tinham 9 pessoas no parto junto comigo", lembra.

"Eu entrei total na maternidade. Com 17 anos eu vivia uma vida de casada de mulher de 30", conta. Com a neném nos braços, fez um supletivo, terminou o ensino médio e passou na faculdade de psicologia. O marido, que trabalhava num pólo petroquímico, passava o dia inteiro fora de casa - então, as funções de "tomar conta" de Anaís, fazer mercado e cuidar da casa, ficavam todas sob a sua alçada. Três anos sob essa rotina foram o suficientes para ela perceber que aquela relação já não se sustentava.

Na delegacia, eu fui totalmente maltratada. Pediram para eu descrever como era o meu agressor e, depois de eu falar, responderam que aquelas características não batiam.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, além de ser doula, integrar o Som das Binhas e Julia também trabalha como cartomante.

Nessa época, quando voltou a morar com os pais, "aconteceu a parada que foi mais definitiva" em sua vida. "Com 21 anos, eu fui estuprada na rua em que eu vivi a vida inteira, em Patamares. 'Tava' voltando de ônibus do ensaio de uma banda que eu tinha, desci no ponto da rua, e um cara que tava do outro lado da rua me acompanhou e me abordou. Ele pediu para que eu andasse com ele como se fosse namorada. Quando ele falou isso, eu pensei: pronto, fodeu, vou morrer".

Conseguiu chegar em casa com a ajuda de um taxista que a viu chorando na rua, encontrou os pais e foi direto para a delegacia. "Eu fui totalmente maltratada, os policiais não tinham sensibilidade alguma. Pediram para eu descrever como era o meu agressor e, depois de eu falar, responderam que aquelas características não batiam com a descrição do estuprador que estava atuando naquela região".

Mesmo que a família tenha ficado ao seu lado, muita gente não acreditava que aquilo havia acontecido. Os motivos: 1) Porque ela falou; e 2) Porque o agressor não havia lhe deixado marca física alguma. "Isso me levou para um lugar que consumiu mais de dez anos da minha vida. Eu surtei, é impossível uma pessoa sair normal depois disso. E a mais prejudicada foi Anaís, porque eu não tinha condições. Aos poucos, eu fui ficando mais ausente para a minha filha".

Eu percebi que quando eu falo sobre o meu abuso, eu tô ajudando outras mulheres. Foi o meu primeiro insight feminista consciente.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Atrelado à atuação como doula e os freelas com música, ajudou a fundar, de forma orgânica, o coletivo Som das Binhas, em Salvador.

Pós-agressão, começou a viver um processo autodestrutivo muito forte. Um deles, iniciar um namoro com um rapaz que era super machista e controlador, "mas que me dava muita segurança porque não deixava ninguém encostar em mim", conta. A filha, aos 7 anos pediu para morar com avó. "Ao mesmo tempo que foi muito difícil, foi um alívio muito grande porque eu sabia que, se ela continuasse comigo, o dano seria muito maior. Esse foi um movimento de uma pessoa que estava completamente destruída".

Foi engolindo o que passou, guardando tudo que viveu num baú dentro de si, e vivendo. Largou a faculdade, mas continuou cantando e conseguiu terminar o relacionamento com o rapaz abusivo - porque havia se apaixonado por outro. Entre idas e vindas, os dois somaram 12 anos de relacionamento. Nos cinco primeiros, no entanto, mesmo que sofresse agressões psicológicas - e algumas vezes até física - não percebia que estava dentro de uma relação abusiva.

Eu sou feminista de nascença. Nunca imaginei que me deixaria envolver numa relação com uma pessoa assim. E eu demorei 12 anos pra perceber que vivia um relacionamento abusivo.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Foi na capital fluminense que Julia entrou em contato com a espiritualidade pela primeira vez, e nunca mais a deixou.

No primeiro hiato do namoro dos dois, Júlia recebeu convites de trabalho no Rio de Janeiro e resolveu passar um tempo por lá. Na capital fluminense, entrou em contato com a espiritualidade pela primeira vez. Entrou num terreiro de Umbanda a convite de um amigo, e assim que pôs os pés no lugar, se arrepiou por completo e começou a chorar copiosamente. "Não 'tava' tendo cerimônia alguma, mas eu entrei em transe, fiquei catatônica. Voltei o caminho inteiro para casa calada, e a primeira coisa que eu falei foi:' Preciso voltar naquele lugar'".

Vestiu roupa do terreiro, foi identificada como filha de Yemanjá - uma das entidades femininas mais importantes da religião - e descobriu mediunidade. Trabalhou durante um ano dando consultas e recebendo santo, antes de voltar para a Bahia e retomar o relacionamento com o antigo namorado. "Foi surreal, ele estava sem beber, tinha ido para um retiro espiritual, a mãe dele que nunca gostou de mim me recebeu de braços abertos. Foi daquelas coisas que quando acontecem você fala: é isso".

Os abusos, no entanto, continuaram. Qualquer coisa mínima era motivo para que ele perdesse o controle, a agredisse e se arrependesse. "Estamos suscetíveis. O perigo está muito mais perto do que pensamos. Está em pessoas acima de qualquer suspeita. Está em nós. Na nossa incapacidade de enxergar a verdade quando nos deparamos com ela. De assumir que mesmo a mais empoderada das mulheres pode sofrer violência, se calar e permanecer em situação de risco, por amor, por abuso".

A gente tá cansada de morrer, tá cansada de apanhar. Nessa rede de mulheres eu senti a vontade de voltar a falar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Se reerguendo aos pouquinhos de tudo o que tinha acontecido, Julia também começou uma formação de parteira.

Já separada, foi ajudar a irmã que estava grávida e prestes a ter o bebê, e se encantou com a doulagem - é o nome formal para o suporte físico, emocional e informacional à mulher e sua família durante o trabalho de parto. Se reerguendo aos pouquinhos, começou uma formação de parteira na qual foi a primeira vez na vida em que ficou rodeada exclusivamente de mulheres. A sensação foi tão "louca energeticamente", que decidiu mergulhar no Sagrado Feminino - um estilo de vida que promove ensinamentos sobre aspectos físicos e mentais da figura feminina, como a consciência dos ciclos femininos, da capacidade de criação e acolhimento, e da força da mulher.

Atrelado à atuação como doula e os freelas com música, ajudou a fundar, de forma orgânica, o coletivo Som das Binhas, em Salvador. De uma necessidade de fortalecer a cena feminina na música baiana, principalmente as instrumentistas, várias "binhas" passaram a se reunir para tocar juntas em uma espécie de jam session e trocar relatos sobre as experiências que sofreram ao longo do tempo. "É o coletivo que me empoderou, foi por causa dele que eu tomei coragem de fazer o meu relato sobre a violência doméstica que eu sofri. Foi a parada mais libertadora e incrível que eu já fiz".

Em março de 2016, Júlia escreveu sobre o abuso que sofreu dentro de casa nas redes sociais. A intenção era alertar outras mulheres que poderiam estar passando pela mesma situação. "Foi surreal o apoio que eu tive, isso foi realmente o que me salvou. A gente tá cansada de morrer, tá cansada de apanhar. Nessa rede de mulheres eu senti a vontade de voltar a falar".

Junto ao desabafo, uma amiga lançou a rede "Eu Aceito, Eu Ofereço", na qual mulheres pedem e se ajudam em relação aos mais diversos assuntos possíveis e imagináveis. "Eu sou moderadora lá. E é incrível ver a quantidade de mulheres que sofreram sofrem abuso sem nem se dar conta. E elas se sentem confortáveis de falar sobre isso comigo porque sabem que eu não vou julgar, sabem que sei que não é fácil ir na delegacia prestar denúncia".

Hoje eu não discuto nada sem passar pelo viés da espiritualidade. É por causa dela que hoje eu conto e aceito isso tudo sem chorar, fazendo piada até, mas com a seriedade que o assunto pede.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Liberdade é não ter medo. Eu não vou me calar nunca mais".

Nessa mesma época, sonhou com um baralho de tarô. Acordou, foi num sebo e encontrou as cartas. Começou a abrir só para ela, depois para amigas, depois para outras pessoas, e hoje assumiu a cartomancia como profissão. "Eu nunca fiz nenhum curso, é um conhecimento ancestral. Hoje eu não discuto nada sem passar pelo viés da espiritualidade, e as cartas vêm em primeiro plano. É por causa da espiritualidade que hoje eu conto e aceito isso tudo sem chorar, mas com a seriedade que o assunto pede."

Dia desses, foi fazer uma leitura de aura com "uma profissional muito foda", que lhe disse o seguinte: "Júlia, o tempo da violência na sua vida já acabou. Tudo o que você viveu, lhe deu as ferramentas para você fazer o que você veio fazer nessa vida, que é cuidar de outras mulheres". Ela acrescenta, no entanto, mais um item à sua nova lista de obrigações: "Liberdade é não ter medo. Eu não vou me calar nunca mais".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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