ENTRETENIMENTO
18/05/2018 17:51 -03 | Atualizado 18/05/2018 18:38 -03

'O Processo', um documentário que quer que você reflita sobre o impeachment

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a diretora Maria Augusta Ramos fala sobre seu novo e premiado longa, que acaba de entrar em cartaz em 24 cidades brasileiras.

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"É importante que os argumentos contra o impeachment finalmente tenham voz", diz Maria Augusta sobre 'O Processso'.

Em cartaz nos cinemas desde a última quinta-feira (17), o documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos, mostra os bastidores de um dos episódios políticos mais agudos da crise política no Brasil: o impeachment de Dilma Rousseff. Cerca de 450 horas de material filmado serviram de base para a realização do longa, que chega às salas brasileiras depois de conquistar prêmios em festivais de cinema da Alemanha, Suíça, Espanha e Portugal.

Maria Augusta e uma equipe enxuta circularam durante meses pelos corredores do poder em Brasília registrando as coletivas de imprensa, as votações na Câmara dos Deputados e no Senado, além de reuniões e trâmites a portas fechadas - nunca exibidos nos noticiários.

Com a ajuda da montadora Karen Akerman, a diretora entrega em 130 minutos um novo olhar sobre os argumentos pró e contra o rito de afastamento de Dilma e seus principais personagens, incluindo os senadores petistas Lindbergh Farias e Gleisi Hoffman, o advogado de defesa José Eduardo Cardozo e a advogada de acusação Janaina Paschoal.

"Esse filme é uma visão minha, pessoal e subjetiva de tudo o que aconteceu", afirma a diretora, também responsável pelos premiados Justiça (2004), Juízo (2007) e Morro dos Prazeres (2013) – documentários que, assim como O Processo, propõem reflexões sobre a sociedade brasileira a partir do âmbito da Justiça.

Em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil, a diretora falou sobre a dinâmica de construção de O Processo, sua proposta de cinema e expectativa sobre a recepção do público."Espero que o filme gere uma possibilidade de retorno ao diálogo um com o outro, para que o País passe a ser menos dividido", afirmou.

Divulgação/Ana Paula Amorim
"A minha proposta de cinema é um cinema que questiona, que instiga o pensar, provoca reflexão", afirma Maria Augusta Ramos.

Leia a entrevista completa abaixo:

HuffPost Brasil: Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre o impeachment?

Maria Augusta Ramos: A ideia surgiu desse momento histórico que vivemos. Ali, naquele momento, quando o impeachment começou a tomar forma, eu senti uma necessidade de entender o que estava se passando com o País e também compreender as acusações e todo o processo de impeachment. Foi uma decisão urgente, tomada de um dia para o outro. E eu fui para Brasília dois dias depois. Naquela época, era mais ou menos oito dias antes da votação na Câmara dos Deputados.

Inicialmente, eu não acreditava que o impeachment fosse passar na Câmara. Aí, enfim, nós tivemos aquela resultado e eu resolvi ficar e naquele momento, logo depois da votação, eu decidi que o filme deveria se focar no processo jurídico-político que se deu no Senado. Eu poderia ter abordado o tema impeachment de várias maneiras, não só em Brasília, mas resolvi abordar desse ponto de vista provavelmente porque eu já tenho uma experiência dentro do sistema judiciário.

A senhora costuma abordar o sistema judiciário em seus filmes. Por que o interesse nessa temática?

Os meus filmes não são exatamente sobre o sistema judiciário. Eu acho que esses filmes tem, na verdade, uma proposta de reflexão sobre a sociedade brasileira através do que eu chamo de "teatro da Justiça", que passa pelo sistema judiciário, pelo universo da justiça. Ali se desenrolam relações sociais, humanas e relações de poder. Por um lado, eu me interesso por isso porque acredito que o que acontece dentro do universo da justiça é extremamente significativo, representativo e simbólico da sociedade brasileira. Por outro, ele [ o '"teatro da Justiça"] me permite fazer o meu cinema documental, um cinema de observação principalmente das relações humanas.

Interessa-me a interação, como as pessoas interagem com o meio em que vivem e com o outro, sendo ele a sociedade, a família ou a cultura. A relação entre o pai e filho, entre o policial e a comunidade, entre o juiz e o acusado. Enfim, é através desse discurso e dessa comunicação, ou falta de, que eu quero refletir e retratar. Eu tento retratar a sociedade brasileira.

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Cerca de 450 horas de material filmados serviram de base para a realização do documentário.

Por que decidiu não fazer uso de entrevistas no filme?

A decisão de não usar entrevistas é uma proposta que apresento desde o meu primeiro filme. Eu nunca fiz um filme com entrevistas. A minha abordagem de narrativa, de apresentação dos personagens, edição de cenas e construção do filme acorre através de observações da realidade. No caso desse filme, foi observando os vários momentos desse processo: as comissões, as reuniões, o plenário e as figuras que se tornaram os personagens principais dentro desse universo. Essa é a minha proposta de cinema. É uma proposta que se deu em todos os meus filmes e que em O Processo não é diferente.

Qual foi o critério usado para edição de todo o material filmado?

A edição é um longo trabalho de reflexão e de revisão de todo o material. É a consequência de um trabalho de estruturação formal - tanto estética como eticamente. Cada corte é um corte estético e ético. Esse filme é uma visão minha, pessoal e subjetiva de tudo o que aconteceu. Foram necessárias várias fases de edição e de escolha. Quando eu decidi centrar e focar no Senado, muito do material que foi filmado fora de Brasília ou na Câmara dos Deputados foi descartado. Eu também acabei escolhendo personagens que são mais representativos de todo esse processo. Tanto o advogado de defesa [José Eduardo Cardozo] quanto a advogado de acusação [Janaina Paschoal] , os senadores da defesa e os senadores da acusação.

Obviamente, a edição também dependeu do nível de acesso que eu tive a cada um desses personagens. Isso também definiu a presença e a participação das pessoas no filme. Também era importante para mim e para a minha editora [Karen Akerman], tentar explicar, entender as acusações, o que eram realmente as pedaladas, o que eram os decretos, qual era o argumento pró-impeachment. Ao mesmo tempo, eu queria dar voz aos argumentos contra o impeachment, que foram pouco ouvidos durante todo o processo. Era importante que esses tivessem voz. Isso foi um elemento que nos guiou durante a edição.

Como a senhora define o filme dentro desse cenário polarizado que ele retrata?

Eu não defino. As pessoas tem que assistir ao filme e tirar suas próprias conclusões. Essa é a minha proposta de cinema. O filme é um retrato do processo de impeachment. É uma visão minha como diretora de um processo que eu vivi. Isso quer dizer que ele jamais vai ser uma visão imparcial. Isso não existe. De qualquer maneira, ele contempla os dois argumentos: tanto o argumento da direita a favor do impeachment e também os argumentos da esquerda, ou seja, a defesa da presidenta.

É importante dizer que o fato de que eu tive muito mais acesso aos bastidores da defesa da presidenta faz com que a participação da defesa seja mais proeminente no filme, isso é um fato. Mas eu não defino o filme. Sei que ele não é panfletário. Eu não faço filme panfletário, nunca fiz. A intenção era, através das cenas, das comissões e das reuniões, da edição de todo esse material, fazer o público rever, repensar, refletir sobre tudo o que a gente viveu. E nesse sentido, dar voz às várias narrativas. Foi um processo extremamente complexo e é importante que os argumentos contra o impeachment finalmente tenham voz.

O filme aproxima o espectador do dia a dia agentes do poder, que geralmente são vistos rapidamente nos noticiários e manchetes de jornais. Qual é a perspectiva que a senhora tem de cinema?

A minha proposta de cinema é um cinema que questiona, que instiga o pensar, provoca reflexão. Esse é um filme para a gente rever um momento extremamente doloroso da história brasileira, que ainda tem consequências no dia de hoje. Espero que o filme gere uma possibilidade de retorno ao diálogo um com o outro, para que o País passe a ser menos dividido, menos polarizado.

Eu quero acreditar que à medida em que a gente vai se repensando e refletindo sobre tudo o que aconteceu, vamos ter um pouco mais de tolerância com o outro. Mas eu não acho que a arte tem um grande poder de mudança na sociedade. O meu único desejo, e por isso eu faço cinema, é gerar essa reflexão sobre a sociedade em que a gente vive, sobre o nosso tempo. Meu desejo é que a gente se entenda um pouco melhor como ser humano, como nação, como sociedade.

Assista ao trailer de O Processo:

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