MULHERES
23/05/2018 15:03 -03 | Atualizado 23/05/2018 15:08 -03

'O Conto da Aia' é a série mais brutal do momento: Por que não consigo parar de assistir?

A série nos proporciona não apenas uma linguagem para falar de nosso potencial futuro distópico, mas também uma estética com a qual representá-lo.

Isabella Carapella for HuffPost

Toda mulher que eu conheço que assiste a The Handmaid's Tale – O Conto da Aia tem uma estratégia.

Uma de minhas amigas só vê a série durante o dia. Outra, que geralmente curte devorar junk food enquanto assiste a seus programas favoritos de TV, decidiu que não consegue comer nada enquanto está vendo assistindo O Conto da Aia. Ainda outra pretende esperar até a série acabar, para então poder rever o resumo da trama de cada episódio e decidir se vai assistir, pular ou assistir apenas por alto. Eu assisto a cada episódio duas vezes, em parte porque cubro a série para meu trabalho e em parte porque a primeira vez que assisto é tão estressante que é apenas na segunda vez que consigo captar os detalhes que minha ansiedade me impede de perceber na primeira vez.

A primeira temporada, que foi ao ar em 2017 e, como o romance em que foi baseada, terminou em um tom de esperança ambígua, foi aclamada pela crítica e quase universalmentre elogiada em meu círculo de pares. Mas a segunda, que estreou este ano e leva a história adiante a partir do final do romance feminista de Margaret Atwood, vem tendo uma recepção mais fria.

Lisa Miller, do The Cut, comparou os primeiros episódios da segunda temporada a "torture porn" (um gênero de cinema que visa dar prazer ao espectador com violência sádica), questionando se "é feminista ficar vendo mulheres sendo escravizadas, degradadas, espancadas, amputadas e estupradas?" (ela concluiu que não é e anunciou que não vai mais assistir à série). Sophie Gilbert, da The Atlantic, perguntou se todo o sofrimento mostrado na série é realmente necessário para deixar óbvios os paralelos entre O Conto da Aia e nosso próprio mundo privado de direitos (ela ainda está em cima do muro). Arielle Bernstein, do The Guardian, escreveu que se entristece com o fato de "'O Conto da Aia' ter se tornado o texto feminista fundamental de 2018, quando uma parte tão grande de seu ethos consiste em faer as mulheres ficarem furiosas, tristas e se sentirem culpadas pelo estado do mundo em que vivemos". Natalie Zutter, da Tor, se perguntou quantas vezes vai conseguir "assistir à esperança ser extinta" antes de decidir que não aguenta mais.

Apesar dessas críticas válidas e de declarações muito públicas de que algumas mulheres estão decepcionadas com a série ou desistirem de assistir a ela, as pessoas ainda estão assistindo – tantas que um representante da Hulu me disse que "na primeira semana a audiência de 'The Handmaid's Tale', segunda temporada, mais que dobrou em relação à primeira temporada". Bastou isso para, uma semana depois de iniciada a segunda temporada, ser tomada a decisão de que haverá uma terceira.

Assim, no caso de todas nós que continuamos fascinadas com uma série reconhecidamente cheia de sofrimento humano, especificamente sofrimento de mulheres, por que ainda estamos acompanhando O Conto da Aia?

Será que sentimos algum tipo de obrigação feminista de acompanhar a jornada de June até o final? Será que é catártico encarar alguns dos piores frutos potenciais de nossa realidade atual, enquanto estamos sentadas em segurança no sofá de casa? Isso chega a ser motivante? Ou simplesmente curtimos o visual deslumbrante e as atuações igualmente deslumbrantes da série? Será que gostamos de assinalar que somos descoladas, usando o jargão de uma série de TV promovida especificamente para atrair mulheres progressistas da geração do milênio? O que, exatamente, nos está sendo proporcionado por uma série que a cada momento parece nos castigar?

Telefonei a Jennifer Wagner-Lawlor, professora de inglês e estudos de mulheres que escreveu extensamente sobre Margaret Atwood, para tentar obter respostas, mas ela pareceu estar tão confusa quanto eu. Ela ainda está assistindo a O Conto da Aia, apesar de fazer eco às críticas recentes à segunda temporada. Ela não chega a descrever a série como "torture porn" ("apenas tortura"), mas acha a violência um tanto gratuita e rejeita especialmente a decisão dos roteiristas de derrotar a resistência moral de June (Elisabeth Moss) no episódio 4.

De fato, depois de quase uma temporada e meia assistindo à voz interior de June resistindo à separação dela de seu marido e sua filha, a estupro ritualizado, tortura psicológica às mãos de Tia Lydia e Serena Joy, mais a derrota de suas esperanças de fuga, no quarto episódio os responsáveis pelos tormentos de June finalmente a convencem de que aquilo que lhe aconteceu foi culpa dela. Com isso, a voz externa de June fica parecendo a de um robô e sua voz interna quase desaparece. "Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa", ela repete.

Wagner-Lawlor achou isso "chocante". "Me pareceu que tinha vindo de lugar nenhum", ela falou. "Até aquele momento, eu não tinha visto nenhum sinal de que June fosse se deixar dominar." Ela se perguntou se O Conto da Aia "não extrapolou um pouco nesta temporada."

Ao término de nosso papo de 40 minutos, Wagner-Lawlor estava ainda mais dividida. "Vou continuar assistindo", ela disse, "mas não sinto mais aquela ansiedade de ver a série, como antes."

Em 1970 o especialista japonês em robótica Masahiro Mori cunhou o termo "vale estranho" para descrever a repulsa que os humanos sentimos quando nos deparamos com um robô que possui várias qualidades semelhantes às humanas, mas, mesmo assim, é evidentemente não humano. A partir do momento em que algo se torna parecido demais conosco, sem ser o que somos, essa coisa se torna profundamente incômoda, até repulsiva.

A segunda temporada de O Conto da Aia é essencialmente o vale estranho dos EUA em 2018. A primeira temporada da série incluiu uma cena em que várias aias enfileiradas são colocadas na forca, ao som de "This Woman's Work", de Kate Bush. Semanas antes disso, a The Atlantic contratou (e depois demitiu) o articulista conservador Kevin Williamson, que havia sugerido anteriormente que mulheres que fazem abortos deveriam ser enforcadas. O segundo episódio trouxe um flashback em que agente da ICE (Agência de Imigração e Alfândegas dos EUA) invadem aeroportos, prendendo indivíduos cujos documentos são considerados não válidos. Entre as pessoas detida está Emily (Alexis Bledel), que é cruelmente separada de sua mulher e filha. Este mês, na vida real, foi noticiado que centenas de crianças imigrantes foram separadas de seus pais na fronteira dos EUA. A sociedade de Gilead não é a nossa, mas, mesmo assim, algumas partes da série remetem assustadoramente à nossa realidade.

Para mulheres de determinada idade e orientação política, é fácil até demais identificar paralelos entre O Conto da Aia e a realidade. Como observou o Saturday Night Live, "O Conto da Aia é basicamente nosso Sex and the City".

Assim como Sex and the City funcionou como pedra de toque cultural para as mulheres no início dos anos 2000 que ansiavam por encontrar sentido na condição de solteiras de 30 e tantos anos, O Conto da Aia cumpre a função de tópico de discussão apto para mulheres em 2018 que procuram fazer sentido da política em Washington e além dela, por mais que isso possa ser perturbador.

Minha colega Claire Fallon argumentou que outra série, a brilhante sitcom "The Good Place", da NBC, nos fornece os memes com os quais podemos explicar nossa realidade atual, resumindo o desespero absoluto sentido por muitos da esquerda com uma frase curtinha: "Este é um mau lugar!". "A frase é ao mesmo tempo comicamente leve e comicamente extrema", escreveu Fallon. "Estamos literalmente no inferno, mas vamos dizer isso com um sorriso." O Conto da Aia faz algo semelhante, mas, em vez de memes espertos que nos permitem falar sorrindo de nosso inferno coletivo, a série nos oferece uma linguagem simples para apontar para o inferno que pode estar assomando no futuro não muito distante – e nos revoltarmos com isso desde já.

Quando uma colunista escreveu sobre a potencial "redistribuição de sexo" como se homens que se sentem no direito de gozar do afeto físico de mulheres tivessem um argumento válido, mulheres no Twitter perguntaram se não nos encontramos já em "uma espécie" de Gilead. Quando uma professora no Texas foi impedida de entrar em sua sala de aula depois de mostrar fotos de sua esposa aos alunos, minha colega de apartamento descreveu o fato como "alguma merda do tipo que acontece em O Conto da Aia. "Sob os olhos dele", "louvado seja" "que o Senhor abra" já viraram frases irônicas para indicar entendimento mútuo e medo. Sarah Huckabee Sanders e o resto das mulheres que implementam os decretos do presidente Trump são Tias Lídias. As 52% das "senhoras brancas do bem" que votaram em Trump em primeiro lugar são Serenas Joys.

E as mulheres que estão resistindo ao status quo de opressão? Elas são aias, é claro.

O que faz de O Conto da Aia um símbolo tão poderoso de nosso potencial futuro distópico é que ele não apenas nos dá uma linguagem na qual discutir esse futuro, mas também uma estética para representá-lo. Quando mulheres compareceram ao Senado do Texas em março de 2017 trajando vestes vermelhas-sangue e chapéus brancos para protestar contra medidas antiaborto, praticamente não precisaram falar. Qualquer pessoa que tivesse lido o livro de Atwood ou mesmo apenas visto um cartaz da série já sabia o argumento que elas queriam apresentar. Desde então já surgiram aias em todo o país: na Califórnia, Alabama, Ohio, Washington, Flórida, New Hampshire, Nova York e Missouri. A mensagem geral é inequívoca: não vamos caminhar em silêncio para um futuro no qual as mulheres não tenhamos autonomia sobre nosso corpo e nossa vida. Não vamos ajudar a criar Gilead através do silêncio e da cumplicidade.

Parte da reação contra a segunda temporada talvez seja sintoma do esquema preciso de marketing e promoção da série. O entusiasmo das fãs em torno da primeira temporada foi movido originalmente pela admiração que sentiam pelo romance, mas uma onda secundária de entusiasmo se deveu ao caráter pontual não intencional da adaptação para a TV – afinal, a Hulu comprou os direitos de criar a série antes de Trump ser eleito e seu governo começar a instituir medidas que remetem estranhamente a Gilead.

"Nada mudou em relação à série, mas o contexto mudou", disse Margaret Atwood num Times Talk recente, aludindo à influência de Trump sobre a série à medida que ela evoluiu.

O marketing de O Conto da Aia refletiu essa evolução. Para promover a primeira temporada, a Hulu contratou mulheres vestidas de aias para andar por Austin durante o festival SXSW em 2017, mas o elenco e o criador da série ainda relutavam em qualificar O Conto da Aia como sendo explicitamente feminista. A segunda temporada está evidente e diretamente inserida na era de Trump. A série não é mais relevante por acaso, mas intencionalmente. No festival SXSW deste ano, a Hulu distribuiu jaquetas jeans cobertas com patches de resistência. Os materiais promocionais que recebi antes da estreia estavam estampados com #ResistSister. A própria Margaret Atwood já indicou que vê a segunda temporada como um chamado à ação, e Elisabeth Moss reagiu a quem evita a série por achá-la "assustadora demais". "Verdade? Você não tem coragem de ver um seriado de TV?" ela disse ao Guardian em entrevista em 5 de maio. "Isso está acontecendo na sua vida real."

O Conto da Aia é tão claramente direcionado a um certo grupo de mulheres que eu entendo que as pessoas se irritem com a mensagem implícita de que precisamos assistir para validade nossas credenciais de #resistência #feminista. "Vocês pensam que a gente não sabe que o mundo é apavorante, que o Iowa acaba de aprovar a proibição mais rígida do aborto em todo o país e que os nazistas estão se sentindo encorajados?", protestamos diante da televisão, enquanto algumas de nós acabamos decidindo que nossa energia emocional poderia ser mais bem gasta em outro lugar. Eu (compreensivelmente) posso achar exaustivo demais acompanhar as notícias, fazer telefonemas ao Congresso, doar para todas as causas que precisam de nossas contribuições, erguer a voz em nome das comunidades das quais fazemos parte e das que não – e também assistir a uma série de TV que nos lembra constantemente que nosso país virou um lugar muito sombrio, mas ainda pode ficar muito pior.

Mesmo assim, eu assisto.

"Há esse fio constante de esperança que as coisas mudem", disse minha amiga Maya quando indaguei por que ela ainda assiste à série. "Preciso saber o que vai acontecer."

No final do quinto episódio, que foi ao ar no dia 16 de maio, June recupera a voz depois de ter passado um tempo psicologicamente silenciada. Justamente quando poderíamos supor que ela tivesse desaparecido de vez, nos momentos finais do episódio, após uma tentativa de suicídio e um risco de aborto espontâneo, ela volta à tona.

"Eles não são seus donos", ela sussura entre dentes, com uma lágrima escorrendo no rosto, para o bebê que está crescendo em seu ventre. "E não são donos de quem você vai se tornar. Você está me ouvindo? Vou tirar você daqui. Vou nos tirar daqui. Prometo a você. Prometo."

Mesmo nas circunstâncias mais tenebrosas, June encontra meios de acender seu próprio fogo. De uma maneira perversa, assistir a O Conto da Aia me ajuda a acreditar que podemos fazer o mesmo. Por isso, continuo a assistir, semana após semana, um episódio torturante depois de outro, procurando aquela garantia, procurando respostas.

O que fica na minha cabeça depois de assistir a O Conto da Aia é, em última análise, não os momentos de tortura mais brutais – os corpos enforcados, os braços queimados, as cliterectomias. O que permanece de verdade é o simbolismo, a linguagem que nos permite chegar ao âmago do terror que estamos sentindo. Há uma satisfação inerente em se usar a ficção para processar a realidade. Como Gilead, a América é um lugar repulsivo que é tornado palatável graças a discursos grandiosos e visuais bonitos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.