22/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 22/05/2018 14:45 -03

Erica Telles: Quando andar de bicicleta pela cidade se transforma em um ato político

Nos coletivos 'Meninas ao Vento', 'Mobicidade' e 'Bicicletada Massa Crítica', ela faz do pedalar o seu combustível: "A bicicleta te dá a oportunidade de ser uma pessoa equiparável, te dá dignidade."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Erica Telles é a 76ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Depois que os pré-socráticos começaram a divagar sobre os porquês disso e daquilo, a questão do movimento virou pauta nas mais diversas rodinhas das acrópoles. Desde o sentido mais literal da coisa, como a variação espacial de um objeto em relação a um referencial adotado, até as questões mais abstratas, como a mudança de realidades.

Seja como deslocamento no espaço ou alteração de uma natureza, nos termos de Aristóteles, lá em 300 e poucos anos a.C, o movimento era a passagem de uma potência para o ato. A publicitária e produtora cultural Erica Telles levou a ideia ao pé da letra e, hoje em dia, 2018 d.C, ressignifica, nestes termos, o aparentemente despretensioso hábito de andar de bicicleta. Para que toda essa viagem tenha alguma lógica, é preciso voltar 30 anos no tempo.

Quando eu era pequena e fazia qualquer coisa de errado, minha mãe me proibia de andar de bicicleta. Ela sabia que isso era o que iria me deixar mais chateada. Eu ficava louca, neurótica.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Foi na prática que Telles descobriu que a bike é muito mais do que um mero meio de locomoção.

Quando era pequena, Telles via Salvador do alto do banco de sua bicicleta. A paixão era tão intensa que, quando fazia qualquer malcriação, já era certo o castigo aplicado pela mãe: nada de ficar para cima e para baixo em cima da magrela. "Ela sabia que isso era o que me deixaria mais chateada. Eu ficava louca, neurótica", conta.

Ela chegou até a treinar bicicross, mas o esporte perdeu uma possível atleta de alto nível para a adolescência. Não havia, à época, segundo ela, espaço para a bike em meio às tantas elucubrações decorrentes da idade.

Só voltou a subir em duas rodas no auge dos 20 e poucos, quando já estava formada em publicidade e teve de se mudar para o Rio de Janeiro – e pudera, a cidade estimula que seus habitantes utilizem este meio de transporte 'alternativo' para tudo, mesmo que o trânsito seja uma loucura.

Comecei a andar no 'Meninas ao Vento', um grupo de pedal focado nas mulheres ciclistas. E isso fez com que eu me reaproximasse da bicicleta e descobrisse sobre toda a questão política envolvida na coisa.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela é a equação é muito simples: a partir de seu corpo e de uma bicicleta.

A atividade tinha tudo para ficar somente em solo fluminense. De volta à capital baiana, no início dos anos 2000, começou a observar, na cidade natal, um movimento a favor das bicicletas da janela de casa, no bairro do Rio Vermelho. Mesmo assim, o aceno era tímido e parecia não ser suficiente para trazer de volta o encantamento infantil pela coisa.

Num domingo no parque – tropicalismos à parte – veio o empurrão que faltava. Depois de assistir a um dos tradicionais shows de final de semana no Parque da Cidade, de alguém o qual ela não lembra o nome, viu um casal de amigos voltando para casa, cada qual em cima de sua respectiva bicicleta. "Parei para cumprimentá-los e eles me convidaram: 'vamos marcar um dia para você pedalar com a gente? ', eu respondi que não tinha bicicleta, e eles rebateram que não tinha problema, que a gente arranjava".

Foi desse jeitinho que surgiu o primeiro aceno político de Erica à causa: a amiga fazia parte de um coletivo chamado Meninas ao Vento, um grupo que reunia mulheres apaixonadas por pedalar. "Comecei a andar nesse grupo de pedal, focado nas mulheres ciclistas. E isso fez com que eu reaproximasse da bicicleta e descobrisse sobre toda a questão política envolvida na coisa."

Pelo grupo lhe foi doada uma bicicleta "toda armengada", que segurou as pontas até a chegada da Magrelinha, sua companheira atual. "Tinha uma bicicleta dessa minha amiga que eu sempre falava: olha, quando você quiser se desfazer dela, você vai falar é comigo. Dito e certo". Dividiu em duas vezes e arrematou a parceira que lhe acompanha até hoje.

A bicicleta te dá a oportunidade de ser uma pessoa equiparável, te dá dignidade. Nela, é você quem gera a energia, você que é a força motriz. Você consegue chegar aonde quiser.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Erica conta que dividiu em duas vezes e arrematou a "parceira" que lhe acompanha até hoje.

Ao lado da magrela, começou a entender que a bike é muito mais do que um mero meio de locomoção. É, acima de tudo, uma arma contra diversos artifícios de exclusão social e econômica propagados pelas gestões públicas. "Nós somos muito reféns de uma gestão que cerceia o nosso ir e vir. O transporte coletivo, por exemplo, se você tem dinheiro, consegue se locomover; se não, fica preso no mesmo lugar. Nos finais de semana, tiram metade das linhas, de circulação para que aquelas pessoas que não têm condições fiquem alocadas em seu quadradinho".

A equação é muito simples: a partir de seu corpo e de uma bicicleta, "você se torna uma pessoa equiparável". "A bicicleta te dá oportunidade. Nela, é você quem gera a energia, você que é a força motriz. Você consegue chegar aonde quiser". Além da parte militante da prática, Erica ressalta que, de quebra, você ainda tonifica os músculos e melhorar o seu quesito saúde, e deixa de contribuir nos altos índices de monóxido de carbono emitidos pelos veículos movidos a combustíveis.

Para abarcar toda as inquietações acerca do tema, e conseguir levantar a bandeira em hastes mais elevadas, se juntou a edição local do coletivo Bicicletada Massa Crítica, que reunia, em toda sexta-feira do mês, os ciclistas para um passeio conjunto e uma troca de ideia sobre as melhores maneiras de divulgar a bicicleta como um meio de transporte, a criação de condições favoráveis para o uso deste veículo e possíveis maneiras de tornar mais ecológicos e sustentáveis os sistemas de transporte de pessoas nos meios urbanos.

Você tem que se planejar, se organizar e traçar suas rotas, e lidar com as consequência, para que os ciclos se completem: início, meio e fim.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente Erica ocupa a cadeira de Diretora Administrativa da União de Ciclistas do Brasil (UCB).

Fruto dessas experiências foi a criação do coletivo Mobicidade, que procura promover e articular ações para o uso da bicicleta como meio de locomoção urbana assim como a sua integração com os demais modos de transporte na Região Metropolitana. O movimento atuou fortemente na discussão do polêmico Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) - aprovado no ano passado para tapar alguns buracos no quesito urbanismo, desconsiderando questões importantes de mobilidade - e hoje em dia luta contra o projeto retrógrado de implantação de BRT na capital - feito às pressa e sem diálogo com a população local.

Sobre este último tema, em meio ao Maio Amarelo - mês de conscientização sobre a segurança no trânsito -, Erica tem recebido inúmeros convites para palestrar e debater sobre o assunto. "Em Salvador são poucas as pessoas que falam sobre a bicicleta, então isso acaba te personalizando", revela. "A gente tem que trabalhar para dar conta da vida, mas também tem que dar conta desses compromissos que são importantes para sensibilizar a comunidade."

Além da luta local, atualmente, Erica ocupa a cadeira de Diretora Administrativa da União de Ciclistas do Brasil (UCB), uma associação de direito privado sem fins econômicos, que em parceria com organizações locais, realiza atividades sociais promove o uso da bicicleta como meio de transporte, lazer e esporte.

Nós somos muito reféns de uma gestão que cerceia o nosso ir e vir. Sobre o transporte coletivo, por exemplo, se você tem dinheiro, consegue se locomover; se não, fica preso no mesmo lugar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Para Erica, a bicicleta é uma arma contra diversos artifícios de exclusão social e econômica.

Ao filosofar sobre o ato de pedalar, Erica faz uma associação com sua ocupação oficial, como produtora cultural. "80% do evento é a pré-produção, o momento no qual você pensar em tudo que vai acontecer e trata de se precaver - os outros 20% você faz no dia do evento e no pós. Quando eu pedalo é a mesma coisa. Eu faço a rota na minha cabeça, traço as ruas. Você tem que se planejar, se organizar e traçar suas rotas, e lidar com as consequência, para que os ciclos se completem: início, meio e fim".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC