MULHERES
25/05/2018 14:18 -03 | Atualizado 28/05/2018 13:58 -03

Quem são os jovens que votam para manter a proibição do aborto na Irlanda

"É a maior batalha de direitos humanos da nossa geração."

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O referendo do aborto na Irlanda está sendo descrito como uma batalha entre a geração mais velha e católica e a mais jovem e liberal; a velha e a nova Irlanda estão lutando por uma questão de princípios. Mas alguns jovens mostram que não é bem assim.

O HuffPost do Reino Unido conversou com pessoas que defendem a manutenção da proibição do aborto no país. Muitos mencionaram suas criações católicas e os direitos das crianças não nascidas, mas outros afirmam que certos jovens estão votando "não" em reação ao movimento #MeToo. Um adolescente do sul de Dublin, a capital do país, afirmou: "Um monte de amigos meus caem nessa última categoria".

"Eles acham que o movimento Me Too faz mais mal que bem", disse o estudante, que pediu para não ter seu nome publicado. "Eles associam as feministas a pessoas que acham que as mulheres são melhores que os homens e, portanto, tudo isso acaba misturado no referendo."

A votação desta sexta-feira (25) acontece depois de semanas de debates tensos sobre a oitava emenda à Constituição da Irlanda, que proíbe o aborto. Se "sim" for vitorioso, o governo vai mudar a legislação para que mulheres com menos de 12 semanas de gestação possam abortar legalmente. Se, depois de 12 semanas, houver risco para a vida da mãe ou se existirem graves riscos à sua saúde, dois profissionais da saúde decidirão se a gravidez poderá ser interrompida.

Diarmuid Gallagher, estudante de 21 anos, disse que decidiu votar pelo não há apenas três semanas. Gallagher disse ter pesquisado em sites do governo e de saúde, além de ler os materiais distribuídos pelas campanhas. Gallagher contou, em entrevista, que a permissão do aborto por motivos de saúde mental é um equívoco. "Não existe proteção real para a saúde dos bebês, o que é uma das coisas mais importantes na minha opinião."

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Outros jovens disseram votar pelo não por razões religiosas e morais. Fazendo campanha nas ruas de Dublin, Lucy Kelly, de 21 anos, originalmente de Belfast (Irlanda do Norte), era uma das defensoras do "não" que vêm de famílias fortemente envolvidas no referendo. "Minha família inteira é pró-vida", disse ela. "É a maior batalha de direitos humanos da nossa geração."

Kelly disse estar atuando com grupos antiaborto há quatro anos. "Há uma grande campanha no norte e no sul. Ela é basicamente unida nas duas Irlandas." Ela acredita que o aborto tem "efeitos prejudiciais para as mulheres".

"Por que não oferecer serviços de apoio às grávidas aqui na Irlanda?". Riaghan O'Callaghan, 24, vem fazendo campanha no interior do país há dois anos. "Estamos tirando o direito à vida e dando o direito de matar. Acho que isso é discriminação." Sua família é contra o aborto, e sua irmã também está envolvida na campanha.

Elas recentemente viajaram pelo país com uma organização chamada Life Institute. "Aqui [em Dublin] sei que há uma tendência [pelo 'sim'], disse O'Callaghan.

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O que é o referendo sobre o aborto na Irlanda?

O referendo sobre o aborto na Irlanda decidirá se as rígidas leis de aborto do país devem ser flexibilizadas ou não.

Os eleitores terão a chance de votar sim ou não sobre se a Oitava Emenda à Constituição do país deve ser revogada, abrindo as portas para o governo aprovar a legislação que torna o aborto legal.

A oitava emenda atualmente diz que o feto e a mãe têm o mesmo direito à vida.

De acordo com as novas leis do país, se a emenda for revogada, as mulheres na Irlanda poderiam obter aborto legalmente nas primeiras 12 semanas de gravidez e até 24 semanas nos casos em que a vida ou a saúde da mulher estivesse em risco.

As terminações também seriam permitidas se o feto tivesse uma anormalidade fatal.

Matthew O'Shea estava entregando panfletos perto do Green Shopping Centre. "Vou votar 'não' porque acho que o feto no útero é uma criança, e abortar é matar a criança", disse ele, antes de admitir que tem apenas 14 anos e, portanto, não poderá votar no referendo.

O'Shea diz que vem de uma família religiosa, e seus pais o levam a manifestações contra o aborto desde que ele é pequeno. Ele também estuda em casa, o que permite que ele possa fazer campanha sem perder aulas.

Para O'Shea, os defensores do "sim" usam as leis como "tática de amedrontamento": apesar das penas de até 14 anos de prisão, poucas mulheres que realizam abortos são processadas no país.

"Obviamente existem casos extremos dos dois lados, mas acho que o 'sim' é muito extremo, e por isso decidi apoiar o 'não'."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Reino Unido e traduzido do inglês.