24/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 24/05/2018 17:03 -03

A cineasta que bate de frente com o apagamento da memória do povo negro

Safira Moreira já tem um longa engatilhado, assim como a produção de um programa de culinária protagonizado apenas por cozinheiras negras.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Safira Moreira é a 78ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver. Forte eu sou, mas não tem jeito. Hoje eu tenho que chorar. Minha casa não é minha e nem é meu este lugar. Estou só e não resisto. Muito tenho pra falar.

Esses são os primeiros versos, da canção Travessia, de Milton Nascimento. Não coincidência, a canção dá nome ao primeiro curta da cineasta baiana Safira Moreira. O documentário em questão começa com uma fotografia em preto e branco, na qual uma mulher de pele negra segura uma criança branca em seus braços. No verso da imagem, está escrito "Tarcisinho e sua babá".

A foto, de uma família de Dias D'Ávila, na Região Metropolitana de Salvador, foi comprada por ela em um "shopping chão" da Glória, no Rio de Janeiro. Como foi parar lá, é mistério. Tampouco se sabe quem é a moça da imagem, de onde ela veio, ou mesmo seu nome. É esse apagamento da memória do povo preto que dá o tom à voz da realizadora que, tem sim, muito para contar.

A história do feminismo negro é muito pautada no 'corre'. Conceição Evaristo fala que a gente nunca precisou ir para as ruas, queimar sutiã, porque a gente sempre esteve lá.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A foto acima não é a que inspirou o curta, mas é da família de Safira. Um lembrete da importância da memória.

Ela nasceu em 3 de outubro de 1991. Exatamente um ano, um mês e um dia depois da irmã Inaê. É do signo de libra, ressalta – "pessoal conquistador e talentoso". Caçula de quatro irmãos, é a única que recebeu do pai, um ourives de mão cheia, o nome de pedra preciosa.

Piauiense, mas criado em Minas Gerais, seu Chico da Prata conheceu o ofício de ourives com uma namorada que encontrou durante uma "fase hippie da vida", quando fez dreadlocks nos cabelos e se refugiou em Arembepe, no sul da Bahia. Com o fim do relacionamento, voltou à sua cidade natal e mergulhou de vez na arte de fazer jóias a partir de metais preciosos.

Hoje quem vê o seu trabalho na marca "Jóias dos Orixás" não imagina que a ligação com os deuses das religiões de matriz africana só veio um tempo depois. Voltou para Bahia, desta vez para Salvador, e conheceu, no bairro Dois de Julho, Angélica. Ela, apesar de não pertencer a nenhuma casa de santo à época, já carregava uma relação forte com o Candomblé. Nascida em uma cidadezinha do interior baiano a moça trabalhou a vida toda em galerias de arte - uma delas, inclusive, do artista Carybé.

A gente tem um público muito negro. Elas têm que ter, a jóia escolhe a pessoa.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A equação de uma mulher negra com uma câmera na mão, aliada ao pensamento crítico, é igual ao resgate da memória.

Juntaram as trouxas e foram morar juntos no populoso bairro do Engenho Velho da Federação, que abriga seis terreiros em seu território. Não demorou para que o clima influenciasse a arte de Chico. "Acho que a primeira ferramenta que meu pai fez, dos orixás, foi uma encomenda de Tatau, do Araketu. Ele pediu um Ofá de Oxóssi, que é o símbolo da banda. Depois ele não parou mais", conta. Angélica começou a vender as jóias para as mulheres de axé do bairro e a coisa cresceu. "A gente tem um público muito negro. Para mim é muito louco, a jóia escolhe a pessoa. Elas têm que ter", diz.

Quando o bairro ficou violento demais, a família decidiu se mudar de um dia para o outro para o bairro do Tororó, onde vive até hoje. Mesmo com a troca de endereço, a atmosfera na qual foi criada era a mesma: ligada às artes e a militância. Entre as mulheres negras que frequentavam a casa dos Moreira, estavam as acadêmicas e ativistas feministas Vilma Reis e Valdeci Nascimento. E Safira garante que estava sempre atenta, "absorvendo tudo": "A história do feminismo das mulheres negras é muito pautada no 'corre'. Conceição Evaristo fala que a gente nunca precisou ir para as ruas, queimar sutiã, porque a gente sempre esteve lá".

Na adolescência, como o dinheiro era curto, nada de presentão por terem passado no vestibular. A irmã mais velha pediu de presente um abadá de um bloco, e Safira escolheu uma câmera digital portátil. Ganhou, e o objeto se tornou sua mais estimada companhia durante o ano que passou cursando Biologia na Uneb (Universidade Estadual da Bahia), em Alagoinhas, no nordeste baiano. Quem conhece sabe: a cidade é quente, pacata e bucólica. Nada parecido com o que estava acostumada, tampouco com o que sonhava em viver.

Eu demorei a entender e aceitar que era a Fotografia o que eu queria, porque eu não sabia se era possível, na minha realidade, querer viver de arte.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Safira usa as joias feitas por seu pai: "A jóia escolhe a pessoa."

Ao lado da câmera, durante uma greve histórica da Uneb - que ficou mais de dez meses parada -, tomou coragem de anunciar em casa: "vou largar tudo porque quero mesmo estudar fotografia". "Eu demorei a entender e aceitar que era isso o que eu queria, porque eu não sabia se era possível, na minha realidade, querer viver de arte", lembra.

Mas ainda faltava uma câmera de verdade, a pocket não dava mais conta do recado. Começou a trabalhar em lojas de shoppings: primeiro, no Shopping Barra, na área nobre de Salvador, onde as vendedoras negras eram coisa rara - e ficava exclusivamente com o trabalho de repor e conferir o estoque da loja. Em seguida, sem nunca ter frequentado academia, se tornou vendedora de uma loja de artigos fitness. Assim que conseguiu o suficiente para garantir uma câmera de qualidade, pediu as contas e se mandou.

Ok, câmera na mão, uma ideia na cabeça, mas havia um detalhe importante. Ela só sabia fotografar por instinto, a técnica ainda lhe era desconhecida. Pediu ajuda para o fotógrafo José Mamede, amigo da família, que lhe conseguisse uma bolsa no Curso Livre de Fotografia. Sob a tutela de Paulo Munhoz, aprendeu a operar as mais diversas funções da câmera, fez saídas e mais saídas fotográficos, e decidiu prestar vestibular de novo, desta vez para Bacharelado Interdisciplinar com foco em cinema.

Eu fui entendendo que eu queria propor coisas, construir com quem eu estivesse fotografando. Eu não tenho necessidade de congelar o momento, eu queria propor. Aí que surgiu o cinema na minha vida.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Talvez dessa falta tenha surgido um hábito: garimpar fotos de mulheres negras em feiras de antiguidade.

Houve, no entanto, um Parque Lage no meio do caminho. Já matriculada no novo curso, foi visitar o namorado que estava morando no Rio de Janeiro e se apaixonou completamente pelo lugar em uma visita à região do Jardim Botânico. Quando descobriu que o local abrigava uma Escola de Artes Visuais, decidiu que voltar para Salvador não era uma opção. "Quando eu vi aquele prédio, a paisagem, o verde, a mata, eu falei: preciso estudar aqui, como assim isso é uma escola e ainda por cima tem bolsa? Eu fiquei encantada, não conseguia parar de ir naquele lugar com 500 mil possibilidades e professores incríveis".

Trancou a faculdade, e por lá ficou. Terminou o primeiro curso, e com todo o aprendizado que absorveu, percebeu que a fotografia estática não mais lhe bastava: "eu fui entendendo que eu queria propor coisas, construir com quem eu estivesse fotografando. Eu não tenho necessidade de congelar o momento, eu queria propor. Aí que surgiu o cinema na minha vida". Ganhou bolsa e cursou a Escola de Cinema Zózimo Bulbul e a Darcy Ribeiro. Nessa última, barbarizou. Quando viu que não havia nenhum docente negro, solicitou a demanda pessoalmente à coordenação da instituição. Após a queixa, a cineasta Carmen Luz foi contratada para ensinar na Escola.

E foi a partir daí que tudo pareceu se encaixar. A nova professora, documentarista, sugeriu que a classe aproveitasse a eleição de Marcelo Crivella para fazer um documentário sobre. "Só que com tanta coisa para falar, eu ia falar disso? Pensei em fazer um documentário sobre mulheres negras na política, só que não tinha dinheiro e a agenda das mulheres que eu entrei em contato era super atribulada".

Veio o estalo: mesmo tendo sido criada numa casa com pensamento crítico e militante, Safira não tinha fotos da família. Talvez dessa falta, tenha surgido um hábito que ela já cultivava há algum tempo, de garimpar fotos de mulheres negras em feiras de antiguidade. "Eu fiquei me questionando que, enquanto mulher negra, que pude ter uma câmera, me foi dada essa possibilidade de construir essa memória apagada. Eu entendi que podia apontar a câmara para isso e recriar essa história".

A violência precisa ser retratada, mas não só por um viés branco. Temos que mostrar que a gente não é só isso. Por isso o afeto é uma arma tão forte revolução.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A cineasta sempre viveu rodeada de mulheres militantes, como sua mãe Angélica, Vilma Reis e Valdeci Nascimento.

O trabalho, elogiadíssimo em sala de aula, ganhou prêmios e o mundo, tendo sido exibido até fora do País. Entre outras coisas - sem dar spoiler, porque ele ainda roda pelos festivais Brasil afora - a partir das fotografias encontradas perdidas por aí, e de relatos de famílias negras contemporâneas, Travessia sugere que conhecer os antepassados, seu lugar de luta e resistência, é também compreender o que mudou, o que continua estático e quais as perspectivas para um futuro menos desigual.

Todo esse viés, no entanto, rompe com a aura melancólica que cerca as narrativas que possuem essa temática, e aposta no afeto com peça chave para uma nova era. "Eu queria denunciar esse apagamento da história, da memória. Mas ao mesmo tempo eu tenho uma criação que é muito a partir da poesia, do afeto. E a gente precisa, porque nosso corpo é todo tempo atrelado à violência. A violência precisa ser retratada, mas não só por um viés branco. Temos que mostrar que a gente não é só isso. Por isso o afeto é uma arma tão forte de revolução".

Ainda colhendo os louros do primeiro projeto, Safira já planeja um longa derivado - chamado Cais, também inspirado em uma canção do Bituca -, fez direção de fotografia, tem outro trabalho com a mesma função engatilhado e dirigirá, ano que vem, a série de culinária Iyas Idanas: Mulheres da cozinha, protagonizada apenas por mulheres negras.

"Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver. Vou querer amar de novo e, se não der, não vou sofrer. Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver". É assim que acaba a música citada no início do texto. Não que outras explicações sejam necessárias, mas para que dúvidas não sejam levantadas, segue a aspa da própria Safira: "agora tem uma mulher negra com uma câmera na mão e com um pensamento crítico na cabeça". É ela. E se uma sobe, puxa a outra.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.comcom assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC

*Este texto foi alterado às 16:46 desta quinta-feira (24). Os pais de Safira Moreira se conheceram na festa dois de julho e não no "bairro dois de julho", o pai da entrevistada viveu em Arembepe e não em Itacaré, e o nome de sua irmã é Inaê e não Anaê como informado anteriormente.