COMPORTAMENTO
17/05/2018 11:35 -03 | Atualizado 17/05/2018 12:47 -03

'Yanny' ou 'Laurel': A nossa realidade é só uma questão de interpretação

Nossas percepções não são verdades absolutas.

Reprodução/Getty Image
Qual o nome que você escuta nesse áudio: Yanny ou Laurel?

Há 3 anos, a internet enfrentou um de seus maiores dilemas ao dividir opiniões sobre a cor de um vestido. Agora, um arquivo de áudio tem deixado muita gente confusa sobre a pronúncia de uma palavra.

Qual o nome que você escuta nesse áudio: Yanny ou Laurel?

A mensagem de voz viralizou quando Cloe Feldman, uma youtuber americana, compartilhou o áudio em seu Twitter na última terça (15).

Mas o meme "yanny" x "laurel" já tinha nascido alguns dias antes e, como todo ótimo post que viraliza, ele foi criado por alguns adolescentes.

De acordo com a Wired, Katie Hetzel, uma estudante da Georgia, estava fazendo um trabalho para a matéria de literatura inglesa de sua escola.

"Laurel" era uma das palavras do vocabulário que ela precisava pesquisar. Ela foi até o site Vocabulary.com, uma espécie de dicionário online. Mas, ao dar play na gravação de voz que ensinava a pronúncia de "laurel", ela só ouviu "yanny".

"Laurel" em inglês, significa "louro", e é definido como uma "coroa de flores usada na cabeça, geralmente como um símbolo de vitória".

Então, se você escuta o termo "laurel" na mensagem de voz, você está tecnicamente correto. Porém, o funcionamento da nossa mente e a nossa interpretação da realidade são um pouco mais complexos.

Afinal, por que algumas pessoas escutam "yanny"?

Truques de percepção como o caso do vestido dourado x azul ou o áudio "laurel" x "yanny" revelam que nossas percepções não são verdades absolutas, mas sim que nossos órgãos sensoriais percebem o mundo de diversas maneiras.

De acordo com o site VOX, no caso específico do áudio, para ouvir "yanny" ou "laurel" você depende das frequências de som mais baixas ou mais altas. Ao eliminar as frequências mais altas, a palavra "laurel" se torna mais compreensível. Ao fazer o mesmo com as frequências mais baixas, a pronúncia de "yanny" é bem mais clara.

Alguns fatores interferem na escuta de uma palavra ou outra, como a qualidade dos alto-falantes que você está usando em seu computador ou celular, as suas sensibilidades auditivas, até mesmo se você tem alguma perda na audição, ou ainda se as regiões de processamento de áudio do seu cérebro estão de acordo com as suas expectativas. Esses fatores foram explicados em um tweet por Dana Boebinger, pesquisadora de Harvard que estuda as bases neurais da percepção auditiva.

Essa situação é bem mais comum do que a gente pensa. E muitas "ilusões sensoriais" começam da mesma maneira: há informações suficientes para que nossos cérebros tirem conclusões diversas, porém, nossos "preconceitos" ou os nossos vieses cognitivos influenciam para que se faça a escolha de apenas uma dessas interpretações. E, em muitos casos, é difícil desconstruí-la ou mudar de ideia.

Os vieses cognitivos são uma espécie de "atalhos" em nosso cérebro que existem por uma razão bem simples: poupar tempo e energia. Eles auxiliam a lidar com a sobrecarga de informações, com a falta de significado, com a necessidade de agir rápido e até mesmo com o discernimento do que precisamos guardar na memória ou não.

Mas eles se tornam perigosos, por exemplo, quando nos impedem de enxergar uma realidade mais ampla ou até mesmo de encarar uma mudança não desejada.

"O mais importante é discutir sobre esses atalhos. A gente precisa entender em quais momentos eles atrapalham a nossa vida e tentar criar regras sociais que minimizem isso. É interessante ver o quanto a razão consegue de verdade influenciar o cérebro e entender o quanto isso é muito pequeno. Como pesquisadores, a comunidade tenta expor o conhecimento e educar para as circunstâncias que vão além do viés", como explicou o neurologista Fabiano Moulin em entrevista ao HuffPost Brasil.

Os debates sobre "yanny" x "laurel" ou até mesmo sobre a cor de alguns vestidos podem parecer bobos à primeira vista.

Mas o fato é que essas discussões podem ter algumas lições importantes. As nossas interpretações da realidade são muitas vezes baseadas em aleatoriedades, mas ainda assim, somos teimosos o suficiente para não repensar a maioria delas.

E isso se torna um pouco mais complexo quando deixamos de discutir sobre cores de vestidos e passamos a interpretar as cores das peles de um grupo de pessoas, por exemplo.

Contudo, isso não quer dizer que não podemos confiar na realidade. Longe disso. Muitas vezes, estamos corretos em nossas interpretações, caso contrário a espécie humana não teria chegado tão longe. Porém, ao nos depararmos com uma percepção diferente da realidade, precisamos estar abertos a ela. Afinal, pode ser apenas um "truque" do seu cérebro, que processa as informações de uma maneira diferente.