OPINIÃO
22/05/2018 11:40 -03 | Atualizado 23/05/2018 15:15 -03

Donald Glover e o diagnóstico da sociedade americana em 'This is America'

Seria ingenuidade crer que as cenas explícitas de violência constituem o principal atrativo do clipe de 'This is America'.

Cena do videoclipe de 'This is America', dirigido por Hiro Murai.
Reprodução/YouTube
Cena do videoclipe de 'This is America', dirigido por Hiro Murai.

Quem gosta de charadas históricas são os colecionadores de souvenirs, os decoradores de manuais e os frequentadores de antiquários. Caberia perguntar, entre as muitas referências históricas contidas no vídeo de This is America, último hit de Donald Glover – e em meio à euforia em torno dessas referências – onde está o presente?

De cara, seria ingenuidade crer que as cenas explícitas de violência constituem o principal atrativo, visto que estas repisam a nossa já saturada cultura de degolações e flagelos ao vivo. This is America nos marca pela impressão de que nada, a começar pelo corpo de Glover, funciona "normalmente‟. Nada exceto o caos. A despeito do caráter específico que sustentem, o impacto dos movimentos de Glover provém da estranheza que causam, uma performance "antinatural" que não prescinde de sentido estético. Logo no início, o mover-se "difícil" do artista retira-o do caos fluido e indefinido, tanto mais invisível quanto mais idêntico ao caos reproduzido twenty four-seven pela televisão do mundo real.

Nossa proximidade com a forma do caos e a falta de intimidade com a performance corporal é a primeira impressão marcante, reforçada nos minutos seguintes. Aliada a esse corpo "esdrúxulo", está a constatação perturbadora do semblante intermitentemente sinistro e risonho, em que não se conforma estado de espírito algum. Torna-se impossível dizer se a personagem de Glover tem qualquer relação com as ações que protagoniza ou com as cenas horripilantes que se desenrolam ao redor. Em outras palavras, seu aspecto de corpo estranho somado à indefinição psicológica retiram de nós a primeira ideia confortadora (com que a narrativa de "seriados" nos abastece): a de que ao meio externo corresponde um indivíduo pleno de subjetividade, reflexivo, humanizado.

À ideia de que se trata de um autômato soma-se, contudo, a noção contrastante de ser demoníaco, cuja aparição Deus ex machina – através de uma porta na parede, antes da execução do coro gospel – também explicaria sua indiferença ante os escombros humanos que se avolumam. Essa cena, convém reparar, é um dos dois únicos cortes no plano sequência sobre o qual está construído o vídeo, o que fundamenta outra cisão de maior envergadura: aquela entre a forma (contínua) e o conteúdo (descontínuo) do videoclipe. Este, em suma, o primeiro round.

Por sua vez, o galpão como alegoria do mundo ecoa algo do expediente teatral já incorporado em filmes como Dogville (2003), de Lars von Trier. O ultrarrealismo brutal no nível da ação se tensiona com a artificialidade patente do cenário, deixando escapar a sugestão silenciosa de que estamos todos "jogando um jogo a sério". Neste palco-mundo, as catástrofes de nossa experiência social possuiriam um lado de exterioridade de onde seria possível observar a "artificialidade‟ – porque construção histórica, e não determinação "natural" – do abismo. Esse é só um lado da moeda. Pois se a catástrofe social foi "artificialmente" construída, resta a constatação de que o sofrimento, dela resultante, é por sua vez verdadeiro e implacável. Desnecessário mencionar que a sugestão de exterioridade e, portanto, de distanciamento quanto a esse sofrimento se torna ainda mais dolorosa à medida que percebemos que quem observa desde "fora" somos nós mesmos, identificados como espectadores e vítimas da barbárie.

Eis aí outra cisão que o vídeo de Glover-Murai explora, e pela qual nos vemos involuntariamente comprometidos: seríamos capazes de assistir à nossa própria desumanização tal qual assistimos agora ao entretenimento que This is America propõe. Ancorado em convulsões, o vídeo acerta a veia de nossa passividade. O distanciamento só é rompido ao final, quando o último plano sequência – um close in no rosto de Glover – nos conduz pela primeira vez a um envolvimento emocional: o desafio de compartilhar intersubjetivamente o desespero do homem negro, aí submerso na história americana de opressão e resistência.

A crueza das cenas em que Glover atira à queima-roupa também chama a atenção, menos pelo que têm de específico (supostamente: o assassinato do adolescente negro Trayvon Martin, em 2012, pelo vigia comunitário George Zimmerman; o massacre da igreja de Charlottesville, em 2017, por um supremacista branco) do que pelo que têm de inespecífico: a reiteração de traumas em sequência. Nesse sentido, repare-se que, após as duas cenas de execução, a primeira personagem (o homem do violão) reaparece no mesmo lugar, ainda com a cabeça coberta, como aguardando por nova/velha violência. Outra vez, o realismo brutal contrasta com a artificialidade de seu encadeamento, trazendo conclusões inquietantes.

Teríamos realmente visto aquelas execuções ou, sob o peso da barbárie diária (amplificada pelo mass media), teríamos confundido com outro morticínio, no fundo tão parecido e trágico como aquele? E, se estamos confusos quanto a isso, não estaríamos confusos também quanto a quem matou quem e às razões envolvidas? Este o momento de "duplo gume", protesto contra o genocídio da população negra americana e contra a banalização da violência em si. Ademais, a repetição das cenas de execução comporta ideia de ciclo que, no contraponto da memória coletiva (ancorada na perda e no luto), reabre sem cessar a ferida que cicatrizava. Pari passu, a música repete clichês da sociedade americana – centrada em parties, money, guns – que o verso seguinte vem desmontar, em diálogo desconjuntado:

You just a big dawg, yeah (1)
I kenneled him in the backyard (2)
No probably ain't life to a dog (2)

Para bom entendedor, o diálogo é apanágio da própria America, dividida tanto em ódios raciais quanto em partes que desconversam, não alcançam superação, num sinal de esquizofrenia social ascendente. This is America sintetiza mais um transtorno do que um retrato coerente, delimitando o país embargado em seus canais de comunicação: ruptura interna que as últimas eleições tornaram evidente e exacerbaram. Embalada ainda na auto-imagem de nação fundada sobre a middle class – hoje enormemente precarizada –, parte da sociedade americana assistiu perplexa, em 2016, à ascensão de Donald Trump, tido como representante do que haveria de mais retrógrado após o algo "esclarecido" governo Obama.

Aos que o elegeram, contudo, sua candidatura, sendo problemática, prometia saída aos impasses econômicos reais a que essa middle class chegara e que a administração anterior não conseguira sanar. Assim, a maior parte dos eleitores (entre os quais não se encontra boa parcela da população negra) elegeu o programa de Trump, mesmo que a escolha significasse o restabelecimento de forças ultraconservadores que o candidato, talvez à revelia, representava.

This is America configura, portanto, para além de referências pontuais à história, um diagnóstico da atual inorganicidade da sociedade americana, cujos sonhos de integração da década de 1960 agora fazem água. Um ponto de vista poderoso, que aponta à especificidade da condição negra e à universalidade da situação nacional. Ou, antes, conforma uma perspectiva justamente universal porque negra, talvez na mesma medida em que Machado de Assis pôde ver, melhor que outros, as fissuras profundas que cortavam o Brasil oitocentista. Coisas que só à (boa) arte costuma ocorrer.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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