11/05/2018 00:00 -03 | Atualizado 11/05/2018 00:00 -03

Karin Thies, a matemática que calculou seus riscos e um futuro com os números

Ela valoriza viver de números e análises estatísticas: “Sempre achei muito bonita a matemática. Ela é muito perfeita, as coisas se encaixam”.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Karin Thies é a 65ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Ela fez questão de começar com a apresentação de seu grande companheiro. Estão juntos há 12 anos. Nascido em Porto Alegre, ela o conheceu na internet e vão juntos para todos os lugares. Trinta e dois anos, vermelho. Placa preta. O terceiro do tipo que ela já chamou de seu: um Passat 1.8 de 1986 está lá, pleno, estacionado na porta da empresa de Karin Thies, 48 anos. É uma sensação. Chama atenção e já virou uma lenda. Merece ser tratado praticamente como uma pessoa a parte mesmo. "Comprei pela internet, sem ver, mandei vir de Porto Alegre e comecei a restaurar esse carro. Passei 10 meses restaurando. Foi todo um processo longo e ele ficou desse jeito", conta orgulhosa, com um sorriso no rosto.

O primeiro do tipo que teve foi ao aprender a dirigir. O pai, mecânico, escolheu para ela. "Foi uma coisa afetiva. Eu de fato gostei do carro e ficou essa ligação". Karin lembra que achava o máximo saber dirigir e queria muito aprender. Assim que conseguiu alcançar os pedais, pediu ao pai. Tinha 12 anos. Mais tarde, ela faria o mesmo por seu filho. Foi nesse Passat 86 que o ensinou a dirigir. "No dia a dia ele dirige outro carro porque esse está sempre comigo, mas ele gosta bastante".

Estava naquela euforia, ia mudar para São Paulo e tive essa surpresa. Me falavam que eu não ia conseguir, que não ia ter cabeça para estudar com um bebê pequeno, sozinha, mas eu quis tentar, era o que eu queria fazer.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Quando seu Passat 1.8 de 1986 apresenta algum defeito, ela sabe exatamente o que aconteceu.

O papo sobre carro pode confundir um pouco porque Karin não trabalha com nada relacionado à mecânica ou mercado automotivo. Dava uma força para o pai na oficina, é verdade. Sabia o nome de todas as ferramentas e até hoje usa esse aprendizado. Quando seu carro apresenta algum defeito, ela sabe exatamente o que aconteceu. Mas seu caminho profissional foi para outro lado. Karin é matemática e co-fundadora de Geru, uma plataforma de empréstimo on-line. Deixou as ferramentas para passatempo e caiu nos números e gráficos. E lutou contra algumas estatísticas difíceis.

Nascida no interior de São Paulo, cursou um ano de biologia, largou a faculdade e passou na Fuvest para matemática. Feliz da vida com sua escolha, dois meses depois do resultado do vestibular descobriu que estava grávida. "Era aquela euforia, ia mudar para São Paulo e tive essa surpresa. Me falavam que eu não ia conseguir, que não ia ter cabeça para estudar com um bebê pequeno, sozinha, mas eu quis tentar, era o que eu queria fazer".

Calculou seus riscos. Com o apoio dos pais, seguiu em frente. Nunca interrompeu os estudos e concluiu a faculdade. "Foi bastante sacrificado, mas consegui conciliar as coisas. Cuidava do meu filho, ia às aulas e estudava da noite para a madrugada, o momento que tinha mais tranquilidade em casa para fazer isso. É um hábito que tenho até hoje, é o momento em que sou mais produtiva."E precisava ser. Karin conta que o curso não era nada fácil. Ela lembra que era necessário estudar de 5 a 6 horas por dia para conseguir acompanhar.

Entrei nesse mundo muito masculino, mas de alguma forma eu consegui trazer uma visão um pouco diferente e contribui de uma maneira intensa nos lugares em que passei.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
No início da faculdade e grávida, Karin calculou seus riscos, literalmente. E com o apoio dos pais, seguiu em frente.

Acompanhou e tinha alguns fatores do seu lado. "Fiz gostando muito do que eu estava fazendo e quando terminei as empresas estavam muito em busca de matemáticos e estatísticos e peguei uma onda boa de contratações e tive essa sorte de deslanchar muito rápido por onde eu passei". Fez carreira em empresas e sempre conseguiu destaque em suas funções. "Entrei nesse mundo muito masculino, mas de alguma forma eu consegui trazer uma visão um pouco diferente e contribui de uma maneira intensa nos lugares em que passei. Meus chefes e meus colegas começaram a perceber que era bom ter uma mulher em uma carreira dessas, então sempre me senti valorizada".

Após cerca de 20 anos atuando com desenvolvimento de modelos estatísticos para tomadas de decisão nas empresas, foi convidada para participar da fundação da Geru. Pediu demissão de uma multinacional e seguiu para esse novo desafio, concretizado em março de 2015. Não foi fácil. Enfrentaram desafios, fizeram ajustes e hoje estão felizes com os resultados e o crescimento da empresa. E Karin sabe que contribuiu para isso. "Os desafios que uma mulher tem [em ambientes masculinos] ficam mais suaves quando você consegue descobrir aquilo que você faz de melhor e como contribuir. Se você coloca isso em prática é matador."

Sempre achei muito bonita a matemática. A matemática tem esse lado... ela é muito perfeita, as coisas se encaixam.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Karin e sua grande paixão, antes da matemática: seu Passat 1.8 de 1986.

Karin descobriu o que faz de melhor. "Sempre achei muito bonita a matemática. A matemática tem esse lado... ela é muito perfeita, as coisas se encaixam. Ela é desenvolvida dessa forma, isso é legal e muito bonito." Talvez seja essa coisa de tratar bem aquilo que é especial em sua vida. A matemática também é quase uma pessoa à parte para ela. E das mais queridas, claro. Ela aponta para uma das diversas lousas brancas da empresa e pede um registro com um dos esquemas que fez na parede. Quase como quem pede para ser fotografada com um ente querido - ou com seu carro de coração. "Gosto muito do que eu faço, transcende a questão profissional. Acho que tive muita sorte."

Não sei se sorte ou se fez apenas as contas certas e as análises de dados corretas. Acredito que a probabilidade maior está na segunda opção.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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