ENTRETENIMENTO
10/05/2018 12:25 -03 | Atualizado 10/05/2018 12:27 -03

O fim do *NSYNC, segundo os integrantes da banda que não se chamam Justin Timberlake

Parece que Lance Bass, JC Chasez, Joey Fatone e Chris Kirkpatrick não estavam prontos para dizer bye, bye, bye quando o grupo acabou.

Gabriela Landazuri/HuffPost Images: Getty Images

Em 2002, o *NSYNC, boy band dos nossos sonhos pré-adolescentes, decidiu fazer uma pausa no auge da carreira. Lance Bass, JC Chasez, Joey Fatone, Chris Kirkpatrick e Justin Timberlake estavam exaustos e precisavam de um descanso, ou pelo menos foi o que os fãs acharam.

Mas, quando Timberlake lançou seu primeiro disco solo, Justified, ficou claro que a situação era um pouco mais complicada.

"Não tem por que minha carreira solo e o *NSYNC coexistirem no mesmo universo. O *NSYNC não corre perigo. A nossa pausa foi uma decisão consciente. Todo mundo queria, todo mundo estava pronto para isso. Fazer shows toda noite para 50 000 pessoas é muito exigente ... Era a hora certa; estávamos todos de acordo", disse Timberlake ao jornal The New York Post em novembro de 2002, antes de fazer o seguinte comentário ambíguo sobre Justified: "Esse disco era o que eu queria fazer".

Era o que Timberlake queria fazer, sim, e talvez Chasez, que também foi para o estúdio trabalhar num projeto solo.

"Aconteceu de forma orgânica para a gente", me disse Chasez no mês passado pelo telefone, algumas semanas antes de se reunir com os integrantes do conjunto para uma cerimônia na Calçada da Fama, em Los Angeles. "Quando você faz uma coisa por um tempo, entra num ritmo, e outras coisas despertam sua curiosidade; você precisa de comida para o cérebro. Na época, sentíamos que tínhamos esgotado todas as ideias para o que estávamos fazendo: 'OK, vamos fazer alguma coisa diferente'. Foi o que fizemos."

Todas essas referências a "nós" sugerem que a pausa foi uma decisão unânime, uma conclusão que beneficiaria a todos. E talvez tenha sido o caso. Mas o fim da banda? Nem tanto.

"A gente achou que ia voltar", me disse Fatone. "Foi tipo: 'OK, depois [que Justin] fizer a coisa dele, blá blá blá, vamos voltar e seguir em frente. E aí, nada. A gravadora só queria promover Justin, acho que foi isso. Ele ficou cada vez maior, o que é incrível para ele, fico muito feliz por ele. Mas ficou esquisito porque não recebemos nenhuma explicação dizendo [que não iríamos voltar]. Ficamos parados um tempo e depois foi tipo: 'fode ou sai de cima'."

Na verdade, a banda nunca anunciou oficialmente o fim do *NSYNC. Mas, no livro Out of Sync – lançado em 2007, cinco anos depois da pausa -, Bass escreveu: "Definitivamente nos separamos. Não é um hiato. Justin deixou claro que não estava interessado em falar de um disco novo tão cedo."

Não teve nada demais – nenhuma briga nem nada. Ainda somos próximos e nos falamos todos os dias, acho que simplesmente acabou... Lance Bass

Quando perguntei a Bass sobre a pausa-que-virou-fim-da-banda, ele disse que sempre viu o *NSYNC "crescendo e amadurecendo", apesar de ter começado como boy band. "Decidimos juntos: 'OK, seis meses. Todo mundo precisa. Precisamos de férias, precisamos do descanso'", disse ele. "Mas, quando voltamos, tudo tinha mudado."

"Demorou um tempo para a gente dizer naturalmente: 'Quer saber? Acho ... que a gente pode ter acabado'", lembrou Bass, rindo. "Foi assim. Não teve nada demais – nenhuma briga nem nada. Ainda somos próximos e nos falamos todos os dias, acho que simplesmente acabou, o que foi truste porque eu estava muito empolgado com o próximo disco."

Fatone e Kirkpatrick sentiram o mesmo.

"No começo, fiquei chateado com o 'porquê'. Aí você entende a logística", disse Fatone.

"Não sei se estava pronto para o fim [da banda]", acrescentou Kirkpatrick. "Nos meus 20 e 30 anos, eu estava numa banda, fazendo turnês pelo mundo inteiro. Você acorda e tem uma agenda no chão dizendo que você tem uma sessão de fotos tal hora, depois um encontro com fãs, uma entrevista de rádio, uma aparição na TV e um show. Aí, de repente, você acorda e não tem nada. Você pensa: 'Ih, cara, pra onde vou agora?'."

Para os fãs e críticos de música, jogar a toalha foi uma decisão esquisita depois de alguns poucos anos de muito sucesso e três discos que lideraram as paradas. Em uma entrevista com o The Hollywood Repórter, no ano passado, Timberlake deu mais explicações sobre sua saída. "Começou como uma guerra de bolas de neve divertida, mas que estava virando uma avalanche", disse ele. "E eu estava evoluindo. Achava que, para mim, a música era mais importante que para outros integrantes da banda."

Se isso é verdade ou não é motivo de debate. Chasez produziu e escreveu várias músicas do *NSYNC e diz que seu lugar predileto ainda é o estúdio. Bass disse que passou boa parte da folga em Nashville escrevendo as letras para um próximo disco da banda.

"Tinha escrito várias músicas e ia apresentá-las, então foi muito triste não passar pela experiência de gravar um disco novo", disse Bass. "Nosso som estava evoluindo – de *NSYNC para No Strings Attached para Celebrity, dava para ver o crescimento. Seria muito interessante saber como estaria nosso som hoje."

Depois de anos separados, o *NSYNC vai voltar a se reunir na Hollywood Bulevar, para receber uma estrela na Calçada da Fama. Mas eles não vão se apresentar. Em vez disso, famílias e amigos, incluindo os apresentadores de TV Ellen Degeneres e Carson Daly, vão celebrar o legado da banda. Vai haver até mesmo uma "experiência imersiva" (ou seja, muita memoria), chamada The Dirty Pop-Up. Será um dia nostálgico e meio anticlimático: o *NSYNC está voltando, mas na verdade não está voltando.

Antes da cerimônia, conversei com os ex-membros da banda para investigar os bastidores do fim do *NSYNC. Bass, Chasez, Fatone e Kirkpatrick toparam conversar. Mas Timberlake, que já contou sua versão algumas vezes, estava ocupado demais. (Ele está na parte americana da turnê mundial do disco Man of the Woods.) Talvez tenha sido melhor assim, porque os outros caras foram fundo nos detalhes do começo da banda, da fama, da dissolução infeliz e das esperanças de uma volta para shows (por mais improvável que seja).

Com vocês, uma história oral do fim do *NSYNC, segundo os integrantes da banda que não se chamam Justin Timberlake.

A ascensão da boy band de Chris Kirkpatrick

Segundo a maioria das histórias, o *NSYNC foi formado pelo produtor musical (que caiu em desgraça e morreu há dois anos) Lou Pearlman, em Orlando, no meio dos anos 1990, depois do enorme sucesso alcançado por ele com os futuros rivais Backstreet Boys. Chris Kirkpatrick se reuniu com Pearlman para discutir a ideia de uma nova boy band, graças à sua conexão com Howie Dorough, do Backstreet Boys.

"Estudei [no Valencia College, em Orlando] com Howie – a gente cantava junto", disse Kirkpatrick. "E tinha outro cara, Charlie Edwards, que entrou para o Backstreet Boys, mas acho que ele brigou com um produtor e saiu da banda. Foi ele que me procurou, dizendo que esse cara, Lou Pearman, estava procurando outra banda."

Depois do encontro com Pearlman, Kirkpatrick e o produtor começaram a fazer audições para encontrar os outros integrantes da banda, trazendo "quartetos de que eu tinha participado na escola". Eles encontraram alguns potenciais candidatos antes de ex-Clube do Mickey Justin Timberlake aparecer, trazendo com ele o também ex-Mouseketeer JC Chasez. Numa noitada na Pleasure Island, na Disney World, eles encontraram um amigo em comum que parecia uma adição natural ao grupo: Joey Fatone, um nativo do Brooklyn que estava morando em Orlando.

"Eu disse: 'Ei, esse é meu amigo Joey. Nós trabalhamos na Universal!' E JC disse: 'Sim, a gente o conhece. Ele costumava aparecer no Clube do Mickey'", explicou Kirkpatrick. "Então todo mundo se conhecia."

Na época, Fatone estava em outra banda, a Big Guys, com Luis Fonsi, mas abandonou o grupo para se juntar a Kirkpatrick. Jason Galasso, também do Big Guys, seria o quinto integrante. Foi assim que nasceu o conceito do nome *NSYNC (que vem de In Sync, ou sincronizados): as últimas letras dos sobrenomes dos integrantes – JustiN, ChriS, JoeY, JasoN e JC – formavam o nome da banda. Galasso não durou muito, claro. Ele logo foi substituído por Lance Bass, que teria sido apelidado de Lansten para que o segundo "N" do nome ainda fizesse sentido.

"Bob Westbrook era meu professor de canto. Quando eles formaram a banda, Justin ligou para ver se ele conhecia algum baixo, e ele imediatamente pensou em mim", disse Bass. "Eu achava que minha mãe jamais deixaria [eu entrar na banda]!"

Com 14 anos, Timberlake era o mais jovem do grupo, seguido por Bass, 16; Fatone, 18; Chasez, 19; e Kirkpatrick, 23. As mães de Timberlake e Bass acompanhavam o *NSYNC nos ensaios e nas viagens, pois os dois não podiam estar desacompanhados.

"Nossas mães lavavam roupa na pia do hotel toda noite, porque a gente usou a mesma roupa durante uns seis meses", disse Bass, rindo. "Não tinha escolha, era o que a gente conseguia pagar na época."

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The fresh-faced members of *NSYNC pose in Germany in 1996.

Em 1996, o *NSYNC tinha assinado com a BMG Ariola Munich, e a banda foi para a Europa trabalhar com o produtor e compositor sueco Denniz PoP e o produtor Max Martin, no estúdio Cheiron, de PoP. Foi lá que eles aperfeiçoaram a imagem de "boy band" – uma imagem que eles não tinham certeza se funcionaria com o histórico musical dos integrantes.

"O período na Europa foi a única vez em que senti que fomos pressionados com estilos e coisas novas, porque era tudo tão novo pra gente. A gente achava que estava sendo aculturado", disse Chasez. "Estávamos experimentando e tentando ser o mais abertos possível."

"Basicamente tínhamos um selo e executivos olhando para a gente e dizendo: 'Ei, agora vocês têm de fazer isso', especialmente o falecido Lou Pearlman. Ele sempre dizia [imitando uma voz rouca]: 'Agora quero ver vocês assim'", disse Kirkpatrick. "Acho que a gente poderia ter sido muito melhor desde o começo se ele não nos pressionasse para nos encaixar nesse modelo. Na época nem existia a expressão boy band, é como Lou soubesse o que ela significava."

No começo, a paixão da banda eram as músicas à capela. Kirkpatrick lembra que, na Europa, os integrantes procuravam corredores com boa acústica para cantar em harmonia – uma imagem que sempre torcemos para existir, cinco amigos angelicais que não conseguem parar de cantar.

"Ser da banda era tipo: 'OK, queremos que vocês se vistam de palhaços. OK, agora queremos vocês na piscina sem camisa'. Tantas vezes a gente se perguntava por que estava fazendo aquilo. Parecia estupidez", disse Kirkpatrick.

Apesar de eles insistirem que não tinham de se encaixar em personas, a banda se aproximou da visão original de Pearlman. Não eram papeis tão definidos "como os da Spice Girls", diz Kirkpatrick, mas eles atendiam a certos nichos de fãs.

"Nunca foi: 'Você tem de ser o engraçado, você tem de ser o cool, você tem de ser o sexy'", diz Fatone. "Tipo o Chris era sempre o piadista e o cara das pegadinhas. Justin tinha uma voz incrível e todo mundo queria casar com ele. E as mães queriam me levar para casa e fazer o jantar. Sempre fui esse cara."

"A gente sempre achou que o mais importante era sermos bons no que estávamos fazendo, e o resto se ajeitaria", disse Chasez.

Esse foi o mantra na hora de decidir quem cantaria os solos. Kirkpatrick explicou que, no começo, eles se revezavam nos ensaios, mas no estúdio duas vozes claramente se destacavam.

"Justin e JC já cantavam, eram profissionais e sabiam o que estavam fazendo. Mas eles também provaram que eram os melhores cantores. Eu tinha um falseto bem agudo, então ficava nas oitavas e nas harmonias", assim como Joey e Lance, afirmou Kirkpatrick.

Depois de explodir na Alemanha com o hit "I Want You Back", eles lançaram "*NSYNC", pela BMG, Ariola Records e Trans Continental, em maio de 1997. O disco chegou ao primeiro lugar das paradas em duas semanas. Do dia para a noite, a banda era um sucesso no mundo, fazendo turnês na Europa e chamando a atenção da RCA Records, que contratou o grupo nos Estados Unidos. A gravadora mudou algumas faixas para o lançamento americano, que aconteceu em 24 de março de 1998.

Mas o público americano não abraçou o *NSYNC logo de cara. "I Want You Back" não teve a mesma atenção recebida no exterior, e o disco estreou na 82ª posição na Billboard 2000. Então a Disney, bastião da mídia focada em pré-adolescentes e além, foi a salvação: a empresa lançou o especial *NSYNC: In Concert, exibido em julho de 1998.

"Estávamos um pouco desanimados, achando que não conseguiríamos criar a mesma loucura da Europa. 'Vamos ter uma carreira normal aqui'. Mas o especial da Disney começou a passar cinco vezes por dia, durante meses, e fomos de zero a 100 de uma hora para a outra", disse Bass.

Em outubro, o disco já estava no segundo lugar da Billboard 200, e aí começou o pandemônio.

Os anos 'No Springs': como 'Laranja Mecânica' inspirou o *NSYNC

Justin, JC, Joey, Chris e Lance viraram celebridades, seus rostos decorando as paredes dos quartos das adolescentes. "Tearin' Up My Heart" – ou o igualmente bem-sucedido disco de músicas de Natal, "Home for Christmas" – tocava no som dos adolescentes em toda parte. Eles fizeram turnê pelos Estados Unidos, apareceram no programa Total Request Live e participaram de eventos com a princesa do pop na época, Britney Spears, namorada de longa data de Timberlake. (Mas essa é outra história.)

"Era quase como estar na faculdade, crescer com esses artistas que tinham a mesma idade, começando na mesma época: Destiny's Child, Mandy Moore, Britney, Christina [Aguilera], Backstreet – era uma faculdade do pop", disse Bass. "Todo mundo trabalhava junto, fazia turnê junto, virou meio que uma família."

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Britney poses with the guys of *NSYNC at the 1999 MTV Video Music Awards rehearsals.

Amigos, talvez, mas ainda assim inimigos. Quem acompanhou o noticiário de entretenimento de 20 anos atrás sabe que havia uma rivalidade enorme entre os fãs dos Backstreet Boys e os do *NSYNC – uma rivalidade que as bandas dizem ter se perpetuado por causa da imprensa.

"Todo mundo, especialmente os fãs, estava tentando nos jogar uns contra os outros, mas durante uma época a gente tinha os mesmos agentes. Então cada um estava na sua, mas era sempre: 'Backstreet, Backstreet, Backstreet' para a gente e '*NSYNC, *NSYNC, *NSYNC' para eles", disse Kirkpatrick. "Depois de um tempo, essa coisa pega e você acaba alimentando um pouco. Acho que as pessoas queriam acreditar nessa animosidade entre a gente."

Na verdade, o *NSYNC estava menos focado no drama com os BSB e mais na disputa judicial com Pearlman, Trans Continental e BMG Entertainment, em relação à conduta dos negócios. A banda rompeu o contrato e assinou com a Jive Records, afirmando que Pearlman e os outros selos os enganaram e exploraram, ficando com a maior parte dos lucros da venda dos discos. Meses depois, Pearlman e a BMG processaram a banda por rompimento prematuro do contrato, pedindo 150 milhões de dólares de indenização. O processo acabou num acordo extrajudicial. O *NSYNC lançou o terceiro disco, "No Springs Attaché", pela Jive no começo de 2000. O conceito do álbum, que dominou a Billboard 200 por oito semanas consecutivas, foi ligeiramente inspirado pela confusão.

Pensamos: 'Ninguém mais nos controla. Agora somos nós, isso é o que somos, não vamos baixar a cabeça para os agentes e as gravadoras", disse Kirkpatrick.

O disco contém Bye, Bye, Bye, It's Gonna Be Me e This I Promise You e foi responsável por alguns dos momentos fashion mais icônicos da banda: jaquetas de jeans desbotado, calças cargo de couro e cabelo espetado e tingido.

"No Springs Attaché tem a ver com o Pinóquio. Não estávamos mais sendo controlados por ninguém. Tivemos essa ideia bizarra de uma colcha de retalhos laranja – uma coisa meio 'Laranja Mecânica'", disse Fatone. "Um cara chamado Steven, que era do figurino, veio com esses desenhos e a gente adorou."

Para o vídeo de It's Gonna Be Me, o grupo – assim como em Bye, Bye, Bye – gravitou para um conceito de marionetes, aparecendo como bonecos em uma loja de brinquedos. Fatone diz que é um dos seus clipes favoritos.

"É um dos básicos. Como 'Bye, Bye, Bye'. Todos os nossos vídeos marcam porque são símbolos de uma época."

As fãs eram intensas nessa época. Ninguém estava atrás de uma tela de iPhone tuitando como o *NSYNC era a maior boy band de todos os tempos. Elas estavam fisicamente presentes nos shows e tapetes vermelhos.

"'Que porra é essa?' Algumas eram realmente fanáticas, sabiam o dia do meu aniversário ou perguntavam do meu irmão. Elas falavam como se te conhecessem, apesar de você nunca tê-las visto na vida", disse Fatone. "Elas sabiam tudo o que você tinha feito, tudo sobre você. É uma sensação bizarra e surreal. Até hoje, nunca consegui me acostumar."

Mas o caos era diferente do que Justin Bieber enfrenta hoje em dia – elogios e escrutínio em público e na internet, de críticos e admiradores.

"Tivemos a sorte de aparecer numa época mais inocente. A gente podia ser idiota, podia ser visto com uma cerveja na mão numa balada sem se preocupar que alguém tiraria uma foto", disse Bass.

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Lance Bass poses for a photo in 2001.

Bass talvez tenha tido a tarefa mais difícil no que diz respeito a lidar com as fãs. Na época do *NSYNC ele ainda não tinha saído do armário e passava pela "tortura" de esconder sua identidade atrás de uma persona da cultura pop.

"Estar no palco e cantar aquelas músicas que não têm nada a ver com você, falando de meninas, nada daquilo era real para mim", lembrou Bass. "Eu estava interpretando um personagem o tempo todo, mas, nos bastidores, não podia viver minha vida real, porque achava que tinha de esconder esse segredo."

Depois de aguentar o que ele descreve como uma culpa terrível, o cantor saiu do armário em uma reportagem da revista People, em 2006, chocando amigos e fãs. Ele disse que escondeu sua sexualidade para não diminuir o sucesso dos colegas de banda.

"Os anos 1990 eram uma época diferente", disse ele. "Se você saísse do armário, se soubessem que você era gay, seria um desastre, as pessoas enlouqueciam. Achava que, se descobrissem que eu era gay, a gravadora iria nos demitir e as fãs iam nos odiar – essas eram as loucuras que passavam pela minha cabeça quando eu era adolescente. Então só me treinei para ser uma certa pessoa, e virei aquela pessoa."

Bass disse que "tudo teria sido diferente" se ele tivesse revelado sua sexualidade nos tempos de *NSYNC, pois sabia que contaria com o apoio do resto da banda.

"Desde que conheço os caras, sei que eles não tem nada de intolerantes, então sabia que estaria tudo bem, mas também sabia que eles não conseguiriam manter o segredo", disse ele, rindo. "Por isso não contei para ninguém. Achei que, se contasse para uma pessoa sequer, iria vazar. Então o segredo ficou comigo, e só comigo."

Eles estavam dando um tempo: a ascensão de Justin e a queda dos outros

Poucos meses depois do lançamento do quarto disco, "Celebre-te", que continha "Gone" (indicada para o Grammy) e "Girlfriend", as coisas começar a mudar. O disco vendeu quase 1,9 milhão de cópias na primeira semana, mas, depois de duas turnês que duraram meses, a banda estava sem ideias novas e decidiu anunciar um hiato.

"A gente pensava: 'OK, já fizemos isso, já fizemos isso. Não sei o que mais podemos fazer. Acho que tenho uma ideia, mas pra outra coisa, então vou mudar de marcha", disse Chasez. "Àquela altura, cada um estava envolvido em alguma coisa diferente. Chris estava mexendo com uma ideia de uma linha de roupas, Lance queria ser astronauta", disse ele, rindo. "Joey queria fazer filmes, Justin queria uma carreira solo, eu estava interessado em trabalhar no estúdio."

Nesse ínterim, Timberlake lançou seu primeiro disco solo, Justified, em novembro de 2002. Chasez lançou o single "Blowin' Me Up (With Her Love)" no mês seguinte, e seu álbum Schizophrenic saiu em 2004. Bass fixou-se na meta de ir ao espaço (é sério). Fatone tentou as telas, com Casamento Grego, e Kirkpatrick lançou sua linha de roupas, FuMan Skeeto (as roupas eram tão ruins quanto o nome. Mas, apesar das iniciativas individuais, a maioria dos membros da banda acreditava que a pausa fosse temporária – que eles voltariam, gravariam outro disco e fariam mais turnês.

Isso nunca aconteceu.

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*NSYNC, in even more iconic looks, performed in Anaheim, California, in 2002.

Deixar de ser celebridade foi difícil para alguns. "Cometi o erro de ser muito complacente. Tinha essa coisa de celebridade acontecendo e achei que ia passar os próximos anos só na balada", disse Kirkpatrick. "Eu era jovem o suficiente para achar que aquilo era a coisa certa. Olhando pra trás, vejo que desperdicei muitas oportunidades, que poderia ter feito muita coisa."

Kirkpatrick, Bass e Fatone disseram que não sentiram pressão para começar carreiras solo, mas ficaram frustrados ao ver o fracasso da estreia de Chasez.

Digo o nome Justin Timberlake e é quase como dizer o nome Madonna – um nome que todo mundo pensa: 'Claro'. Chris Kirkpatrick

"Justin ia acabar sendo Justin de qualquer jeito, começando no *NSYNC ou não". Mas fico surpreso por JC não ser famoso, porque ele tem o mesmo talento", disse Kirkpatrick. "Ambos cresceram no Clube do Mickey com Britney e Christina, são talentos incríveis. Realmente gostaria que JC estivesse fazendo mais coisas. Ele tem muito a oferecer."

Até mesmo Timberlake elogiou Chasez, dizendo à MTV em 2006: "Na minha opinião, a voz dele era a melhor de nós todos. De todas as boy bands, diga o que quiser, ele cantava melhor que todo mundo."

"Fico lisonjeado, porque vem de alguém como Justin, um grande músico. Ele é um dos meus artistas prediletos", disse Chasez quando o lembrei do elogio. "O sentimento é mútuo. Acho que ele fez algumas das coisas mais legais lançadas nos últimos 20 anos. Por outro lado, é claro que seus amigos vão dizer coisas legais!"

No geral, os quatro integrantes do *NSYNC que não são Justin Timberlake só têm coisas boas a dizer sobre ele. A admiração pode parecer surpreendente, considerando que foi a decisão de Justin que causou o fim da banda. Mas hoje todos parecem entender que ele tinha de ser egoísta para se transformar no superstar global que é hoje.

"Digo o nome Justin Timberlake e é quase como dizer o nome Madonna – um nome que todo mundo pensa: 'Claro'", disse Kirkpatrick. "Estou no Super Bowl assistindo o show que ele fez no intervalo, pensando: 'Cara, isso é enorme'. Ele realmente se deu muito bem, e não sou invejoso, então é incrível ver tudo isso, porque sinto que tem parte de mim ali."

Falando em Super Bowl, como os caras se sentiram por não serem convidados para participar?

"Todo mundo queria, todo mundo estava esperando, mas o show é dele, ele faz o que quiser", disse Fatone. "O cara estava fazendo o trabalho dele. Me perguntam se fiquei chateado, e eu respondo: 'Não, não tem como. De jeito nenhum."

"Já fizemos o VMA da MTV, o que mais vamos fazer – repetir a mesma coisa?", insistiu Chasez. Kirkpatrick completou: "Todo show é diferente, toda circunstância é diferente".

I want you back: 'Se as estrelas se alinharem, vamos voltar'

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*NSYNC reunites for Justin Timberlake's Vanguard award performance at the 2013 MTV Video Music Awards.

Quando o assunto é *NSYNC, todo mundo ainda pensa em uma volta.

Os caras ainda mantêm contato por mensagem – "às vezes estou bêbado e digo: 'Amo vocês, vocês são demais. Feliz Natal'", disse Fatone --, mas o *NSYNC é uma das únicas boy bands a não voltar para fazer shows ou gravar um disco. A única apresentação desde a "pausa" foi no Video Music Awards da MTV, em 2013, quando Timberlake recebeu o prêmio Vanguard (https://www.youtube.com/watch?v=opfslwNT4WM). E eles se encontraram na cerimônia da Calçada da Fama, na segunda-feira.

"É uma chance para a gente, apesar de não estarmos dançando ou cantando, de ainda parecer meio que uma performance, porque quando estamos juntos em público as pessoas comentam", disse Chasez. Fatone afirmou: "Você sempre quer uma coisa assim, uma espécie de legado. Vai ser legal encontrar os fãs de novo, encontrar as pessoas com quem trabalhamos – acho que muitos vão aparecer. Vai ser uma reunião incrível."

Quando perguntamos se os looks famosos do *NSYNC também apareceriam em Los Angeles, os caras deram risada.

"Não sei se vamos tirar os looks antigos do armário. Mas Joey adora guardar coisas velhas, então ele provavelmente ainda tem como se vestir daquele jeito", disse Chasez.

"Ainda tenho algumas [roupas], mas acho que elas não servem mais. Esse é o problema", brincou Fatone. "Era tudo um pouco menor na época!"

"Aqueles looks ficaram no passado", disse Kirkpatrick, "e os penteados também!"

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JC Chasez, Chris Kirkpatrick,Lance Bass, JustinTimberlake, and Joey Fatone pose for an August 1999 portrait in Los Angeles, California.

Se você espera uma volta da banda, podemos dar alguma esperança: nunca diga nunca. Mas tenha em mente que Timberlake, que continua lotando shows 15 anos depois do lançamento de seu primeiro single, Like I Love You, provavelmente não participaria de uma reunião. Não há incentivos para que Justin, que já foi até indicado ao Oscar, volte a se apresentar com a banda, mesmo que os outros quatro pudessem se beneficiar – profissional e financeiramente – com uma residência em algum cassino de Las Vegas ou com uma turnê de verão. As fãs dedicadas vão continuar vivendo de lembranças, uma época perfeitamente preservada imune à imagem dos meninos crescidos cantando e dançando juntos.

"Você nunca sabe o que vai acontecer", disse Bass. "Mas talvez tenha sido bom parar cedo", continuou ele. "É quase como a morte prematura de uma celebridade, como Marilyn Monroe. Quando você termina jovem, dura para sempre."

"Para mim, é questão de tempo", disse Fatone. "Se as estrelas se alinharem, vamos voltar."