ENTRETENIMENTO
14/05/2018 11:02 -03 | Atualizado 16/05/2018 14:39 -03

'Wild Wild Country': Cobri o culto de Rajneesh e conto aqui o que ficou de fora da série da Netflix

Entrei novamente em contato com a família Burrows, que foi em busca do nirvana no Oregon e encontrou uma organização criminosa.

Matthew NAYTHONS via Getty Images
Seguidores de Rajneesh comemorar a chegada do guru ao Oregon, em 1985.

Atenção: contém spoilers da série Wild Wild Country

Em 1979, a estudante do primeiro ano de faculdade Dara Burrows foi para a Índia nas férias de inverno. Ela jamais voltaria para a escola. Em um cartão postal enviado para a mãe, que morava em New Jersey, ela escreveu: "Não vou voltar para casa. Estou feliz e virei sannyasin". Uma discípula.

Burrows tinha entrado para um culto. Mas não um culto qualquer. A jovem de 18 anos tinha virado seguidora do guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh. Começou a usar uma foto de Bhagwan num colar. Nos anos seguintes, ela e milhares de outros seguidores viajariam para uma área rural do Oregon, no noroeste dos Estados Unidos, para fundar uma comuna com o nome do guru. A atração do culto geraria mais uma fissura na já frágil estrutura familiar de Dara. Até hoje, 33 anos depois de conhecê-la, as feridas não cicatrizaram.

Por fora um lugar alegre - com um terminal de ônibus batizado de "Conexão Zen", a loja de conveniência "Zorba the Buddha Rajneesh Deli" e algo chamado "Bosque do Nirvana" -, o Rancho Rajneesh passou por uma metástase e se transformou numa organização criminosa. Rajneesh tinha fetiche por relógios cravados de diamantes e uma caravana de Rolls-Royces, e seus jagunços entraram em guerra com os inimigos da região. Os líderes da comunidade borrifaram salmonela em bufês de salada de restaurantes de uma cidade próxima, contaminando pelo menos 700 pessoas – o maior ataque bioterrorista da História americana. Eles tramaram o assassinato do secretário de Justiça do estado. E organizaram centenas de casamentos fraudulentos para abrigar nos Estados Unidos os Rajneeshees (como eram conhecidos os integrantes do culto) estrangeiros.

Esse episódio ultrajante e mal contado da história recente dos Estados Unidos finalmente vai receber o tratamento merecido. Em 16 de março, a Netflix lançou a série documental Wild Wild Country, dirigida pelos irmãos Chapman e Maclain Way e produzida pelos também irmãos Jay e Mark Duplass. A série, ambiciosa, mas com suas falhas, resgatou centenas de horas de vídeos caseiros gravados pelos próprios integrantes da seita. Eles acreditavam estar construindo num nirvana verdadeiro nas montanhas do Noroeste Pacífico.

Dara Burrows e centenas de outros ex-integrantes do culto estão fazendo maratonas para assistir à série. Nas páginas de fãs dedicadas a Rajneesh – ele morreu em 1990 e hoje é conhecido como Osho – as resenhas não param de ser postadas.

"Já assisti quatro episódios. Pior do que eu imaginava", escreveu a ex-sannyasin Dorothee Bull numa página de Facebook pró-Rajneesh. "Bhagwan era um político interessado no jogo do poder."

"Como toda a cobertura da mídia, essa série parece pulular sobre a água como uma pedra, tocando apenas nos eventos mais controversos...", escreve a ex-sannyasin Roshani Shay no site Oshonews.com. "Quem assistir à série pode aprender como não se comportar."

"Nem sempre você vê um sannyasin confessando tentativa de homicídio na TV. Fiquei pensando que os responsáveis pela série sobre o Rancho realmente enlouqueceram, da pior maneira possível", afirma um observador chamado "Lokesh", postando no site Sannyas News.

Assisti feliz da vida às seis horas de Wild Wild Country. Em 1984, eu era um repórter em começo de carreira em Trenton, New Jersey, e convenci meus editores a me mandar para o Rancho Rajneesh. Na época, os Rajneeshees estavam começando a aparecer em Trenton e outras cidades do país, cooptando centenas de sem-tetos a se mudar para o paraíso de Bhagwan no Oregon. Com promessas de comida e cerveja grátis e uma vida livre de crimes, os Rajneeshess diziam ser simplesmente humanitários ajudando a combater vergonhosa a crise de moradores de rua dos Estados Unidos. Na verdade, como mostram a série da Netflix e investigações jornalísticas recentes, o culto estava simplesmente importando sem-tetos para que eles votassem nas eleições locais.

No inverno de 1984, o Rancho Rajneesh estava agitado, com um aeroporto particular, um shopping center, o Hotel Rajneesh (com 145 quartos) e chalés suficientes para abrigar milhares de sannyasin, todos vestidos de vermelho. Os Rajneeshees escolheram o lugar com cuidado, comprando cerca de 250 quilômetros quadrados de terras no interior do Oregon, uma propriedade que antes era conhecida como "Big Muddy Ranch". O lugar todo estava repleto de propaganda. Os Rajneeshess celebravam o nascer e o pôr-do-sol fazendo reverências para Bhagwan e cantando para o guru, que passava lentamente diante dos seguidores em um de seus mais de 90 Rolls-Royces. À noite, milhares se reuniam para ouvir atentamente os discursos hipnóticos de Rajneesh, exibidos em vídeo. Suas fotos estavam por toda parte, e a livraria comunitária tinha livros de um único autor à venda.

NUTAN VIA GETTY IMAGES
UNSPECIFIED - CIRCA 1900: Rajneesh sect. (Photo by NUTAN/Gamma-Rapho via Getty Images)

Fiz um tour da propriedade acompanhado por uma porta-voz extrovertida, Ma Dhyan Rosalie (antes de juntar-se à seita, seu nome era Rosalie Rosenberg). Tive autorização para entrevistar os ex-sem-teto de New Jersey. Logo depois, saí à procura de Dara Burrows, a ex-estudante do Bennington College.

Antes de partir para fazer a reportagem, tinha conversado com a mãe de Dara, Sandra, na casa da família, perto da cidade de Princeton. A história era devastadora. Primeiro, ela fora abandonada pelo marido, David Burrows. Ele era professor titular de literatura da Universidade Rutgers, e o casal teve quatro filhos juntos. David conheceu Rajneesh numa viagem que fizera à Índia em 1978. Foi uma experiência profunda. De volta ao campus, David começou a usar roupas laranja e um colar com a foto de Bhagwan. Ele também insistia em ser chamado de Swami Das Anudas. A vida na universidade logo perdeu o apelo, e David mudou-se para a Índia para estar com Bhagwan em tempo integral.

Quando Sandra estava se recuperando do choque, David deu para Dara uma coleção dos discursos de Bhagwan. Dara ficou encantada com a possibilidade de "uma nova existência" e com a rejeição dos "modos rígidos e institucionais da sociedade" e marcou uma viagem à Índia, para conhecer o guru.

"O pai dela deu o dinheiro. Meio que aconteceu em segredo, sem que eu soubesse de nada", me disse Sandra, como escrevi numa reportagem publicada na New Jersey Monthly Magazine em 1986.

Semanas depois, chegou o cartão postal curto e direto. Dara tinha se tornado Ma Prem Dara e era parte da seita, junto com o pai. "Durante toda a infância achava que era diferente", me disse Dara na época. "Quando conheci Bhagwan, ele disse tudo o que eu sentia. Era como seu eu finalmente conseguisse respirar..."

Sandra continuou com os três filhos. Mas ela sabia que Dara tinha ido para sempre. "Foi um choque terrível. Queria que ela voltasse para a faculdade, se não Bennington, então alguma outra. Mas não havia como fazê-la mudar de ideia."

Durante cinco anos, Sandra e seus três filhos se resignaram com a perda do marido, pai e irmã. Então, no verão de 1984, Jamie, 22 anos, aceitou um convite para visitar o Rancho Rajneesh. O filho mais novo também cedeu ao encanto do guru. Quando entrevistei Jamie, Dara e David juntos na comuna, naquele ano, Jamie estava usando o tradicional colar – chamado "mala" – e se apresentou como Swami Anand Brahma. "A tradicional família americana", disse um sannyasin, rindo, ao passar por nossa mesa.

JIM POPKIN
David, Dara e Jamie Burrows, no Rancho Rajneesh.

Em New Jersey, Sandra não parava de chorar, como lembra uma amiga da família. Desesperada, ela ligou para um psicólogo especializado em seitas na tentativa de recuperar o filho. "Não sabia o que fazer. Ele não era criança. Não tinha sido sequestrada", disse Sandra para mim na reportagem da New Jersey Monthly.

Menos de nove meses depois da minha visita, a seita implodiu. A principal assessora de Bhagwan, a cruel Ma Anand Sheela, fugiu para a Europa numa deserção envolta em mistério. Depois de um período de silêncio autoimposto de três anos e meio, Bhagwan, furioso, reuniu a mídia para denunciá-la. "Sheela e seu grupo tentaram matar três pessoas", afirmou o guru. "São criminosos." Temendo ser preso, Bhagwan embarcou num jatinho e tentou fugir do país. Mas ele foi preso e declarou-se culpado de crimes de imigração, em troca do pagamento de uma multa e de deportação. Investigadores federais e estaduais foram ao Rancho, e vários membros decidiram colaborar com a polícia. Como relatou o The Oregonian em uma série de reportagens publicada no ano passado, "os Rajneeshees encheram os tribunais, admitindo comportamento criminoso em nome da seita. As acusações incluíam tentativa de homicídio, agressão, incêndio criminoso, fraudes de imigração, grampo de telefones e conspiração." Sheela e outros ex-membros da seita cumpriram penas na prisão.

Na comuna, os moradores do Rancho Rajneesh fizeram as malas. Os Rolls-Royces foram leiloados no Texas. Jamie, Dava e David Burrows começaram a fazer planos para um futuro incerto.

Procurei a família Burrows em fevereiro deste ano, e as feridas ainda pareciam abertas. Descobri que Jamie hoje trabalha com finanças e não queria falar do pouco tempo que passou na comuna. Dara se casou, constituiu família e durante 22 anos trabalhou como editora-sênior de uma ONG científica. Ela fez as pazes com a mãe, que tem dificuldades de superar o abandono. "Voltei, mas ela sempre tem medo que eu vá embora de novo", disse Dara numa entrevista recente. "Estou fazendo muito esforço para manter contato constante e para mostrar o quanto a amo."

Dara concordou em falar pela primeira vez em três décadas porque, segundo ela, não há nada a esconder. Ela disse estar ansiosa para assistir Wild Wild Country, mas acrescentou que ela e a maioria dos outros Rajneeshees não sabiam dos crimes graves praticados na comuna. "Não tenho vergonha de ter sido sannyasin ou de ter ido para a Índia e para o rancho", disse ela. "Mas tenho vergonha de me ver associada a uma organização que fez coisas tão terríveis e prejudicou tanta gente."

Olhando para o passado, ela admite que os integrantes da seita "disseminavam a ilusão de 'nós contra eles' e falavam dos perigos de sair do rancho". A propaganda era implacável. "Definitivamente sofri lavagem cerebral", disse Dara. Foram necessárias décadas até que ela superasse a experiência.

Wild Wild Country não explora as mágoas das milhares de famílias que viram mães, pais e filhos partindo para a vida no rancho. É uma das falhas de uma série que, mesmo assim, expõe a brutalidade da seita que tomou controle da minúscula cidade de Antelope e os conflitos com os fazendeiros intolerantes que faziam oposição ao grupo. Os diretores da série parecem ter medo de fazer julgamentos, e os telespectadores pagam o preço.

Considere o seguinte: Ma Anand Sheela, a assistente de confiança de Bhagwan e ex-presidente do império de Rajneesh, é acusada na série de ser mandante e de participar em uma série de crimes. Entre eles: envenenar uma cidade inteira com salmonela; espreitar e tentar matar o então secretário de Justiça do Oregon, Charles Turner; incendiar um escritório do governo local; grampear os telefones de amigos e inimigos; batizar com remédios antipsicóticos barris de chope para manter sob controle os milhares de sem teto recrutados para o rancho; e depois despejá-los nas cidades do estado. Ah, e também injetar veneno e tentar matar o médico pessoal de Bhagwan.

Apesar desse currículo, os autores de Wild Wild Country entregam o microfone para Sheela. Eles nunca questionam ou conferem as versões dela para os eventos. Tampouco perguntam o que Bhagwan sabia das atividades criminosas que aconteciam aos pés do seu trono. Sheela tentou matar o médico do guru para salvar Rajneesh, como ela afirma? E ela grampeou os telefones do rancho e leu toda a correspondência para proteger seu amado Bhagwan ou meramente para saber o que seus rivais estavam tramando? Os telespectadores não têm a resposta.

Três décadas mais tarde, as vendas dos livros e gravações de Bhagwan parecem ir bem. Muitos dos seus seguidores atuais parecem acreditar na mentira que Bhagwan foi manipulado por Sheela. Ele foi um inocente útil o tempo todo.

O pai de Dara, David, é uma dessas pessoas. O professor universitário que vestia terno e gravata e tinha um Peugeot na garagem rapidamente perdoou o mestre. Depois do fim da comuna, ele viajou pelo mundo – Nepal, Japão, Guatemala, Texas e Nova York. Em 1998, ele disse para Dara que tinha vontade de voltar para a Índia. "Acho que não preciso explicar por quê." Burrows voltaria a viver com Bhagwan.

Até sua morte, aos 80 anos, o homem que se tornou Swami Das Anudas tinha poucos arrependimentos, por mais que estivesse claro para a maioria das pessoas que o culto de Bhagwan não ofereceria salvação para o cinismo do mundo. "Não importa o que aconteceu no rancho, ainda assim era muito melhor do que estava acontecendo no resto do mundo", escreveu David Burrows para Dara. "Quanto mais difícil [a experiência], mais você aprende ao passar por ela."

Jim Popkin (http://www.jimpopkin.com/) é jornalista e mora em Washington. Siga-o no Twitter: @JimPopkin (https://twitter.com/JimPopkin).

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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