MULHERES
21/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/05/2018 16:37 -03

Expansão da rede de casas de parto no Rio de Janeiro ainda não tem data para sair do papel

Projeto de Marielle Franco aprovado na Câmara Municipal no ano passado determina a criação de novos centros de parto humanizado na cidade.

Divulgação
A Casa de Parto David Capistrano Filho é o único estabelecimento que funciona na cidade e deve servir de modelo.

A ampliação do acesso ao parto humanizado na rede pública de saúde na cidade Rio de Janeiro será um dos legados da vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada brutalmente no dia 14 de março. O projeto que prevê a expansão da oferta de casas de parto na cidade nos próximos cinco anos foi a primeira proposta da vereadora aprovada na Câmara Municipal do Rio, em setembro do ano passado.

O texto estabelece a criação de pelo menos cinco novos centros de parto normal ou casas de parto até 2022, um em cada área programática da cidade. Os centros podem ser autônomos ou inseridos dentro de uma unidade hospitalar e devem ser priorizadas as regiões com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

O objetivo é assegurar às mulheres o direito de parir sem intervenções desnecessárias e com mais conforto.Marielle Franco, quando da aprovação do projeto.

Ricardo Moraes / Reuters
O projeto que prevê a expansão da oferta de casas de parto na cidade é um dos projetos de Marielle Franco, assassinada em março deste ano.

"O objetivo é assegurar às mulheres o direito de parir sem intervenções desnecessárias e com mais conforto", explicou Marielle à época da votação do projeto, quando presidia a Comissão de Defesa da Mulher da Câmara. A proposta chegou a ser vetada pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB) em outubro de 2016, mas o veto foi derrubado e a lei promulgada pelos vereadores em nova votação em novembro.

Seis meses depois da aprovação, ainda não há um cronograma para que ampliação da rede de atendimento saia do papel. Procurada pela reportagem do HuffPost Brasil, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a construção de um centro na Ilha do Governador, zona norte da cidade, faz parte do plano estratégico da gestão municipal. O órgão afirmou ainda que estuda a viabilidade de abertura de outras unidades, mas não divulgou os locais cogitados para receber os centros, nem os prazos.

O atendimento da mulher é integral, com acompanhamento de enfermeira-obstetra, obstetriz, assistente social e nutricionista Vitória Lourenço, doula e educadora perinatal.

A doula e educadora perinatal Vitória Lourenço reforça a importância da iniciativa ser colocada em prática. Ela trabalhou diretamente com Marielle na concepção do projeto e explica que o funcionamento das casas de parto é diferente de uma maternidade hospitalar, focado exclusivamente em gestações de baixo risco. "O atendimento da mulher é integral, com acompanhamento de enfermeira-obstetra, obstetriz, assistente social e nutricionista. Há um suporte físico e emocional para a grávida", afirma.

Ao ampliar o acesso ao parto normal humanizado nesse tipo de estabelecimento, o projeto concebido por Marielle e sua equipe também visa diminuir a sobrecarga das grandes maternidade e reduzir o alto índice de cesáreas realizadas no município. No ano passado, dos 87 mil partos ocorridos na cidade, 53% foram cesáreas, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Nascidos Vivos, do Ministério da Saúde. Assim como no País, o índice de nascimentos com intervenção cirúrgica na capital fluminense é bem superior ao recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), de até 15%.

A casa de parto como exemplo e referência

Reprodução/Casa de Parto David Capistrano Filho

A Casa de Parto David Capistrano Filho é o único estabelecimento desse tipo que funciona atualmente na cidade e deve servir de modelo para os próximos centros, explica Vitória. A unidade inaugurada em 2004 fica em Realengo, zona oeste do Rio, e tem capacidade de receber até 25 partos por mês. São atendidas no local apenas gestantes que não tem nenhum problema de saúde grave, como diabetes ou pressão alta, ou que apresentam qualquer risco. Os exames e o encaminhamento em caso de emergência é feito no hospital de referência da unidade, o Mariska Ribeiro, que fica a sete quilômetros de distância.

Além das consultas e da assistência da equipe técnica, são oferecidas oficinas sobre as mudanças no corpo da mulher durante a gestação, dicas de amamentação e cuidados com o recém-nascido. O acompanhamento segue por alguns dias após o nascimento do bebê, no período chamado puerpério. A grávida também pode criar um plano de parto e definir como e com quem quer viver o nascimento do filho.

Queria um parto natural, mas os relatos sobre os hospitais do Rio eram confusosÍsis Alves

Toda a experiência na casa mudou a relação de Ísis Alves, 29 anos, com a maternidade. Ela não queria ser mãe e o dado alarmante de que uma em cada quatro mulheres sofrem violência obstétrica no País a deixava apavorada. "Queria um parto natural, mas os relatos sobre os hospitais do Rio eram confusos", conta.

Por meio de pesquisas na internet ela chegou até a casa David Capistrano Filho. "Eu demorei meses pra aceitar que estava grávida, não me via como mãe. Tinha muito medo de ter depressão pós-parto, mas todo o apoio que recebi na casa, todas as conversas com essas pessoas foram muito importantes para me deixar mais tranquila e preparada", relata a designer, que comemora os quatro meses de vida do filho Igor na última quinta-feira (17).

O que diz a OMS sobre o índice de parto normal

AFP via Getty Images
Um mulher grávida, ao lado de suas filhas, participa de um protesto à favor de mais políticas para partos humanizados, em São Paulo.

Todo o atendimento na David Capistrano Filho vai ao encontro das novas orientações da própria OMS para que grávidas saudáveis tenham uma experiência positiva na hora do parto. De acordo com a agência internacional, cerca de 140 milhões de nascimentos ocorrem por ano em todo mundo, a maioria sem complicações para mulheres e bebês. Mas nos últimos 20 anos, os profissionais de saúde "aumentaram o uso de intervenções que antes eram utilizadas apenas para reduzir riscos ou tratar complicações". O Brasil é um dos países campeões nesse tipo de intervenção farmacêutica ou cirúrgica.

Com as novas recomendações, que incluem uso de anestesias apenas a pedido da mulher e várias técnicas para o alívio da dor durante o trabalho de parto, como relaxamento muscular, música ambiente e técnicas de respiração _ a OMS busca reverter essa situação, visando inclusive reduzir o número de cesarianas quando o procedimento pode ser evitado.

O projeto político da Marielle continua existindo através dos projetos de lei dela.Vitória Lourenço

"Há um reconhecimento muito grande do trabalho feito na casa e entendemos que isso devia se expandir, principalmente nas regiões mais pobres da cidade", diz Vitória Lourenço, que trabalhou com a vereadora na construção do projeto.

Para ela, é preciso haver pressão popular e política para que o projeto saia do papel, não apenas por ser fundamental para saúde das mulheres cariocas, mas também para dar continuidade da luta de Marielle. "A Marielle vive além do corpo. O projeto político da Marielle continua existindo através dos projetos de lei dela. Ela pensou o tempo todo nas mulheres que estão no Rio de Janeiro, nas mulheres negras e faveladas."