20/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 23/05/2018 12:34 -03

Juliana Pina, a artista que incentiva o poder de outras mulheres no mundo da arte

Para organizar e fomentar essa ideia, ela criou o Traçando Estúdio Criativo e a Rede Artística Feminina de Salvador: "Empreender na arte é muito difícil. A gente não busca soluções".

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Juliana Pina é a 74ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

O gerúndio é a forma nominal do verbo que indica continuidade. Assim, ele mostra o desenvolvimento de uma ação em andamento ou duradoura. O Traçando Estúdio Criativo, capitaneado pela baiana Juliana Pina não poderia ter, portanto, no verbo que dá seu nome, outro tempo.

Quem vê os cachinhos pretos, do alto da cabeça de 22 anos, desfilando com um ar quase infantil pelos mais diversos eventos de arte soteropolitanos, mal desconfiam que eles comandam, já há cinco anos, esse ateliê de criação - e o melhor: dentro da própria casa, a uma distância de uns 20 passos de seu quarto.

Minha forma de lidar com o colégio foi desenhando e escrevendo. Meu caderno era praticamente de desenho e anotações. E isso, para mim, foi uma válvula de escape daquela loucura toda.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu odiava o colégio. Minha forma de lidar com ele foi desenhando e escrevendo."

Olhando com mais cuidado para a árvore genealógica da família Pina, não fica difícil de entender de onde surgiu a vontade de se enveredar pelo mundo das artes. O pai, Roger, é DJ, e a mãe, Dalila, apesar de fisioterapeuta, organizou, por muito tempo, junto ao marido, um tradicional evento da cena de Salvador, chamado Máquina de Som. O programa, no estilo auditório, promovia uma mostra de artística entre algumas escolas da cidade.

Para Juliana, o contato com cada uma das edições do Festival - apesar de ela só ficar pela plateia ou bastidores - eram um respiro no meio de escola-particular-voltado-para-vestibular no qual estava inserida. "Eu odiava o colégio. Minha forma de lidar com ele foi desenhando e escrevendo. Meu caderno era praticamente de desenho e anotações. E isso, para mim, foi uma válvula de escape daquela loucura toda", conta.

Eu achei que a publicidade era uma coisa mais artística, mas lá eu não tinha tanta liberdade para criar. Optei por largar e escrevi uma carta para minha mãe contando. Ela ficou um mês sem falar comigo, achava que a arte era hobby, não profissão.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Se amar como se é", diz um dos desenhos feitos por Juliana.

No segundo ano do ensino médio, decidiu organizar os rabiscos despretensiosos em uma página no Facebook. E o que antes seria apenas uma ferramenta de catalogação da sua obra, se tornou seu principal veículo de divulgação. "Mais gente do que eu pensava entrou em contato comigo. Nessa época eu conheci um coletivo que montava uma revistinha de quadrinhos produzida só por mulheres, e elas publicaram uma história minha - e eu só tinha 16 anos".

Certa de que iria seguir no curso de publicidade e propaganda, descobriu meses antes da inscrição o curso de Bacharelado Interdisciplinar em Artes na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Cursou os dois simultaneamente, por um intervalo de seis meses, mas optou por permanecer apenas no segundo. "Eu achei que a publicidade era uma coisa mais artística, mas lá eu não tinha tanta liberdade para criar. Optei por largar e escrevi uma carta para minha mãe contando. Ela ficou um mês sem falar comigo, achava que a arte era hobby", lembra.

É um espaço de troca bem bacana, tem muita coisa gratuita e boa acontecendo que é pouco divulgada. A Rede me orgulha bastante, estou conectando pessoas em prol de algo que engrandece.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A palavra de ordem para Juliana, é o autodidatismo. Ela encontrou seu caminho, e aprendeu tudo sozinha.

Entre as várias áreas nas quais se aventurou nos últimos anos, prevalecem as ilustrações e os trabalhos manuais. A palavra de ordem para ela, é o autodidatismo: "Aprendi tudo sozinha, em casa. Os materiais que mais uso são nanquim, aquarela, lápis de cor, marcadores e papel. Eu sou bem roots em relação às tecnologias. Prefiro papel".

Uma personagem criada por ela, bastante presente em seu começo, se destaca em meio a tantas outras: Filó, o alter ego de Juliana. A bonequinha, que hoje aparece vez ou outra - não mais com esse nome -, representava os medos e inseguranças que ela precisava externar. "Eu me vejo muito nos meus personagens e nas coisas que eu desenho e comecei a criar outros padrões. Antes eu só desenhava ela, mas hoje consigo me ver em outras coisas, outros tantos personagens".

Empreender na arte é muito difícil, e a gente simplesmente não fala sobre isso, não busca soluções.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"A Rede me orgulha bastante, estou conectando pessoas em prol de algo que engrandece".

Para organizar e fomentar o mercado artístico das mulheres de onde vive, montou a página Rede Artística Feminina de Salvador, no qual são divulgados eventos desse teor. "É um espaço unicamente virtual onde as mulheres podem divulgar desde eventos que estão acontecendo na cidade até o que elas estão produzindo, dúvidas, dicas. É um espaço de troca bem bacana, tem muita coisa gratuita e boa que é pouco divulgada. A Rede me orgulha bastante, estou conectando pessoas em prol de algo que engrandece".

Sobre o futuro da sua arte, Juliana acredita que a chave está em um maior diálogo sobre o empreendedorismo criativo no Brasil - assunto pouco debatido tanto fora quanto dentro do meio acadêmico do gênero: "Empreender na arte é muito difícil, e a gente simplesmente não fala sobre isso, não busca soluções".

Ela ressalta que, mesmo com todas as dificuldades que o meio impõe, tenta não se manter, de forma alguma, parada. Em tudo que faz, seja nas paredes que ilustra do rodapé até o teto, nas mandalas que desenha sob os discos que rouba do pai, ou nas histórias em quadrinhos que empoderam, o tom é um só: o constante movimento.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC

*O texto foi alterado às 12:27 de quarta-feira (23) para corrigir a idade da entrevistada. Juliana tem 22 anos e não 21 como informado anteriormente.