ENTRETENIMENTO
10/05/2018 17:16 -03 | Atualizado 11/05/2018 11:25 -03

'This is America', de Childish Gambino, visto pela ótica de um historiador das leis de Jim Crow

"De quando em quando um incidente de racismo ou uma expressão de arte nos obriga a parar para refletir, mas logo depois voltamos a dançar.”

YouTube/Childish Gambino

David Pilgrim já assistiu ao vídeo de This Is America, de Donald Glover, umas dez vezes. Ele descreve o vídeo como "uma crítica amarga à indiferença", e isso é algo do qual ele entende. Pilgrim é fundador e curador do Museu Jim Crow, na Ferris State University, no Michigan.

Ele e eu conversamos longamente sobre as referências que estão por toda parte no vídeo musical de quatro minutos de Glover, ou Childish Gambino, seu nome artístico: referências a Thomas Rice, o Jim Crow original, e alusões mais diretas à violência policial e armada contra americanos negros. Também falamos sobre a análise intensa que vem sendo feita do vídeo na internet, sobre as interpretações e seus excessos e sobre a ironia do fato de essa discussão ter desviado nossa atenção de uma das coisas que o vídeo destaca: que nossa atenção é desviada facilmente.

Nosso papo começou pelo telefone e continuou por e-mail. A transcrição foi resumida e editada para permitir maior clareza.

Quais são seus comentários gerais sobre o vídeo?

Nunca sabemos o que um artista tem na cabeça, a não ser que ele nos conte. Então temos que interpretar, e às vezes interpretamos corretamente. Eu li algumas das críticas escritas por várias pessoas, e cada um diz uma coisa, coisas totalmente divergentes. Gosto disso. Gosto disso porque, francamente, curto qualquer arte que incentive discussões inteligentes sobre racismo. Qualquer arte que promova essa discussão faz bem para este país. É óbvio que o vídeo é uma crítica amarga à indiferença. Vemos crianças morrendo, fiéis morrendo, depois fazemos uma pausa e voltamos a dançar.

Curti realmente a inclusão da dança, porque penso muito sobre dança. As pessoas negras são submetidas a uma brutalização cotidiana que é tão normalizada, e as pessoas continuam a dançar, como se estivessem felizes ou despreocupadas. É verdade que a postura e o modo de dançar e se movimentar de Glover remetem a Thomas Rice, o Jim Crow original. Acho que a dança remete à dança dos espetáculos de Menestréis*, mas também à dança popular entre pessoas negras naquela época. Talvez eu esteja exagerando nessa minha ênfase sobre a dança, mas me parece que desde a época dos Menestréis até o presente, tanto as pessoas feridas quanto as que as feriram muitas vezes passaram por cima da brutalidade, e o fizeram por meio da dança.

Também pensei sobre todas as mortes e a violência que vi no vídeo. Há o simbolismo óbvio – o cavalo branco, os tiros propriamente ditos, armas seguradas nas mãos --, mas comecei a pensar que ser negro neste país significa ser cercado pela morte precoce e talvez devastado por ela. Essa foi uma das ideias que não consegui tirar da cabeça.

Mas fiquei um pouco perturbado com dois trechos. Não sei bem como dizer isto, mas não podemos nos enxergar como sendo sem poder, mesmo vivendo em um país que nos fere rotineiramente. E acho que eu, por exemplo, já percorri um caminho longo. O museu originalmente tratava apenas do mal que nos foi feito. Muitos afro-americanos entravam aqui e diziam que este é um museu do racismo e não um museu da história negra, mas que estávamos mostrando apenas o mal que nos foi feito. Diziam que não devíamos fazer apenas isso, que também devíamos mostrar a resistência. Então no final, quando ele (Glover) está sendo perseguido, eu entendi o espírito da coisa. Às vezes a coisa prudente a fazer é fugir. Mas às vezes é preciso parar de dançar, parar de fugir, fincar os pés no chão e resistir.

Que referências e nuances históricas você captou no vídeo? Por exemplo, vi um tuite dizendo que as calças de Danny Glover parecem as que os soldados Confederados usavam.

Estou na dúvida em relação a algumas dessas coisas. Procurei olhar de perto para muito disso, e parte dos comentários ocorrem porque é um problema com o simbolismo. Foi por isso que comecei por dizer que nunca sabemos ao certo o que estava na cabeça do artista – se ele estava fazendo tal coisa intencionalmente, se não foi intencional, se a intenção era que fosse algo profundo, em que trechos ele queria fazer você se esforçar mais para entender.

Mas algumas das coisas são mais fáceis de compreender. Acho que está bastante claro que Glover imitou a postura de Thomas Rice, sim. Há algumas outras colocações históricas no vídeo, mas elas não remetem a um passado de tanto tempo atrás quanto Jim Crow. Ao todo, em matéria de referências históricas, não enxerguei tanto quanto outras pessoas enxergaram.

E talvez eu esteja imaginando coisas, mas quando Glover está diante do coral, por um instante passa a impressão de estar no palco de um espetáculo de Menestrel.

YouTube/Childish Gambino

Mas depois pensei que talvez eu esteja enxergando mais do que há ali de verdade. Não entendi por que ele não usou camisa. Se eu tivesse a oportunidade de falar com ele, acho que teria umas 50 perguntas para lhe fazer. E perguntaria sobre o fato de ele estar sem camisa. Isso quase nunca acontecia nos Menestréis, quer fossem apresentações profissionais, entre os anos 1830 e 1900, ou as apresentações amadoras, depois disso. Os artistas muitas vezes vestiam trajes bem chamativos – parte de um smoking e parte de uma calça rasgada e remendada.

Acho que muitas das coisas que as pessoas estão enxergando talvez sejam apenas algo que elas estão enxergando, e isso é uma prova da beleza da arte.

Acho que também é prova da genialidade pessoal de Donald Glover. Ele nos deu uma tela que as pessoas podem acabar de preencher. Utilizou símbolos que permitem interpretações múltiplas. Já foi dito tanto sobre a coisa do cavalo branco do apocalipse – e ser negro significa sempre ter a morte correndo atrás de você.

Se você olhar os obituários e olhar os anos das pessoas negras e os anos das pessoas brancas em qualquer cidade deste país, vai notar uma diferença. Não é preciso ser sociólogo para enxergar isso. Ninguém precisa. Eu tinha colegas em Mobile [cidade do estado do Alabama] que tinham o hábito de ir a funerais. É o que eles faziam. Eles iam a funerais, mesmo que não conhecessem o defunto. É simplesmente que a morte precoce parece fazer parte da condição afro-americana. E não apenas a morte, mas a destruição. Ser negro significa não apenas ser cercado pela morte precoce, mas também ser cercado por pobreza, ofensa, desencorajamento e menosprezo.

O saco que cobre a cabeça do sujeito no início do vídeo, isso lhe lembra alguma coisa? Para mim, me lembrou de uma foto ou alguma coisa que vi. Acho que pode ser apenas projeção minha. Mas e você, tem alguma ideia a esse respeito?

A primeira coisa que me veio à cabeça teve mais a ver com execuções modernas de pessoas por terroristas. Se você olhar para algumas das primeiras imagens dos membros do Ku Klux Klan e organizações semelhantes a ele – os Whitecaps e as patrulhas dos tempos da escravidão --, eles às vezes faziam esses sacos toscos, mas o saco visto no vídeo acho que não tinha buracos para os olhos. Parece simplesmente o que fazemos com uma pessoa que foi capturada.

YouTube/Childish Gambino

Fica claro que o vídeo faz muitos comentários sobre a violência armada na América, especificamente sobre como armas de fogo são usadas para matar negros na América e como esse não é necessariamente o tipo de coisa que recebe a maior atenção. Ando refletindo também sobre como os linchamentos evoluíram e se converteram em coisas como o massacre de Charleston, em coisas como a violência policial. É claro que esses elementos estão presentes no vídeo. Mas você tem alguma coisa a comentar sobre a violência armada, sobre o modo como ela é representada no vídeo?

Esse vídeo, para mim, remete aos espetáculos de Menestréis. Obviamente, enquanto as pessoas no teatro estavam sendo entretidas, pessoas negras estavam sendo maltratadas do lado de fora. Os Menestréis começaram antes da época em que os linchamentos se tornaram comuns, mas se estenderam durante aquele que podemos descrever como o período dos linchamentos. Não é frequente linchamentos aparecerem sobre o palco. Para mim, é significativo porque temos esta vida negra de faz-de-conta sendo recriada sobre o palco – muitas vezes mostrando pessoas negras que não representam uma ameaça ou não constituem motivo de preocupação --, e ao mesmo tempo, fora dos auditórios, tínhamos pessoas brancas que sentiam medo do chamado negro bruto.

E me pergunto até que ponto seria diferente minha reação e a de outras pessoas se a pessoa que puxa o gatilho não fosse uma pessoa negra que simboliza o opressor, mas fosse realmente uma pessoa branca.

Eu discuti esse ponto com um amigo.

O homicídio é algo que me atinge, quer seja cometido por um policial branco ou por um vizinho negro. Acho que este vídeo trata dessas duas coisas. A maior parte do que é mostrado trata apenas da opressão branca das pessoas negras. Mas o vídeo também reconhece que negros matam outros negros.

Meu amigo estava dizendo que a mensagem se perdeu porque é uma pessoa negra quem mata. Minha resposta foi que, embora seja evidente que a criminalidade em comunidades negras e a violência racial cometida contra negros não sejam a mesma coisa, essas são duas coisas que acontecem e coisas que devem nos preocupar. Me pergunto a quem beneficiaria se o atirador no vídeo fosse branco. Como seria mais fácil de digerir se fosse um atirador branco, em oposição a um negro? E isso me levou a concluir que ou você tem negros matando uns aos outros e brancos que não ligam, ou você tem um branco matando um negro em mais um caso de "disparo justificado". De uma maneira ou de outra, é fácil os brancos se distanciarem.

Deixe eu lhe fazer duas perguntas. Aquelas crianças dançando. Elas parecem, devido à roupa que estão usando, crianças que estudam em algum tipo de escola onde os alunos têm que usar uniforme?

Eu interpretei isso de duas maneiras. Interpretei como um uniforme escolar, mas também como um indicativo de que somos todos iguais. As garotas e os garotos com quem ele (Glover) está dançando todos têm penteados semelhantes. Mas eu interpretei simplesmente como sendo "somos todos iguais". Também pensei naquela reportagem recente sobre uma escola em Chicago onde todos os alunos usam uniforme. A maioria dos alunos é negra. Eles têm que ser escoltados para o banheiro e de volta, e isso me fez pensar em como, para jovens negros, a escola virou uma passagem para a prisão. E extrapolei a partir disso.

Existe isso. Mas eu vou extrapolar ainda mais, se você me permite. Muitas vezes o grupo minoritário é forçado a adotar as regras e os costumes da maioria – pelo menos na aparência --, e isso não ajuda, de qualquer maneira.

Pense nos indígenas cherokees ou em um sem-número de outras tribos indígenas cujos membros foram obrigados a estudar em escolas em regime de internato e forçados a falar como brancos, andar como brancos, se vestir como brancos, ficar com cara de brancos, e mesmo assim foram maltratados. Mesmo que você se submeta às regras da maioria, ainda viverá cercado por toda aquela dor. Ela ainda vai te acompanhar.

YouTube/Childish Gambino

A outra coisa da qual não falamos foi o histórico de profanar defuntos negros. Meu livro novo tem uma seção que fala de como os cadáveres de negros foram usados para produzir produtos de couro – sapatos, cintos, carteiras, encadernações de livros, alças de lâmina de barbear, qualquer coisa para a qual se usaria couro. Por que estou mencionando isso? Novamente, sem querer extrapolar demais, aquele corpo arrastado no vídeo representou, para mim, o desrespeito pelo corpo de negros, vivos ou mortos.

Parece que nós dois coincidimos em relação a uma coisa: que, independentemente de todo o resto que acontece nele, o vídeo denuncia que ninguém liga para pessoas negras, a não ser que estejamos dançando.

Você resumiu bem. Mas a outra parte é que a dança é uma coisa feita por negros e brancos para evitar ter que encarar a realidade da América.

Isso é ruim?

Sim. Quando a dança para, os problemas permanecem. Todos os dias dançamos – ou trabalhamos, estudamos, fazemos compras – como se não houvesse injustiça sistêmica neste país, como se alguns grupos não fossem feridos no dia a dia da sociedade. De quando em quando, um incidente de racismo ou uma expressão de arte nos força a parar para refletir, mas logo depois voltamos a dançar, voltamos à fuga da realidade que tanto almejamos.

Menestréis (Minstrel Show) eram espetáculos teatrais compostos por quadros cômicos e musicais. No palco, pessoas brancas apareciam com a pele pintada de preto (blackface) e faziam imitações estereotipadas e racistas de negros. Nos Menestréis, os negros eram retratados sempre como ignorantes, atrapalhados, preguiçosos, falastrões, supersticiosos e musicais.

A chamadas leis de Jim Crown foram leis promulgadas na região dos Estados Unidos que institucionalizaram a segregação racial no país. A população negra sofreu com esse sistema entre 1876 e 1965.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.