23/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 23/05/2018 09:16 -03

Gabriella Vinhas: O reencontro com a vida após uma experiência de quase morte

“Eu era uma pessoa muito imersa nas obrigações que a vida e a maternidade me trouxeram, trabalhava muito, estava cansada e meio perdida. Cheguei a ter uns ataques de pânico".

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Gabriela Vinhas é a 77ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Era manhã do dia 5 de agosto de 2016, ela brincava com a filha de um ano e viu que enquanto a pequena mexia num vazo de plantas e espalhou um pouco de terra pelo chão do apartamento, tirou uma foto e postou no Instagram com a seguinte legenda: "Cinco segundos de distração minha e...". A continuação daqueles três pontos, definitivamente, não era o que Gabriella Vinhas, então com 29 anos, esperava. Em questão de minutos ela começou a sentir uma dor que a derrubou e quando chegou no hospital descobriu que tinha uma gravidez tubária e que precisava de uma cirurgia de emergência. Durante o procedimento um das trompas rompeu e ela perdeu muito sangue. Acordou no dia seguinte entubada e amarrada. E, com a certeza, de que não era mais a mesma. A experiência de quase morte transformou a fonoaudióloga e a mãe de dois de uma forma inimaginável. Foi justamente quase perder a vida que a fez encontrá-la, de fato.

"Eu era uma pessoa muito imersa nas obrigações que a vida e a maternidade me trouxeram, trabalhava muito, estava cansada e meio perdida. Cheguei a ter uns ataques de pânico e comecei a fazer um curso de formação em yoga, que acabou me ajudando. Mas eu tinha muito medo de romper com o que eu já conhecia, com o que eu supostamente deveria fazer. O inconsciente vinha me engolindo", conta.

Lembro de ir pra um lugar com pessoas familiares, senti uma paz incrível, mas que de alguma forma eu sabia que precisava voltar.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Ela acabou se encontrando de novo como terapeuta integrativa, professora de yoga e doula.

Quando sentiu uma dor imensa e desmaiou, enquanto estava com a filha, não sabia que estava grávida de seis semanas. Por sorte, neste dia ela tinha uma faxineira em casa que a socorreu e chamou a mãe, que a levou às pressas para o hospital, o diagnóstico foi feito rapidamente e em pouco tempo ela estava na cirurgia. "Enquanto os médicos estavam esperando a anestesia fazer efeito, a trompa rompeu. Perdi muito sangue e me contaram depois que tinha até gente depois a postos com um desfibrilador. Eu lembro de ter visto meu corpo de cima, lembro de ir pra um lugar com pessoas familiares, senti uma paz incrível, mas que de alguma forma eu sabia que precisava voltar", relembra Gabriella.

Depois da cirurgia, ela teve que ficar entubada na UTI e a perda do sangue causou uma anemia severa. Mas para ela, a sensação era outra. "Quando eu acordei, eu me sentia diferente, mais leve, a sensação era de que tinha me livrado de umas cascas grossas, de um peso, foi impressionante". Foi um pouco mais de uma semana internada, e quando ela voltou pra casa precisava lidar com suas limitações, não tinha forças, estava fraca e precisou parar de amamentar a filha.

E entendi que era mais simples do que eu imaginava. Era agradecer, estar presente e entender o que meu coração sentia.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
A pergunta que ela carrega depois da grande transformação também é: como encontrar plenitude no dia a dia?

O próximo desafio para Gabriella foi tentar entender como aquela mudança, que sentia tão profundamente, ia conviver com a sua vida cotidiana. Para ela, não tinha como voltar a ser como era antes. "Comecei a mudar a relação com as minhas emoções e o meu corpo, comecei a enxergá-lo como um templo a ser cuidado, voltei pro yoga e a dançar. Foi um processo profundo de autonutrição e de entender onde eu usava essa fonte de amor que eu estava sentindo e isso foi se perdendo também à medida que eu voltava pra vida prática. E eu não queria esquecer, eu fiquei muito apegada a sensação de quase morrer, de estar, de plenitude. E entendi que era mais simples do que eu imaginava. Era agradecer, estar presente e entender o que meu coração sentia", conta.

Durante o processo, ela resolveu se entregar ao que gostava de fazer, se separou por um tempo e começou a escrever textos sobre aquela mudança e a postar nas redes sociais. "Escrever foi a minha forma de dar sentindo ao que eu estava vivendo e compartilhar foi uma das melhores coisas que eu já fiz, não importa o que eu ia dizer, eu só precisava falar", reflete. O conteúdo tomou forma, ganhou leitores e acabou se transformando no livro Não é preciso (quase) morrer para renascer, com os 33 textos que ela publicou na época, e que agora está disponível em formato de e-book.

Escrever foi a minha forma de dar sentindo ao que eu estava vivendo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Estar presente é o exercício diário de Gabriela.

Ela acabou se encontrando de novo como terapeuta integrativa, professora de yoga e doula, e hoje ajuda outras mulheres no processo de transformação e auto-conhecimento, que segundo Gabriella, está no simples fato de olhar pra dentro de si. "Precisamos tomar consciência de como nos sentimos e do que nos faz bem, estar presente. É muito fácil a gente se colocar na condição de vítima do que de um ser atuante que está experimentando aquilo, porque as coisas vão acontecer e você pode observar como se sente e ser verdadeiro como você mesmo".

A gente se distrai muito facilmente, de fato, e pode-se morrer a qualquer momento mesmo, mas tá tudo bem, enquanto não se morre, vive-se.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil

A pergunta que ela carrega depois desta grande transformação é como encontrar plenitude quando se tem correrias e estresses no dia a dia. "Seu problema é pequeno demais para a imensidão do universo e tudo bem. Eu escolhi seguir com a fluidez e sair da ansiedade de querer viver tudo. É um processo muito menos mental, é mais com seu corpo e sua essência. A gente se distrai muito facilmente, de fato, e pode-se morrer a qualquer momento mesmo, mas tá tudo bem, enquanto não se morre, vive-se".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC