ENTRETENIMENTO
21/05/2018 10:04 -03 | Atualizado 21/05/2018 21:37 -03

'Aggretsuko' é uma série fofa (e furiosa) sobre o ambiente corporativo

Nova animação da Netflix acrescenta trilha sonora de heavy metal às injustiças do dia a dia no trabalho.

Ser uma engrenagem da máquina corporativa é sujeitar-se às pequenas e grandes injustiças em nome da sobrevivência: a política do escritório, a impressora que travou, o colega que rouba seu almoço ou, pior, assédio sexual. Basta olhar para Como Eliminar seu Chefe", Como Enlouquecer seu Chefe, The Office e Corporate, produções da cultura pop que se inspiram no inescapável enfado de quem passa o dia com a cara enfiada em planilhas e dos executivos engravatados que subsistem à base de café velho, esperando o dia em que seus colegas e chefes odiados recebam o troco.

A nova série de animação Aggretsuko, produzida pela Netflix e pela Sanrio, aumenta o volume da frustração até o 11. A série acompanha Retsuko, uma panda vermelha que só quer chegar até o fim do expediente sem maiores problemas. Quando a vida real não faz justiça às suas esperanças, ela se volta à única coisa capaz de aliviar sua alma: death metal.

Netflix/Sanrio
Despite all our rage, we have yet to find a coping mechanism better than Aggretsuko's heavy metal habit.

Retsuko tem razões de sobra para estar furiosa. Ela trabalha com contabilidade em uma entidade corporativa qualquer, uma entre vários lacaios que são obrigados a organizar a mesa do odioso chefe, literalmente um porco chauvinista. Ela vai para o trabalho num trem absolutamente lotado e, quando chega ao escritório, tem de encarar um hipopótamo fofoqueiro e um dragão de komodo que adora lhe encher de trabalho extra. Fora do trabalho, ela também enfrenta dilemas comuns: não sabe quanto dar de presente de casamento e quer fazer compras sem ser assediada a cada minuto pelo vendedor da loja.

Ela sobrevive graças aos amigos do trabalho – uma raposa especialista em stalkear os outros nas redes sociais e uma hiena de terno e gravata (que, segundo o consenso do Twitter, parece ser o grande crush da série). Ela admira duas colegas mais experientes, mulheres que desfilam pelos corredores com um ar de #girlboss, mas na realidade têm muitas das mesmas inseguranças da nossa heroína.

Retsuko canaliza toda essa insegurança e fúria no death metal, música que lhe permite expressar exatamente o que ela sente. Ela tenta esconder o hobby das colegas mais intimidantes e depois de um cara em quem está interessada, mas percebe que estes são os momentos em que ela é mais verdadeira. É nessas vinhetas que enxergamos a real Retsuko: "Você é um chefe de merda!", grita/canta ela num happy hour. "Death metal é minha alma!!!", confessa ela em outro episódio.

O contraste entre a aparência adorável de Retsuko e a cantoria desvairada é fonte de comédia nos 10 episódios da série, mas mesmo assim não fica cansativo. Talvez porque seja raro encontrar uma personagem mulher, em animação ou não, que se entregue de corpo inteiro à raiva, especialmente de uma maneira que dá resultado positivo. O death metal é um espaço privado e não-destrutivo em que ela consegue lidar com as armadilhas da carreira corporativa.

Um horário fixo no karaokê pode ser uma forma de cuidado levada ao extremo, mas Retsuko não quer dar exemplos. Ela só está tentando sobreviver aos 20 e poucos anos.

As letras das músicas são a cereja do bolo, sempre adaptadas para o ataque do dia. Em um episódio, ela decide que tudo do que precisa é de um parceiro rico. Sobem as guitarras de metal, e o grito primordial da insegurança financeira: "LIBERDADE MATRIMONIAL!". Tão bom.

O público pode não associar imediatamente a série com a Sanrio, empresa japonesa mais conhecida pela Hello Kitty. Retsuko se destaca entre as personagens da Sanrio por causa de seus problemas. Até mesmo a cara "bonitinha" dela não tem um sorriso.

A série foi inspirada em curtas exibidos pela Tokyo Broadcasting System e parece mirar num público diferente do que consumiu títulos como Adventure Time ou Steven Universe. Mas a leveza de Aggretsuko – apesar de toda a fúria – não parece ser do mesmo universo de outro hit da Netflix, a comédia dark Bo Jack Horseman. Ainda assim, ela parece fazer jus à realidade, mesmo que o heavy metal não seja seu gênero favorito.

A série está em sintonia com o momento e é bizarramente terna: a raposa amiga de Retsuko, por exemplo, detecta um padrão no Instagram de uma colega mútua: comida, selfies e uma foto das coxas de vez em quando. Mas a caricatura dos colegas nem sempre é tão generosa. Essa mesma colega abre espaço para os flertes do chefe. Ela é claramente um contraste com Retsuko – eles jamais desceriam a esse nível --, mas a essa descrição de uma menina trouxa parece um pouco unidimensional.

Cada episódio dura somente 15 minutos, o que faz de Aggretsuko uma série que não exige tanto compromisso assim. Assistir vários episódios de uma vez é como ler várias tirinhas inteligentes: cores vivas, humor suficiente para umas boas risadas, mas nada de narrativas profundas. Felizmente, a série não quer ser TV de prestígio; ela é um sucesso por representar um espelho da vida corporativa de hoje em dia – e das atividades que nos sustentam quando batemos o cartão.

Esse texto foi originalmente publicado em inglês no HuffPost US.