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25/05/2018 01:01 -03 | Atualizado 25/05/2018 14:11 -03

O que você deve saber antes de dizer que é contra ou a favor da greve dos caminhoneiros

"Quem é contra a greve dos caminhoneiros, é contra o Brasil. Só pessoas leigas não entendem o real motivo da greve..." Será? 🤔

Rodolfo Buhrer / Reuters
Após quase 7 horas de reunião em Brasília, a categoria acertou com o governo na noite de quinta-feira (24) um acordo para suspender a greve por 15 dias.

Em 4 dias, a greve dos caminhoneiros conseguiu deixar os brasileiros em estado de alerta. Áreas como transporte, saúde e alimentação sentiram os impactos. Mesmo após os sindicatos terem aceitado fazer um acordo com o governo, a paralisação segue. Para furar desmobilizar o bloqueio às rodovias, o presidente Michel Temer acionou as forças federais de segurança.

A greve conseguiu também dividir a população entre os que são favoráveis e os que são contrários a greve. Aqui estão algumas informações que podem te ajudar a decidir em qual lado você quer ficar — se é que é preciso escolher um lado.

O que não é falta é polarização.

Afinal, o que querem os caminhoneiros?

A principal reivindicação dos caminhoneiros é contra o constante reajuste no preço do combustível. O movimento que se iniciou espontaneamente entre caminhoneiros autônomos reclama que eles fecham um valor para um serviço, mas como o preço do combustível estava mudando praticamente todos os dias, no fim eles estavam praticamente pagando para trabalhar. A adesão a essa reclamação cresceu e se alastrou entre a categoria.

"Além da correção quase que diária dos preços dos combustíveis realizado pela Petrobras, que dificulta a previsão dos custos por parte do transportador, os tributos PIS e Cofins, majorados em meados de 2017 com o argumento de serem necessários para compensar as dificuldades fiscais do Governo, são o grande empecilho para manter o valor do frete em níveis satisfatórios", justifica a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCam), uma das entidades que aderiu ao movimento.

A sugestão da ABCam é que o governo crie um sistema de subsídio para "aquisição de óleo diesel por parte dos transportadores autônomos".

O que fez o governo?

Após quase 7 horas de reunião em Brasília, a categoria acertou com o governo na noite de quinta-feira (24) um acordo para suspender a greve por 15 dias. O governo aceitou reduzir a zero, em 2018, a alíquota da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o óleo diesel. Também aumentou para 30 dias o prazo de validade da queda de 10% no preço do diesel nas refinarias, anunciada na quarta-feira (23) pela Petrobras.

A gestão do presidente Michel Temer se comprometeu ainda em extinguir qualquer ação judicial movida contra os grevistas e a prometeu de não incluir o setor de transporte rodoviário nas propostas de reoneração das folhas de pagamento.

Sem a desmobilização de parte dos caminhoneiros, o governo decidiu acionar as forças nacionais de segurança. Segundo Temer, o objetivo do uso do plano de segurança é "superar os graves efeitos do desabastecimento causado por essa paralisação". Ele solicitou ainda que os governadores façam o mesmo.

Greve com apoio de patrão é greve?

O crescimento do movimento de paralisação atraiu a entidade patronal, que permitiu que caminhoneiros de frota aderissem ao grupo e é quem paga pelo custo do diesel nas empresas. Com isso, o movimento está sendo acusado de, na verdade, ser um locaute - que é uma greve dos patrões e não dos caminhoneiros.

Na noite da última quinta-feira (24), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que o governo vai apurar se há a prática de locaute no movimento dos caminhoneiros, que chega ao 5º dia de paralisação nesta sexta-feira (25). Se for, a paralisação será investigada pela Polícia Federal. Para o ministro, o movimento "é e não é" um locaute.

"É um locaute porque tem participação clara, vou te dar um exemplo [de que] há uma participação, anuência, apoio [de empresários]. Quando foi pedida escolta da Polícia Rodoviária Federal para poder liberar caminhões-pipa, de abastecimento etc, o que acontecia? Nós mandávamos a Polícia Rodoviária Federal, mas as distribuidoras e transportadoras se negavam a fazer com que os seus motoristas guiassem aquelas cargas e aqueles caminhões", afirmou em entrevista à Folha.

Por outro lado, diversos caminhoneiros autônomos, que não estão ligados a empresas de carga, rechaçaram o acordo com o governo Michel Temer e apoiam a manutenção da greve.

Impasse sobre o preço dos combustíveis

Desde que a Dilma Rousseff deixou a Presidência do País, o novo governo anunciou que a Petrobras teria autonomia para decidir a política de preços. Desde então, a o reajuste é feito de acordo com as oscilações do mercado. Ou seja, a partir do momento que o governo deixou de controlar os preços, houve permissão para que os preços pudessem ser reajustados com maior variação, o que também leva em conta a variação no preço do dólar.

Este tipo de política, em que o governo não subsidia o preço do combustível, vem sendo adotada por grandes produtores de petróleo para equilibrar as contas públicas.

Quando o governo anunciou redução no preço do diesel, as ações da Petrobras caíram. Ao Jornal Nacional, Álvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais, afirmou que "o mercado ficou bastante desconfiado por conta de uma possível mudança na política de preços da companhia, que, até então, foi o que salvou ela de uma destruição e melhorou a condição econômico-financeira dela, mas também com a permanência dos principais executivos da companhia, que ficaram, claro, aparentemente sob pressão".

À Folha de S.Paulo, Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), ressaltou que "o governo está numa posição de pouca margem de manobra para negociar sem abrir mão de imposto".

Eles também querem a intervenção militar?

Alguns caminhoneiros acusam a corrupção de ser o que tem levado ao aumento do preço do combustível. Outros acreditam ainda que a intervenção militar seria capaz de resolver os problemas do País.

Apesar de alguns caminhoneiros aproveitarem o momento para expor o seu desejo político, a porta-voz da ABCam, Carolina Rangel, afirmou à BBC que a associação não apoia a intervenção e ressalta que o mote é reduzir impostos e preço do combustível.

"Se o caminhoneiro X, Y ou Z acredita que a intervenção é o melhor caminho, a gente aceita. A gente não tolhe o direito de manifestação política de ninguém, é liberdade de expressão. Não temos ligação com nenhum partido político, nem com o MST, nem os pró-Lula, nem os Fora Temer. A nossa insatisfação reflete a da população como um todo.Apesar de grande parte dos brasileiros não abastecerem seus carros com diesel, que é o nosso pleito específico, todo mundo está sendo onerado com o aumento dos combustíveis e com a inflação em geral", disse.

2018 é o novo 2013?

A Marília Moschkovich fez toda uma análise em 2013 sobre os protestos dos caminhoneiros naquela época. E agora, em 2018, ela volta ao que apurou para afirmar que a greve nada tem a ver com o bolso do consumidor. A thread no Twitter está aqui:

E o post de 2013 está aqui:

A maioria dos presidenciáveis disse ser favorável à greve ou a uma mudança na política de preços.

Nas redes sociais...

O especialista em big data Fabio Malini pontua que nenhum dos lados da polarização política aferiram fortemente a #EuApoioAGreveDosCaminhoneiros, que passou a quinta-feira (24) entre os tópicos mais comentados do Twitter.