NOTÍCIAS
25/05/2018 20:28 -03 | Atualizado 29/05/2018 14:21 -03

Hospitais, clínicas e farmácias apelam aos caminhoneiros para que liberem os produtos de saúde

Paralisação do serviço de diálise, por exemplo, pode resultar em mortes e problemas graves aos pacientes.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Com a rigidez do governo contra a greve, a expectativa é que os caminhoneiros comecem a se desmobilizar nos próximos dias.

É difícil reclamar da greve quando há simpatia com o motivo do protesto. É assim que estão se sentindo os principais representantes da área de saúde. A categoria diz entender os caminhoneiros, parados desde segunda-feira (21), mas faz um apelo para que liberem pelo menos os produtos de saúde.

O impacto vai desde falta de bombinhas para quem tem asma à escassez de oxigênio, essencial para realização de cirurgias. Na Bahia, hospitais como o Martagão Gesteira, de Salvador, e o Hospital da Criança, de Feira de Santana, estão com os serviços afetados.

Um dos serviços que sofre com a greve é a diálise. Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Carmen Tzanno, assinou uma nota na qual alerta para possibilidade de paralisação do atendimento, "que no nosso caso pode resultar em mortes e problemas graves aos pacientes".

"Estamos de mãos atadas, acreditando e esperando que os envolvidos tenham um pouco de complacência e flexibilidade e entendam que saúde é prioridade e não pode ser tratada como se tratam outras questões", afirma.

A Federação dos Hospitais do Estado de São Paulo alerta ainda para a possibilidade de faltar medicamentos e insumos de forma geral. O recolhimento do lixo hospitalar também está comprometido.

"Trabalhamos com estoques reduzidos e necessitamos de abastecimentos regulares, como por exemplo, de 2 em 2 dias, 3 em 3 dias, no caso de reposição de oxigênio", diz o presidente da federação, Yussif Ali Mere Junior, em nota.

Apelo

Diante deste cenário, os profissionais usam o valor da vida para pedir aos caminhoneiros que liberem os insumos de saúde. Ao HuffPost Brasil, o presidente-executivo da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), Sergio Mina Barreto, explica que a maioria dos medicamentos tem vida útil no transporte.

"Alguns caminhões conseguem furar o bloqueio por causa do material que estão carregando, mas não conseguem voltar para serem reabastecidos. Alguns medicamentos são programados para ficarem 4 horas no caminhão, se a viagem passa a durar 12 horas, eles estragam", justifica.

Levantamento feito pela associação com 11 distribuidoras mostra que todas estão com dificuldade para levar os produtos para fora da cidade de São Paulo. Apenas duas afirmaram que conseguiriam continuar fazendo as entregas, uma com uso de motoboys em vez de caminhões, e outra conseguia garantir a entrega só até sexta-feira (25). Do total, 4 disseram não ter nenhuma condição de fazer entrega.

Entre os principais medicamentos que estão nessa condição estão insulina e hormônios. "Pedimos ao movimento que considere esse tipo de bens essenciais e deixem as cargas transitarem."

Barreto, entretanto, faz uma ressalva. Diz que entende os grevistas e os motivos da grave. A nota da Sociedade Brasileira de Nefrologia também endossa os argumentos dos grevista.

"Entendemos a situação e nos solidarizamos com todos aqueles que estão na mesma condição do que a nossa, Por isso, gostaríamos e torcemos para que se chegue a um acordo o mais rápido possível, caso contrário, tememos pelo colapso do atendimento aos pacientes com doença renal crônica.

Não podemos ficar calados frente a essa situação e fazemos um apelo, tanto ao governo, como aos representantes da categoria, para que intercedam e tomem medidas que garantam o fornecimento de insumos aos hospitais e as clínicas de saúde."

Negociação

A expectativa do governo federal é que a paralisação se desmobilize ao longo dos próximos dias. De acordo com o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, 419 de um total de 938 pontos interditados em rodovias de todo o País (quase 45%) foram liberados até a tarde de sexta-feira (25).

AFP/Getty Images
Na sexta-feira (25), o presidente Michel Temer anunciou o uso das forças federais de segurança para desbloquear as rodovias do País.

Também na sexta-feira, o presidente Michel Temer anunciou a edição de um decreto que permite que as forças federais de segurança sejam acionadas para abrir as rodovias bloqueadas.

Em seu discurso, o presidente afirmou que não vai deixar que a população fique sem itens básicos.

"Não vamos permitir que a população fique que sem os gêneros de primeira necessidade, que os consumidores fiquem sem produtos, que os hospitais fiquem sem insumos para salvar vidas. Não vamos permitir também que crianças sejam prejudicadas sem o funcionamento das escolas", disse.

Foi fechado na quinta-feira (24) após 7 horas de reunião com ministros no Palácio do Planalto um acordo que previa suspender a greve por 15 dias. Entretanto, nem todos os grevistas aceitaram o que foi negociado com os sindicatos.

O governo aceitou reduzir a zero, em 2018, a alíquota da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o óleo diesel. Também aumentou para 30 dias o prazo de validade da queda de 10% no preço do diesel nas refinarias, anunciada na quarta-feira (23) pela Petrobras.

A gestão do presidente Temer se comprometeu ainda em extinguir qualquer ação judicial movida contra os grevistas e a prometeu de não incluir o setor de transporte rodoviário nas propostas de reoneração das folhas de pagamento. O projeto que prevê a renoração foi aprovado pela Câmara dos Deputados na quarta-feira (23), mas o governo esperar retirar o trecho que inclui o setor quando a medida for apreciada pelo Senado.