ENTRETENIMENTO
25/05/2018 19:37 -03 | Atualizado 25/05/2018 19:37 -03

'Com toda a merda que já me aconteceu, sinto que já vivi duas ou três vidas'

O vocalista do Aerosmith completou 70 anos recentemente e está preparado para o próximo grande passo.

Momentum Pictures

Steven Tyler é seu próprio pior inimigo, e ele sabe disso.

"Se você olha para a vida e tenta entender as coisas, você entende – seja um divórcio, desentendimentos que você teve com sua mãe, se você foi expulso de casa, seja o que for", ele disse ao HuffPost.

Sim, Tyler já passou por dois divórcios. E teve desentendimentos de sobra, incluindo brigas públicas com seus colegas do Aerosmith.

"Você realmente não entende isso, a não ser que seja uma pessoa que se olha com franqueza, ou que esteja fazendo um programa de 12 passos ou já tenha vivido muito e sido casado e perdido seus amores várias vezes. A maioria das pessoas não tem a oportunidade de olhar de onde veio", ele disse, quase traindo alívio por ter tido a oportunidade de refletir. Então ele fez uma pausa e comentou: "A maioria das pessoas prefere o que é garantido, mesmo que fique sofrendo, a se arriscar e ser feliz".

Os riscos que Tyler assumiu ao longo de sua vida profissional lhe possibilitaram alguns sucessos enormes, incluindo álbuns de platina, prêmios Grammy, singles de sucesso e sua inclusão no Hall da Fama do Rock & Roll. E ele não dá sinais de estar pensando em diminuir o ritmo por enquanto.

Este mês o Aerosmith fez um show estrondoso no Festival Jazz & Heritage de Nova Orleans, levando o jornal Times-Picayune, da cidade, a descrever Tyler como "fabuloso" e o The Boston Globe, o jornal da cidade do Aerosmith, a descrever a banda como "uma máquina bem azeitada". Esta semana será lançado o documentário "Steven Tyler: Out on a Limb", que descreve a criação de seu primeiro trabalho solo, o álbum country "We're All Somebody From Somewhere", de 2016. Para esse álbum, Tyler assumiu outros dois riscos: ele se aventurou em um gênero diferente e trabalhou com vários compositores e letristas de música country

Momentum Pictures
A new documentary on Steven Tyler focuses on his 2016 solo album.

"Senti medo, sem saber se conseguiria escrever com esse pessoal que não conheço", disse Tyler, lembrando do tempo que passou compondo música country em Nashville. "Aprendi o benefício de me manifestar. Fiquei sentado numa sala com gente que disse: 'Vamos escrever uma música de sucesso hoje, todos juntos, aqui nesta sala. A gente não vai sair daqui enquanto não estiver com a canção pronta e até que ninguém aguente mais o cheiro um do outro.' Mas você sai de lá com uma coisa realmente boa. Você faz duas ou três vezes e aí se pergunta: 'Será que sempre foi tão fácil assim?' É claro que não foi. Compor não é fácil."

Na década de 1970 o talento de compositor de Steven Tyler ajudou a criar sucessos como "Dream On", "Walk This Way" e "Sweet Emotion". Anos mais tarde, quando o remake de "Walk This Way" com o grupo de hip-hop Run DMC virou sucesso mundial, foi a prova de que tinha sido mais um risco que valera a pena correr.

"Sabe de uma coisa, um bando de caras de rua tremendamente respeitados pegou 'Walk This Fucking Way' e o converteu numa coisa monumental, de fazer a terra tremer, capaz de derrubar os muros entre branco e preto. Não havia um monte de jornalistas em volta. Foi de verdade", disse Tyler, aparentemente saudoso de uma época em que produzir música não exigia tanta divulgação antes de se lançar a música.

Aquela versão de "Walk This Way" colocou o Aerosmith ainda mais debaixo dos holofotes. Seguiram-se muitos outros sucessos, incluindo "Love in an Elevator", "Angel", "Janie's Got a Gun", "Crazy" e "I Don't Want to Miss a Thing".

Para Tyler, a composição muitas vezes é um esforço em conjunto, por exemplo em colaboração com seus colegas do Aerosmith Joe Perry, Brad Whitford, Todd Hamilton e Joey Kramer. Alguns letristas de fora também já participaram. Foi o caso de "Cryin'", sucesso da banda de 1993. "Escrevi 'Cryin' com um cara fabuloso, Taylor Rhodes. Escrevemos a canção em dois dias. Eu contribuí com a guitarra, que a converteu em uma coisa tipo pesada, cheia de riffs do Aerosmith", Tyler recordou.

O Aerosmith não teve grandes sucessos na década de 2000, mas Tyler conseguiu voltar para debaixo dos holofotes quando estreou como jurado do "American Idol", em 2011. Olhando em retrospectiva, ele diz que fica grato pela oportunidade de se sentar ao lado dos colegas jurados Jennifer Lopez e Randy Jackson.

"Falei para eles antes de entrar para o programa: 'Se vocês querem personalidade, eu sou a escolha certa'. Nunca pensei que o programa voltaria para onde estava no início e quando nós fizemos parte. Achei que nossos dois anos no show foram demais. Quebramos recordes incríveis. Tínhamos 27 milhões de pessoas nos acompanhando à noite. Depois de discutir com minha namorada e dormir apenas três horas à noite, eu fazia o programa. E depois disso, eu ia trabalhar com minha banda em cima de 'Music From Another Dimension' [álbum de 2012]. O fato de eu ter feito 'American Idol' foi ótimo para a banda, e o dinheiro era bom. E eu podia me sentar ao lado de J.Lo."

Tyler completou 70 anos em março e comemorou a data em Maiu com sua companheira, Aimee Preston, além de familiares e amigos, incluindo Stevie Nicks and Mick Fleetwood.

Com toda a merda maravilhosa que já me aconteceu, sinto que já vivi duas ou três vidas.Steven Tyler

"Nem sei o que isso quer dizer. Quando as pessoas começaram a falar em 70 anos, minha filha Chelsea me disse 'mas Pai, esses é um aniversário importante. Você tem que estar aqui.' E eu disse: 'O quê?'. Simplesmente não encarei como uma data importante ou grande. Nunca encarei assim. Cheguei a falar para alguém há 15 dias 'com toda a merda maravilhosa que já me aconteceu, sinto que já vivi duas ou três vidas'."

Mesmo depois de todos esses anos, Steven Tyler parece ficar assombrado com sua vida.

"Tive a sorte de fazer parte do Aerosmith", ele comentou.

Neste verão ele vai voltar sua atenção a seu trabalho solo, com uma turnê marcada para começar em junho. Ele também pretende fazer algo com o Aerosmith, mas não quis revelar mais sobre isso.

"Tudo o que fazemos é envolto em sigilo e um climão de expectativa. Mas vamos fazer algo tremendo", disse Tyler, fazendo mistério. "Não posso contar o que é, mas vai ser grande e maravilhoso, e a banda adora."

Em meio a tudo isso, Tyler continua a trabalhar sobre ele próprio e disse que hoje está numa situação de poder fazer o que gosta. Mas isso não significa que sua trajetória tenha sido fácil.

"Ela vem acompanhada de muito ódio, muita raiva. Eu sobrevivi à indústria musical. Sobrevivi à dependência de drogas. Então há muita coisa em minha vida que foi um problema, e eu percebo isso. Eu chamo a atenção para isso, por isso às vezes não é tão divertido conviver comigo."

Tyler parece se sentir mais vibrante quanto está se apresentando ao vivo.

"Tive a chance de subir ao palco e reviver canções que escrevi com 21 anos. 'Dream On', quando eu canto sobre o palco, eu literalmente entro numa máquina do tempo e refaço o que fiz 48 anos atrás", ele comentou. "Posso reclamar de um monte de coisas. Mas geralmente, quando consigo fazer sexo com a plateia, é o máximo."

Mesmo que Tyler seja seu próprio pior inimigo, parece ter dado certo para ele.

"A vida é muito boa", ele concluiu.

"Steven Tyler: Out on a Limb" já pode ser visto por streaming, incluindo na Amazon, Google Play e YouTube.